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terça-feira, 17 de junho de 2025

FELIZ OUTONO

Hoje a manhã acordou com anseio de amanhã. Como se os ponteiros do tempo estivessem embriagados pela pressa e pudessem pular a dor, adiantar a mágoa, silenciar o que ainda pulsa. Mas não pulam. Não silenciam. O hoje insiste em ser estilhaço do ontem, com a maturidade tardia que só a ferida aberta nos ensina a suportar.

O tempo não recua. As chuvas não se devolvem ao céu em forma de lágrimas. Um abraço quente não permanece onde a vaidade já cavou trincheiras. Sim, o amor é guerra. E amar talvez nosso último ato de revolução.

Hoje é um dia que não deixou de ser especial. E a memória insiste em peças pregar na narrativa do meu recordar. Rasteja em sua noite precoce como um cão ferido buscando o próprio rastro.

Um armandinho sorrateiro da lembrança me castiga com imagens sonoras que antes seriam ternura — hoje são afiados espelhos retrovisores. Caminho encontros e despedidas empregados nos pretérito-mais-que-perfeito. Todavia perfeito nada é.

Carrego no lombo teu corpo despojado de gentileza. Carrego tua infância eriçada, tua defesa armada, tua rispidez travestida de trauma da qual nunca experimentará a cura. Carrego tua voz encostada nas paredes da casa como mofo que não se deixa arrancar, como uma promessa que se apodreceu no tempo ou ainda a leveza de fitar teu corpo já cansado no banco grande e desconfortável da varanda.

E nas ruas, o silêncio. O silêncio do teu adeus nunca dito — apenas vivido. O silêncio que sempre foi a condição gentil.

Queria te desejar a morte em mim, mas na saga tortuosa pela indiferença, acabo te levando flores.
Flores mudas, flores vencidas. Pois fétido já está o requebrado da tua rigidez. E você ainda não percebe.

Meu peito hoje está lavado de esperança — como as escadarias do Bonfim, onde celebro um luto não autorizado. Despi-me de você sem mee despedir do âmago que eu criei.

Contemplo tua ausência como quem contempla um corpo desacordado de si, sem a intrepidez vivaz, enquanto se reza um reggae à meia-luz, entre velas e cinzas.

Feliz o homem que se permite, mesmo temendo, abrir o frasco de um amor guardado — não para ressuscitar, mas para finalmente enterrar os restos dos ossos do almoço insípido que preparei para o meu juízo.

Feliz aquele que aprende a despedir-se sem testemunhas, sem rito, sem culpa. Bem-aventurado o que não por mera aventura degusta o miocárdio quente que ainda pulsa teu nome, pelo simples apetite do possuir.

Feliz o outono, que em seus gravetos erguem guaritas de lucidez. Que a ti revele outra alma, não melhor, apenas menos cruel com os afetos que depositava na armadilha da defraudação. Afetos teu pra ti. Ah, se vc se rendesse de amor por ti. Quem sabe ainda haveria vida!

Feliz outono! Que em seus gravetos de guarita a verdade lhe traga um outro alguém que lhe toque o coração, sem rolá-lo numa mesa de bilhar, encapando em redes que pescam virilidade nesse amor que jaz como um losing game.

Eu, sigo.
Com a alma sangrando em silêncio e o peito limpo da esperança de retorno. E torno a dizer, sê feliz!
Não te espero mais. Não te desespero menos. Mas também não te expulso. Pode ficar, você  faz parte. Te guardo e te felicito junho. Porque há dores que não viram cinzas — viram poesia.

terça-feira, 19 de abril de 2016

No dia em que Maria se morreu

Nem sei
Disseram que os dias passam
Mas os dias se enrugam
Gastam minhas utopias 
E nem pia minha gota d'água 
Eu se chama derrota
Que se acende sem escolta
Sem proteção do que nem se teve
E se atreve arriscar sinais
Nem sei se os sinos tocaram
Talvez pela sina sinalizaram os ais
Mas todos os dias eram talvez
E Maria era dor em vida
Risos coreografado sem sintonia
Com o que sinto
E sem cinto se situou no chão 
E nunca se levantou
Em si caiu
E ecoou no chão o seu silêncio 
Os sons que todos ouviam
E calavam
E traduziam
E adestravam
No dia em que Maria se morreu
Foi o único dia em que por mim
Se passou vida
Que descanse eu em paz
Ou morra de rir

