quarta-feira, 22 de abril de 2026
NÃO SE FAZ POESIA PARA POEMA
terça-feira, 21 de abril de 2026
MADRUGADA
quer sua superfície tocada
domingo, 19 de abril de 2026
Madrigada
Inteiro como quem aprende a colar os próprios cacos com uma destreza que impressiona quem vê de fora. Nada fora do lugar. Nada fora do tom. A vida, essa vitrine bem iluminada, segue exposta — limpa, organizada, quase convincente.
Eu sou o rei das multidões.
Caminho entre vozes, risos, cumprimentos, e ainda assim carrego um silêncio que não cabe em nenhuma sala cheia. Porque multidão não escuta o que é sussurro da alma. Multidão aplaude o espetáculo, mas não senta no chão comigo quando o palco desmonta.
Dói chorar sozinho.
Dói porque o choro, quando nasce, não encontra caminho. Ele não escorre — ele se perde. Não há leito, não há rio. Só essas marcas no rosto que não são de tempo, são de contenção. Rugas de sentimentos represados. Barragens erguidas por medo de transbordar onde não cabe.
E eu olho o rio…
O rio segue. O rio sabe para onde ir. O rio descansa no próprio curso. Eu, não. Eu represando em mim o que deveria correr. Eu acumulando em silêncio o que deveria encontrar margem.
Eu queria falar.
Mas falar é perigoso quando a gente passou a vida sendo entendido pelo que aparenta.
Eu queria dizer.
Mas dizer desmonta a imagem, e eu me tornei especialista em sustentá-la.
Eu queria ser.
Mas ser exige uma coragem que ninguém ensina quando você aprende cedo demais a corresponder.
E no meio disso tudo, Deus.
Ou a ideia dele. Ou a expectativa que eu criei em nome dele.
Eu me pego perguntando:
Deus, qual foi o teu propósito pra mim aqui?
Mas no fundo, talvez a pergunta esconda outra mais incômoda:
em que momento eu deixei de viver o meu próprio sentir para tentar acertar o teu olhar?
Porque se até Deus eu tento agradar, então eu me perdi de mim em algum ponto do caminho.
É estranho…
Eu sei me comunicar, sei me posicionar, sei ocupar espaço.
Mas quando a dor pede voz, eu viro estrangeiro dentro da própria língua.
Hoje eu acordei inteiro, sim.
Mas não inteiro de paz.
Inteiro de esforço.
E talvez — só talvez — exista um outro tipo de inteireza que eu ainda não conheço.
Uma que não precise ser montada todos os dias.
Uma que não precise convencer ninguém.
Uma que apenas… seja.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
UM POEMA PARA CAMBUCI
é o momento que se eterniza num olhar profundo
que ainda olha
e nos vê rendidos por sua beleza ímpar
por sua riqueza verde
e gentil hospedar
Cambuci é conversa nas calçadas que subscreve poesia
é fruta, amor ácido, doce, fantasia
Cambuci é verão
tardes longas deitadas sobre a leveza do tempo
que para eu te ver
e ainda sem partir
de saudades te esperar
Cambuci é abraço das montanhas em torno de histórias
ruas tranquilas de silêncio cheio de memórias
terra com cheiro de chuva antiga, de infância, de raiz
terra que piso, danço, me lanço e sou feliz
casas antigas com janelas que parecem olhos abertos para o porvir
Cambuci é sorrir
é só ir
Cambuci, em ti, como o tempo, eu caminho descalço
e com o peito escancarado voo alço
para te ver, rever, e em tuas águas me lavar
em tua gente me ver e ficar cativo
Cambuci, no recôndito de minhas palavras se calam o amor
que ainda, por ti, não sei falar
mas vivo
segunda-feira, 6 de abril de 2026
HEY
terça-feira, 31 de março de 2026
RECOMEÇAR
DOIS LADOS
terça-feira, 24 de março de 2026
PARA AMOR MEU
e virou abrigo
tem gente que passa
como vento distraído
você é uma brisa que traz ar
você ficou
em lealdade que não grita
você cuida
como quem entende o silêncio
antes mesmo da palavra existir
como quem chega
sem fazer barulho
e, ainda assim, muda tudo
muda junto
e nos faz florescer
em mim
você tem casa
no meu coração você tem um lar
sábado, 21 de março de 2026
ESMO
sexta-feira, 20 de março de 2026
quarta-feira, 18 de março de 2026
SENTIR
talvez vencido pelo cansaço
o pensamento que me atravessa
seja o parar
eu paro e me escuto
e no escuro desse tumulto
canto uma cantiga de ninar
para as vozes que salientes
dissipam minha paz
tomo um tempo
tomo água
tomo um ar
e não temo
o céu nublado
alvejado por relâmpagos
movimento o meu corpo
em direção à chuva
eu abraço a tempestade
num ritual humano e sagrado
não culpo as dores
nem cultuo as flores
eu deixo ser
e sou
me deixou crer
me dou
ser humano é perfeito
o imperfeito é se endeusar
LUA NOVA
terça-feira, 17 de março de 2026
ITA
segunda-feira, 16 de março de 2026
SINGULAR
se manifesta em tantos você?
