terça-feira, 28 de abril de 2026

QUASES

Tem dias em que a solidão não chega, ela já está sentada, antes de mim, à mesa. Não pede licença, não faz barulho. Apenas ocupa. E eu, que tantas vezes sou palco, voz, presença, me vejo reduzido a esse silêncio que não aplaude.

Há uma exaustão quase invisível em sustentar a alegria como quem sustenta um cenário prestes a desabar. A gente aprende a sorrir com técnica, a responder “tudo bem” com precisão cênica, a maquiar os dias com uma luz que nem sempre nos pertence. E, ainda assim, por dentro, algo falha. Como uma equação mal resolvida que insiste em não fechar.

Nessa matemática da vida, fui treinado para buscar o x: a solução, o sentido, o encaixe perfeito. Mas há dias em que o x se esconde, ou pior, não existe. E o que resta é esse intervalo entre o que se espera de mim e o que de fato sou capaz de sustentar. É aí que o fracasso sussurra: não como sentença, mas como presença.

E talvez o mais difícil não seja cair, seja ter que cair sorrindo. Como se a dor precisasse de autorização estética para existir. Como se o mundo só suportasse versões editadas da nossa humanidade.

Então me pergunto, com uma honestidade quase incômoda: a questão é não encontrar respostas… ou é não suportar as perguntas? Estar vivo exige esse enfrentamento constante com o indizível, com o inacabado, com o que não se resolve.

Ou será que o que nos atravessa, no fundo, é o medo de já estarmos, aos poucos, habitando alguma forma de morte? 

Hoje não tenho respostas. E talvez essa seja a única verdade honesta que consigo oferecer. Mas sigo, não por coragem plena, nem por fé inabalável. Sigo porque, apesar de tudo, ainda há algo em mim que insiste. Um resto. Um fio. Um quase.

De tantos "quases" eu quase cri nisso tudo.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

BENÇÃO

em cada despedida deixei-me um pedaço
em cada encontro um ponto
e nenhum orixá dançou

em cada entrega um inteiro de um tudo
tirando do nada que restara

eu nadei contra mim
contra o mar
contra a maré

eu perseguia o vento
mas o vento é ainda uma criança travessa
as saias levantam, as folhas bagunçam 
e de meus sentimentos gargalha
tolo 

eu nadei
com braços firmes
e conchas nas mãos

será o amor o afogar?


quarta-feira, 22 de abril de 2026

NÃO SE FAZ POESIA PARA POEMA

não se faz poesia para São Fidélis
para Cidade Poema se vive a poesia
com rima perfeita afinada à voz de cada morador
com a ímpar beleza a cada vez que o sol se por

não se faz poesia para São Fidélis
a minha pequena cidade só quem traduz é o coração
é o cheiro da pipoca, os contos na feira
rios, cachoeiras, Joana, vasto chão

é abril
abril é mês de encontros
de abraços de Miguel
lembranças de Fernanda
segredos que nunca conto
de vida ressoando em cada nota da lira
na sete de setembro

eu me lembro em abril a gente delira
a gente inexplicavelmente fica mais belo
reafirna os antigos elos
e se abre para o abraço dos novos risos

abril é montanhas mais verdes
é banda, barraca, brindes, leilão
uma montanha russa de emoção
é par, é parque
abril é suspensão
 
e São Fidélis, a minha
é para todos
é para onde meu coração se abriu

terça-feira, 21 de abril de 2026

MADRUGADA

 no fundo todo mundo 
quer sua superfície tocada
pelo voz que cala palavras

entre uma armadura e outra
a alma clama por nudez 
poros dedilhados peito piano de calda
até canções voluptuosa conclamem Oxum 

nossas palavras calam o eu 
nosso breu iluminam o prazer
nossa diferença sepulta
o que poderia ter sido
se a maré do Paraíba 
de sei leito não levantasse