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A deus sob sete palmos

Abraçada sou pelo concreto da caverna
Por entre os poucos feixes de luz que invadem a tumba 
Permito minha pele se despedir das lamúrias da existência 
Por entre o medo é o horror vou debulhando os grãos de minha lágrima 
Choro em silêncio 
Choro em gritos silenciados pela dor
A dor que despeço agora 
Ela que me despedaçou por hora me encontra à mim 
Que ódio tenho da vida que levei 
O rancor se perpetua em minha carne
E costura a musculatura e ligamentos de meu falso riso
Tão estúpido quanto os olhares aos quais se dirigiam
O ódio se afeiçoou à mim 
E eu descrente da esperança me entreguei a ele
Como virgem que romantiza o desmatar de suas matas
Ele massacrou meu verde e instituiu estradas
Que a nada leva se não ao jogo de me perder
Violentada fui por tratores que não trataram de cuidar do que roubaram
Maculada fui por pés descalços que me juraram resiliência 
Eu fui destituída de meu prazer
Fui corrompida por puro prazer
Fui sem ao menos ser
Porém hoje de mãos dadas ao destino
Me repouso sob sete medidas de meus caminhos
Sepulto viva o meu pesar
Com peso e pessoal me deixo ir
Me tento
Me pecado
A cada dia que passo ultrapassam os meus ais
E desconheço uma razão plausível para continuar moribundo 
Apodrecem os meus sonhos em mim
Apoderam-se de meus ossos a dor
Fina, aguda, silenciosa como a prostituta da luz vermelha
Essa goza múltiplas nascentes por naufrágio de mim
Que deus se perdoe, de por capricho e egoísmo
Depor favorável às Irínias e conceber à mim 
A deus entrego o adeus de minha carne
A deus entrego o que não prestou
E restou de si
Eu me entrego
A man!

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

In tensões

Se a força eu tivesse
E o meu cristo morresse
Não seri eu o contador de minha história 
Eu seria o som que se movimenta de sua boca
Que se costura em suas cordas vocais
E enforca minha reputação
Se a força eu tivesse 
E o meu bicho morresse
Não seria eu o perdão que te libera
O egoísmo que te acalenta e sorri generoso
Eu seria a agulha que estupra a tua fronte
O ar que foge de teus pulmões 
E sequela o teu tino
Se a forca eu tivesse 
E o meu cristo vivesse
Eu seria suicídio.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Escombros

Retiro a acelga da geladeira
Desligo a tevê e Wi-Fi 
Tempero com sal e alfavacas um bife de terceira
Eu que era vegetariano me alimento de sangues
Frio
Eu que era vegetariano canto um novo drama pra mim 
Ponho à mesa minhas solitudes
Disponho no corpo reais frustrações 
Distraio o choro
Retraio o riso
Eu traio à mim em silêncio 
Caio em mim em gritos que nunca esbocei
Mas são os mesmos que me sufocaram 
Os mesmos que focaram o meu peito por moradia
E fincaram com jeito as armadilhas 
Que me inventaram arrepios e pios
Ventaram sobre mim calmaria 
Com porcão de cal que me caiou 
E escondeu o esqueleto 
Que resultou da carne fétida 
E de terceira
Me alimento de mim fracassado 
Tenho por sobremesa o coração assado
Com juras e boas intenções 
Em tensões preliminares vou vomitando minhas destrezas
Rezas por mim
Pelo nome e amor de Deus me liberes
Do encontro com os escombros da casa que sonhei pra mim
E ti



segunda-feira, 26 de outubro de 2015

R.I.P

Suddenly
Houve um ou dois suspiros
E tudo se fez black and blue
Os antigos coloridos das vestimentas
Se tonificaram no rubro que escapava dos olhos
Eram salientes as manobras que a vida escolheu
I wish I could cry or
Kill all the things I have within my alma
We are so cruel to each other 
That we forget we're also another 
Goddam!
Perceptível é a mazela humana
Quando a felicidade do outro 
Começa a nos incomodar
E finda com o last of drop of beauty you had 
Please, quando eu partir não velam o meu corpo
Depositando sobre ele a atenção que nunca me deram
Quando eu partir let me go
In peace
With all the piece de mim 


