Eu sou uma constância de esperar.
(ri baixo, sem humor)
É quase bonito assim, dito desse jeito.
Constância… parece disciplina, parece escolha.
Mas não é.
Eu espero.
Espero respostas que não chegam,
gestos que não vêm,
palavras que ficam presas na garganta dos outros…
ou na minha.
(uma pausa curta)
Eu aprendi a esperar sem fazer barulho.
Sem bater na porta.
Sem perguntar “você esqueceu de mim?”
Porque existe um medo…
um medo muito específico…
de ouvir “não”.
Ou pior:
de não ouvir nada.
(silêncio)
O silêncio…
ele não grita, mas ocupa tudo.
Ele entra pelos cantos, senta do seu lado,
e começa a te convencer de coisas.
Que você exagera.
Que você sente demais.
Que você é demais…
ou de menos.
(olha ao redor, como se procurasse alguém)
E eu fui ficando.
Ficando onde não cabia,
diminuindo pedaços de mim
pra ver se alguém, enfim,
abria espaço.
Mas ninguém abre espaço pra quem não se coloca.
(uma respiração mais funda)
E o mais estranho…
é que eu me acostumei.
Me acostumei a traduzir ausência como normal.
A chamar distância de tempo.
A fingir que entendo o silêncio dos outros…
quando eu mal suporto o meu.
(mais íntimo, mais baixo)
Eu sou uma constância de esperar…
mas não porque eu tenha paciência.
É porque eu tenho medo.
Medo de ir.
Medo de dizer.
Medo de não ser escolhido
nem quando eu me escolho.
(pausa longa)
E talvez…
talvez o que mais doa
não seja ninguém ter vindo.
É perceber
que eu também não fui.
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