segunda-feira, 26 de março de 2012

Eduardo e João: Parte I

O copo cheio

Todo o amor que tínhamos um pelo outro acabou naquela sexta-feira do dia 30 de março. O nosso amor morreu. O nosso lar se desfez em ruínas, nas lembrabças dos castelos construídos de areia a beira mar. A nossa história com o tempo deixou de ser contada entre os grupinhos pelas ruas. Caímos no esquecimento de todos. Naquela espécie de buraco negro onde todas as memórias se escondem com o tempo, e com tempo pra perder ou ganhar. Sem a pressa do horário do almoço! E já faz tempo que tudo isto aconteceu. Ainda assim, foi a mais bela história de amor que eu vivi em toda minha vida. Ou posso arriscar dizer que foi a única vez que amei. Talvez não por que tenha sido o maior amor o que o torna especial, mas foi o último. O que ainda tenho em minhas lembranças vejo refletido neste copo d’água em temperatura ambiente com gosto de fel nos perfumes de elixir paregórico das soluções das diarréias da infância. Fico a pensar no quanto somos volúveis e mesquinho com as marcas que o tempo vai escrevendo em nossa pele. As lembranças povoam em minha mente como varejeiras em torno de corpos necrosados, fétidos, numa decomposição que me funde ao solo e não me permiti locomover minhas pernas no espaço. Sinto-me fundir neste cemitério de sentimentalidades de minha cabeça insana.
O que você prefere, cerveja ou vodca? Por mais estranho que pareça foi com esta frase que começou toda esta história. Eu estava num bar com um grupo de amigos quando a conheci. Era jovem, delicada, bonita, recém chegada à cidade e ainda encantada com a boa recepção de todos. Normal, sempre somos muito simpáticos e hospitaleiros a primeiro instante no interior. E com esta pessoa não poderia ser diferente, era extrovertida, inteligente, enfim, uma companhia formidável. Em resposta a minha pergunta foi imediata e convicta: “Por mim pode ser até gasolina.” Me respondeu já desenhando risos e logo gargalhadas no rosto. Eu já sabia que não saberia lidar muito bem com o que via acontecer entre os nossos olhares. Eu tinha medo do que via, pavor do que sentia, mas algo no mais íntimo me fazia prosseguir. E eu prossegui. Até que chegou o amanhã e no nosso amanhecer erámos muito mais que íntimos. Éramos corpos entrelaçados entre pernas, braços, suor seco e cabelos. Tramas de tricô tecida de lã que desnuda ovelhas encobria nossa natureza. Éramos nós dois. E um momento.
Era claro que o constrangimento se instaurou entre os nossos gostos de hálito contaminado em cigarros e cervejas. Como fumamos. Tragávamos os cigarros como famintos que buscavam trazer a satisfação pra dentro de si e prendê-la entre os pulmões e traquéia, numa sensação estranha de que todo o vazio que existia em meu mundo dava lugar à plenitude.
Havia de ter maior criatividade a culpa para nos roubar a alegria da fantasia que tivemos na noite que mal dormimos. Havia uma beleza nobre nas cores de nossa timidez. Eu não sei muito bem como explicar, mas sentia que os calafrios das acusações dos pudores e desamor se desmanchavam entre os toques e retoques que se reiniciavam em nosso lençol e eu convidei para um café da manhã. Queria roubar de sua pessoa o tempo que corria como ladrão em fuga flagrante de nós dois e foi no sim, não menos inevitável e imediato que vi a paz de desentender que pela primeira vez na vida poderia me apaixonar e desconstruir todo o forte que torturou o meu pesadelo. Ele em seus olhos verdes de contraste a pele amarronzada sorriu pra mim.


CONTINUA...

5 comentários:

  1. to gostando muito, eu sei q sou suspeita, mas ta mt bom

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  2. Eduardo e João, fictícios ou reais. Ou ambos, do jeito que Schrödinger diria.
    De uma história de amor só se pode esperar que termine bem, mesmo que por algum acaso eles não terminem juntos.

    Me reservei o direto de terminar a história. E de sentir uma invejinha também.

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  3. Luisa Espindula Oliveira Andrade26 de março de 2012 23:10

    Que sensibilidade hein Val... adorei! Quero a continuação logo!

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  4. Pelo jeito não terminam juntos,mais to torcendo que pelo menos terminem bem no final.

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