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Adeus

Sutilmente cercado por minhas íntimas cobras
Utilizado como consolo de meus prazeres
Ignorado pelas sinapses desta mente traiçoeira
Cai inóspito e oco nas sangrias de meu choro
Ignotas foram as juras das companhias amigas
Desleais os anseios que coreografei 
Impactado por relâmpagos de realidade me calei
Observando a morte chegar chorei




quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Bata a porta ao sair

Queria sorrir
Do fundo do meu coração raso, queria
Todavia só tinha forças para o desvencilhar 
Eram poucas as energias que me mantinham vivo
Me autofagia nos cemitérios de minhas recordações 
Ah, se eu pudesse te dizer de minha dores
Talvez pudéssemos replantar aquelas flores verdes
Não
Novas flores
Sim
Ainda há samba em mim
Bossa nova em desarmonia com jazz
Mas esse esqueleto em ruínas não dança mais
Dancei

Ali jaz minha voz 
Que repetidas vezes te amou
Repetidas vezes repeti em amor
Repetidas vezes vi as flores murcharem
Tão quanto murcharam minhas pálpebras 
Fluiu tanto sal que os olhos secaram
E o coração, por loucura, não conseguiu mais parar
A alma se abrigou nas pautas de tuas cartas
E nao descarta me deixar de vez
De vez em quando a gente morre
De vez em outra sorri

Quando sair bata a porta, por favor

domingo, 10 de maio de 2015

Em forma de amizade

Você voou
Alegrou os olhos de Deus
Ele chorou
De alegria nos braços teus

A vida é assim
Anjos vêm para trazer o céu
Vem cuidar de mim
Vem trazer de volta o meu céu 

Eu vou te encontrar de novo
Pode acreditar
Hoje estou chorando um pouco
Mas isso vai passar
O céu é logo ali
Você desenhou pra mim

Eu vou te encontrar de novo
Pode acreditar
Hoje estou chorando um pouco
Mas isso vai passar
Teu sorriso está por aqui
Fecho os olhos e posso te senti

Isso é eternidade
É amor em forma de amizade

terça-feira, 28 de abril de 2015

Nue

Nue.
Nue.
Meu amor 
é tão grande que cabe o
meu amor
que se esbalda feito criança
na ânsia de
devorar os doces de festas infantis
devo orar pelo meu
amor?
devo encaixá-lo
nos corpos dos amantes que 
me gemem?
gêmeos são os desconhecimentos de 
meu amor
foram os cimentos 
que a ele mentiram 
me tiram o
meu amor
feito lobos
que tiram doces de bocas de
crianças
criam ânsias
em poucas poses de contos
e nada conto ao 
meu amor
só pra que 
meu amor
continue
nu e
meu amor.
Nue.
Nue.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

De roupa e sem -em-amor-

Eu investi os meus últimos sais 
para te convencer de parar nossa guerra e
então ouvir a rouca e tímida voz 
que se cansava à nossa espera
era um som que ruía do coração
- ex nosso- 
fuzilado por "foi tua culpa"
tentava outra emoção
-dis-posto-
engalfinhado entre suas multas
acalentado por tuas suas queixas 
quem ama não desleixa
se deixa correr pelos fluxos dos rios
quem ama se goza sem transas
se trança em lençóis
se doa
mesmo que doa
os amores se sepultam
porém os amores não morrem
quem morreu
fui eu
eu fui
e não soube voltar
tampouco subi ao céu
vivi a cultuar tua presença
ausente
e presente
em mim
que sem roupa limpa e clara
se sepulta em si
-em-amor-

domingo, 26 de abril de 2015

De roupa e sem mudo

Assim como se veste um defunto fresco e gelado
assim fui trocando minhas roupas claras
fui despindo o meu corpo dos cheiros das castanhas moídas
fui sepultando os paladares de teu hálito
esquecendo das texturas dos cravos de tua língua
cultuando o falecimento múltiplo de nossa paixão
eu via o mundo
você o ouvia
eu era cego
você...
ah, você era deficiência 
e então fomos parando
e pairando sobre nosso ar veio o cheiro das flores 
a sensação dos dias de Finados nos circulou
e foi ela a última graça que dividimos
sem jeito ficamos sem jeito
e o jeito foi fechar teus olhos
e dizer adeus
sem nada dizer
pois mudo também era eu
eu que sempre mudo
de roupa