quase acreditei
na versão que falava baixo
na outra
você já era distância
antes mesmo de ir
há algo curioso
em descobrir uma pessoa
não que ela mentiu
apenas
que era plural
desde o início
singular
sem lar
domingo, 15 de março de 2026
MARGEM
sábado, 14 de março de 2026
TIA LURDES
interrompidas por paradas
cardíacas estão minhas palavras
que faltam o ar
um sopro era o que esperava
para aliviar a dor da chegada
do fim que se mescla
com a eternidade
há verdade no existir?
ou tudo é penumbra do porvir?
por acaso
se tiveres a me ouvir
e curiosa como és
entre uma nuvem e outra se aventurar
desbravando o céu
ao encontrar vovó pregue-a um susto
ao encontrar papai se deite
em seu gargalhar
quinta-feira, 12 de março de 2026
TIC TAC
segunda-feira, 9 de março de 2026
EM REQUINTE
SIMPLICIDADE
sexta-feira, 6 de março de 2026
STRANGERS ON THE OTHER SHORE
now only echoes in the rain
time slipped softly through our hands,
and love got lost between the lands
we read between the lines of sighs,
two restless hearts beneath the skies
but silence grew where words once were,
and loving you went a bridge too far
now when our lonely shadows meet,
we pass like strangers in the street
domingo, 15 de fevereiro de 2026
sábado, 31 de janeiro de 2026
LINHA E AGULHA
Havia uma
ferida profunda na alma
Um rasgo
multilateral dilacerara o riso
Uma fluidez de
sentimentalidades
Uma liquidez de
toda e qualquer sanidade
Atrás do
empenho por vida
Residia a
desistência pelo pote de ouro
No discurso já
não havia lugar para fantasia
A azia queimava
na garganta
E no coração
congelava o curso de outrora rio
Com a maestria
e pureza humana
De quem celebra
um ritual sagrado e profano
Pus-me, com
linha fina e agulha rígida e impetuosa
Costurar os
meus cacos humanos
Cada vez que
essa atravessava meu tecido
Sentia-me
vestir de novidade esperança
As lembranças
dos desaforos
Em meus poros
exalavam paz
E eu nem a
compreendia
Eu já não esperava
no cais sozinho
Tampouco temia
me lançar no rio
Que minhas
lágrimas produziram
Eu tinha a mim
como parceria, menino
Sempre é tempo
de alinhavar os cortes da dor
Sempre é tempo
de realinhar o ar com o interior
Não importa a
velocidade que vamos
Mas sim a direção
que estamos indo
Ouvi isso hoje
de um amigo
Ninguém é
imensidão sozinho
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
VÍSCERA
eu me sinto só
mas não vazio
excesso
excesso de eu nos outros
de outros em mim
que nunca ficaram
fincam
sempre a(mar) sem amar a volta
sempre per(doar)
como quem doa o próprio ar
conjugo o amor no erro
eu fico
tu somes
ele promete
eu sonho com paz
mas namoro a trincheira
porque amar, pra mim
sempre foi guerra sem medalha
dispenso o conflito
mas conflito me escolhe
me disponho a dois
e me deixam em ímpar
meu voo é terra
porque cansei de cair do céu
achando que era destino
quando era abandono com asas
sou casa sem visita
porto sem chegada
coração em modo avião
esperando uma mensagem
que nunca aterrissa
e ainda assim
olha o vício:
se você bater
eu abro.
porque amar, em mim
não é verbo
é víscera