Tem dias em que a solidão não chega, ela já está sentada, antes de mim, à mesa. Não pede licença, não faz barulho. Apenas ocupa. E eu, que tantas vezes sou palco, voz, presença, me vejo reduzido a esse silêncio que não aplaude.
Há uma exaustão quase invisível em sustentar a alegria como quem sustenta um cenário prestes a desabar. A gente aprende a sorrir com técnica, a responder “tudo bem” com precisão cênica, a maquiar os dias com uma luz que nem sempre nos pertence. E, ainda assim, por dentro, algo falha. Como uma equação mal resolvida que insiste em não fechar.
Nessa matemática da vida, fui treinado para buscar o x: a solução, o sentido, o encaixe perfeito. Mas há dias em que o x se esconde, ou pior, não existe. E o que resta é esse intervalo entre o que se espera de mim e o que de fato sou capaz de sustentar. É aí que o fracasso sussurra: não como sentença, mas como presença.
E talvez o mais difícil não seja cair, seja ter que cair sorrindo. Como se a dor precisasse de autorização estética para existir. Como se o mundo só suportasse versões editadas da nossa humanidade.
Então me pergunto, com uma honestidade quase incômoda: a questão é não encontrar respostas… ou é não suportar as perguntas? Estar vivo exige esse enfrentamento constante com o indizível, com o inacabado, com o que não se resolve.
Ou será que o que nos atravessa, no fundo, é o medo de já estarmos, aos poucos, habitando alguma forma de morte?
Hoje não tenho respostas. E talvez essa seja a única verdade honesta que consigo oferecer. Mas sigo, não por coragem plena, nem por fé inabalável. Sigo porque, apesar de tudo, ainda há algo em mim que insiste. Um resto. Um fio. Um quase.
De tantos "quases" eu quase cri nisso tudo.
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