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Pai

Abro os meus braços
Embora cansado dos calos das ruas
Deixo aquela antiga nuvem dos olhos
Lavar o meu riso
Ela cavaca meu rosto, já não infantil
Entre as marcas do que ri e chorei
Arrasta os lixos que as dores deixou
Tatua a gola de minha camisa marrom
Das histórias que queria ter te contado
Entre as escrituras deixadas no piso de casa
E veias sangradas nas paredes
Sinto o teu cheiro percorrer entre os cômodos
Na tevê arranha o som do futebol
Mas sem o incômodo de ontem
Aceito o jornal
Adoro os deus em singularidades
Leio o teu livro
Até juro reviver-te em mim
A cozinha se perfuma da água doce do café fraco
Os cães ladram em cirandas
As plantas florescem
O riso retorna
Refaço as pazes com o tempo
E com o tempo
Ele me canta qualquer conto que fale de paz
Enquanto varro de casa a tristeza
E eu vejo você
E você, sem ser senhor, sorri
Eu, criança, corro
Pulo
E te revelo desenho rabiscado que pintei
E você, sem ser senhor, sorri
Eu, criança, durmo
Sonho
O sonho que farei de teu sorriso um abrigo
Pois as noites ficaram frias
Quem congelam a alma
E a chuva não cai
É, eu preciso de um...


domingo, 17 de março de 2013

Eu já pensei em me suicidar

"Conversando com um grande amigo ficamos a pensar sobre vida e morte... E nos perguntando: Qual o nosso medo maior, vida ou morte?"


Eu já pensei em me suicidar. E ponto final.
Mas foram reticências.
O medo pela vida me teceu o temor da morte. 
A vida que corria em mim, corria o risco de minha fraqueza. Senti que fosse morrer nas mãos deste fantasma que calava meu sonho, sufocava a minha respiração. Eu gritei.
Ninguém ouviu. Ninguém ouve. Apenas eu.
Parecia que ele me mataria através de minhas mãos.
Mesmo sozinhos somos unidos pela mesma lembrança. Medo. Ou covardia.
Corro para a varanda e não tomo ar. Tomo o egoísmo de solucionar a minha questão. Questão de vida. Resposta de morte.
Temo ser estranho, maluco. Alguém já se sentiu assim?
Sou perseguido pela companhia deste alguém que domina minha cabeça. E eu o desconheço. Mas habita em mim. Preenche os vazios que me constitui vazio.
Fujo da varanda e encaro o espelho. Olho pra mim. Não me vejo.
Encontro-me com um bicho nos fundos do quartos dos fundos. Íris. 
Eu não sou deste corpo. Não constituo esta matéria.
Eu reprovei.
Reprovei no curso da vida e discurso filosofias que me enganam. 
Tentativas de permanecer de joelhos. 
Súplicas por conformidades. Vacilo!
Eu sofro por saudades da época em que sonhava.
Sofro por falta das sobras, das divisões, matemáticas afetivas.
Sofro por que tudo acabou e eu não percebi.
Sofro e percebo o sofrimento. Ele é árduo pra mim.
Eu já pensei em exclamações, mas sou pontuado em pingo negro e solipsista.
Eu já pensei em morte, mas temo depois dela ainda encontrar vida.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Suicídios noturnos diários

O encontro é com o que me perco
O que me interessa
É o que não tenho pressa
Deixo ser, fluir sem fruir dos arrependimentos
Tenho as visões que me mostram o que não quero ver
Assim como tua voz que me explicam as perguntas que não fiz
Teus te amos amortecem o impacto de meus suicídios diários
E escrevem com líquido estranho que rola de meus olhos meus diários noturnos
Eu morto e vivo, vivo e morro nos morros que escala pra longe de mim
No árido deserto que festejam nossos entes
Entrego a paz que nunca assassinei
Ali me alimentos de areias e sucos de meu corpo
Meu suor tão doce quanto as lembranças que perdi
No hálito que deserdo os nossos bens 
Calei minha respiração
Perdi a minha voz
E ainda levei você sobre meu corpo, donzela solidão