entre uma cruel negação
e minha entrega sincera 
nasceu um território morto

ofereci abismo,
você devolveu superfície áspera 

domingo, 19 de abril de 2026

Madrugada

Hoje eu acordei inteiro.
Inteiro como quem aprende a colar os próprios cacos com uma destreza que impressiona quem vê de fora. Nada fora do lugar. Nada fora do tom. A vida, essa vitrine bem iluminada, segue exposta — limpa, organizada, quase convincente.
Eu sou o rei das multidões.
Caminho entre vozes, risos, cumprimentos, e ainda assim carrego um silêncio que não cabe em nenhuma sala cheia. Porque multidão não escuta o que é sussurro da alma. Multidão aplaude o espetáculo, mas não senta no chão comigo quando o palco desmonta.
Dói chorar sozinho.
Dói porque o choro, quando nasce, não encontra caminho. Ele não escorre — ele se perde. Não há leito, não há rio. Só essas marcas no rosto que não são de tempo, são de contenção. Rugas de sentimentos represados. Barragens erguidas por medo de transbordar onde não cabe.
E eu olho o rio…
O rio segue. O rio sabe para onde ir. O rio descansa no próprio curso. Eu, não. Eu represando em mim o que deveria correr. Eu acumulando em silêncio o que deveria encontrar margem.
Eu queria falar.
Mas falar é perigoso quando a gente passou a vida sendo entendido pelo que aparenta.
Eu queria dizer.
Mas dizer desmonta a imagem, e eu me tornei especialista em sustentá-la.
Eu queria ser.
Mas ser exige uma coragem que ninguém ensina quando você aprende cedo demais a corresponder.
E no meio disso tudo, Deus.
Ou a ideia dele. Ou a expectativa que eu criei em nome dele.
Eu me pego perguntando:
Deus, qual foi o teu propósito pra mim aqui?
Mas no fundo, talvez a pergunta esconda outra mais incômoda:
em que momento eu deixei de viver o meu próprio sentir para tentar acertar o teu olhar?
Porque se até Deus eu tento agradar, então eu me perdi de mim em algum ponto do caminho.
É estranho…
Eu sei me comunicar, sei me posicionar, sei ocupar espaço.
Mas quando a dor pede voz, eu viro estrangeiro dentro da própria língua.
Hoje eu acordei inteiro, sim.
Mas não inteiro de paz.
Inteiro de esforço.
E talvez — só talvez — exista um outro tipo de inteireza que eu ainda não conheço.
Uma que não precise ser montada todos os dias.
Uma que não precise convencer ninguém.
Uma que apenas… seja.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

UM POEMA PARA CAMBUCI

Cambuci é um relógio esquecido no pulso do mundo
é o momento que se eterniza num olhar profundo
que ainda olha
e nos vê rendidos por sua beleza ímpar
por sua riqueza verde
e gentil hospedar
 
Cambuci é conversa nas calçadas que subscreve poesia
é fruta, amor ácido, doce, fantasia
Cambuci é verão
tardes longas deitadas sobre a leveza do tempo
que para eu te ver
e ainda sem partir
de saudades te esperar
 
Cambuci é abraço das montanhas em torno de histórias
ruas tranquilas de silêncio cheio de memórias
terra com cheiro de chuva antiga, de infância, de raiz
terra que piso, danço, me lanço e sou feliz
casas antigas com janelas que parecem olhos abertos para o porvir
Cambuci é sorrir
é só ir
 
Cambuci, em ti, como o tempo, eu caminho descalço
e com o peito escancarado voo alço
para te ver, rever, e em tuas águas me lavar
em tua gente me ver e ficar cativo
 
Cambuci, no recôndito de minhas palavras se calam o amor
que ainda, por ti, não sei falar
mas vivo

 


segunda-feira, 6 de abril de 2026

HEY

descama minha alma
feito minha mãe no preparo do peixe 
em semana santa

expus minhas fragilidades
sem medo do acolhimentos falsos 
chorei para mim 
fiz cachoeiras no olhar
gritei os meu santos
e companhia fiz com meu demônios 
me expus humano 
me pus diante do profano 
cultuei o meu perpetuar 
em culto hey de minha carne flambar
nesse inferno

na vida se ri e chora
gente sem vida infelizmente no peito mora