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Não aguento mais

Eu não aguento mais respirar o teu nome
Não suporto paz, quero porto em chamas vermelhas
Não aguento mais o unguento que desce sobre o meu peito
Eu não espero cura, eu deixo a alma deste jeito estreito
Não fui eu que cravei os joelhos no chão e clamou por toques
Posso morrer seca, mas não bela em fingidos retoques
Cale a boca e engula as palavras de ofensa
Não penses que mais uma vez esculpirá as mãos sobre mim
Feito acampamentos de famigerados abortos
Não pintes pra mim cenários de melancolia
Eu já bebi de tuas defraudáveis manipulações diariamente
Ao ponto que o meu corpo já produzira anticorpos contra tua transpiração
Estou vacinada contra você
Estou decepada deste câncer que é tua voz
Hoje me alimento dos refluxos de tua carícia
Eu rio rios das lembranças de minha estupidez
E não canso de mim
Me enxergo e vejo
Colorida e viva
Diante tua morte lenta e real
Num funeral de rei de pouca realeza
Eu não aguento mais respirar o teu nome
Não suporto o gosto de morte deste cemitério que sepulto em mim
Vá com deus e se aqueça no inferno


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Ainda há amores que morrem em si

Teu ofegar mudou
Não escreve mais pra mim um texto
Monossilaborizou
Soletra sons de um pequeno brinquedo
Suas rugas não sorriem mais
Tua caixa torácica não dilata o esqueleto,
Invertebrado amor
As folhas de nossas árvores acenam para mim
Ensaiam intimidade com o particular conhecido
E eu me desconheço em quarto fechado e coração aberto
Ferido
Atravessado quebranto
As pilhas de teus livros inclinam pra direita
Não caem
Nem pilham as lembranças de nossas sentimentalidades
Que fogem do mundo que capturei em fotografias
Envelhecidas e amareladas na estante
Um instante apenas para me despedir
E despir minha alma da esperança de colorir as lacunas dos cômodos de casa
Casa que casou com a solidão e me dispensou
A tua manteiga com sal embolorou
Segundo a canção que fazia seus passos pelo assoalho
Acorde o teu pão que descansa em coma
E coma de mim um alimento que nos retorne vida em cor
À cor de acordo de acordar pro amor

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Eu não preciso de tuas mentiras

Eu não preciso de tuas mentiras
O teu amor inscrito em minhas córneas
Já me cantam o teu te amo
E estas sonorizações perturbam o meu auto-amor
Auto-zelo
Auto-credo
Credo e cruzes, sigo-te como um piloto automático
Farejo o teu cheiro como cão sarnento e faminto
E satisfaço-me das migalhas
Que caem de teu pão sofrido por insônias
E refaço o meu humor
Acreditando que me queres 
E apenas se cala
Diante o medo do amor
Eu pinto pra mim a cena perfeita pra nós dois
Eu assovio a nossa trilha enquanto grito o teu nome
E despedaço minha pele correndo ao encontro de ti
Eu iludo minhas ilusões cansadas de arquitetar castelos de areia
Eu teatralizo Shakespeare, o inspiro
Eu sei que não gosta destes gêneros
Mas por eles hoje deixei de me matar seis vezes
Não teria coragem de morrer sem você
Eu sei que não vives por mim
Nem bebes de minha água
Eu sei
Eu sempre sei
Quem é que não sabe quando se sabe?

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O meu maior medo é esquecer o rosto de meu pai

Eu e papai, década de 80

Com todo o respeito e educação, posso falar?
Não precisa me ouvir
Temo macular teus ouvidos que gritam por santidade
Não, não estou alterado tampouco preciso respirar fundo
Preciso é respirar lento, raso, tímido
E quem sabe poluir as narinas dele com vida
Mas ele não respira mais
Morta estão tuas lembranças que assassinam essência
E Deus,
Deus amou o mundo de tal maneira 
Que tirou o meu pai dele
Entre lutos que se repetem 
procuro manter viva em mim suas gargalhadas
A maneira crente de esperar pelo Pai
Hoje eu acordei querendo ser Deus
Só pra dar vida novamente ao meu pai
Não, Deus
Não me venha com tua sentência 
És tu que sabe de todas as coisas
Eu não falo das coisas
Eu clamo pela existência
Não, Deus
Não chores, pois não estou proferindo setas inflamados contra tu
Estou retirando com minha frágeis mãos de homem
Os dardos que fazem o rio vermelho fluir de meus olhos
Eu disse que não precisava me ouvir
Isto não é uma oração
Respeite-me em meu secreto
E deixe-me clamar por mim
Hoje acordei humano
E é o meu pai terreno, o de carne e osso, que me acolheria
E restaram só os ossos
E eu nem sei onde estão
Não queimamos no inferno
E ardemos no fogo que o próprio homem maquina para o nosso fim
Estaria a vida eterna na permanência das lembranças?
O meu maior medo é esquecer o rosto de meu pai
Temo a morte em vida
Morrer e esquecer de repousar minhas lembranças
Hoje eu acordei moribundo
Morto
Vivo
Vivo
Mort
Viv
Vi
M

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Este texto é de Valdemy: Ensaio sobre a morte de meu pai

Culto dominical - 1991
Em meio a tantos turbilhões de acontecimentos e novidades, sinto-me por vezes perdidos diante os focos e anseios de meu coração. Me apresento forte e decidido para as pessoas que me rotulam, claro, fomentadas pelas palavras que assino sobre o meu corpo e olhar, porém sou tão menino e sensível como aquele Cristo que se apresenta na cruz e confia ao pai os seus temores. Cristo também temeu e mesmo assim não acovardou em dores o amargo do cálice. Cristo, nem mesmo ele, foi por todos amados ou produto de tendência de alta costura. Quisá eu! (risos)
Eu sinto que preciso parar o meu mundo que gira em voracidade e me apresentar franco e destemido à mim. Sem medo de ser feliz! Livre! Livre de mim!
Oh, meu Deus, se eu pudesse dar vazão aos meus cara-miolos que me humaniza! Mas tememos as naturalidades. Transcender pode ser mais atrativo e justificador dos medos. Sem julgamentos, me diga: O que atrairia Deus ao homem senão a peculiaridade em ser humano? Deus tem os anjos cantarolando Sua majestade pela eternidade, não seria outro anjo que ele procuraria em mim. E eu nem sei cantar!
Eu me deparo comigo nesta madrugada e me felicito por ver em meus olhos, o mesmo amor que lapidava ternura anos passados. O corpo mudou, as rugas já traçam os seus sucos como traças que corroem madeira, mas minha cara-de-pau ainda se inspiram em esculturas e belezas. Não tenho mais a mesma voz e até o primeiro porre alcoólico já vivi, mas não é num gole de destilado que se destila a minha essência ou caráter, tampouco em meu justificar. Em meu corpo assino o meu mal e encontro com o meu bem da honestidade.
São as canções de infância que me fazem acalmar o espírito que nem agitado está, mas pior, adormece. As notas destas canções me lembram as notas de ensinamentos de vida que o meu pai me ensinou. E um novo rumo se acende. Esperança, a primeira que ressuscita!
Como podem os estúpidos dizer que o meu pai faleceu? Como posso eu, sendo filho dele, dar ouvidos aos tolos? Ainda mais tolo me pinto. Como pode morto está aquele que vive e respira orgânico através de mim e ainda outros dois mais?  
Falar sobre vida e morte angustia e sufoca as pessoas, mas quem não morrerá? Para morrer, só basta está vivo/ E morreu fedeu, acabou! Ou se continua. Normal! Natural! Mas não é desta morte que estou falando, se bem que, paradoxalmente à tudo que outrora disse: Existe morte?
Me leva que quero ver o meu pai! Não, eu não quero morrer ou me suicidarei, pelo amor de Deus, eu tenho amor aos momentos e este me reserva esta vida. Então a viverei, sem sentenciá-la o fim. Eu apenas quero ver o meu pai e hoje eu vi. E ainda vivo! E descobri outra vez, que ele vive em mim!
Este não é um texto para ser bonito ou te fazer chorar, este é apenas um texto que escrevi pra mim e o leio em voz alta, para que a parte em mim que abriga o meu pai possa escutar e ele se emocionar através de minhas pupilas que se dilatarão para que seu amor se revele em lágrimas e estas toquem o meu rosto, lembrando do carinho que ele sempre fazia em mim... nas madrugadas tão frias como a noite de hoje.