se as lembranças
ainda moram em mim?
talvez a despedida seja isso:
você sair pela porta
e eu descobrir,
aos poucos,
que ainda sou casa
não era você
quem precisava sair de mim
quem precisava voltar
para dentro de mim
sob o sussurro do ventilador
a calça preta
pendurada no cabide
seca das águas que caem lá fora
aqui dentro
também chove
e mesmo seco
eu me encharco
de mim
às vezes as desdenha
não provêm do interesse de não querer comprar
mas dá disponibilidade que ofertamos
por carência, anseio,
preciso esperar o amor chegar
e se amor ainda não habita em mim
toda jura é projeção do vazio
ou da vaidade
que a gente teima cultivar
pelo medo só silêncio do quarto,
da cama fria e vazia,
dos ecos secos nas paredes do quarto
amor é ser inteiro, entregue
o amor é pra ser escuta e zelo
O amor é quando fogem as palavras
e o abraço é habitar
e o que estrutura ,
não se engane,
nessa negadas curas
o amor é infame
rem todo amor é eterno
mas nenhum amor deveria nossa
essência raptar
o que você perdeu amanhã por amar hoje?
Eu sou uma constância de esperar.
(ri baixo, sem humor)
É quase bonito assim, dito desse jeito.
Constância… parece disciplina, parece escolha.
Mas não é.
Eu espero.
Espero respostas que não chegam,
gestos que não vêm,
palavras que ficam presas na garganta dos outros…
ou na minha.
(uma pausa curta)
Eu aprendi a esperar sem fazer barulho.
Sem bater na porta.
Sem perguntar “você esqueceu de mim?”
Porque existe um medo…
um medo muito específico…
de ouvir “não”.
Ou pior:
de não ouvir nada.
(silêncio)
O silêncio…
ele não grita, mas ocupa tudo.
Ele entra pelos cantos, senta do seu lado,
e começa a te convencer de coisas.
Que você exagera.
Que você sente demais.
Que você é demais…
ou de menos.
(olha ao redor, como se procurasse alguém)
E eu fui ficando.
Ficando onde não cabia,
diminuindo pedaços de mim
pra ver se alguém, enfim,
abria espaço.
Mas ninguém abre espaço pra quem não se coloca.
(uma respiração mais funda)
E o mais estranho…
é que eu me acostumei.
Me acostumei a traduzir ausência como normal.
A chamar distância de tempo.
A fingir que entendo o silêncio dos outros…
quando eu mal suporto o meu.
(mais íntimo, mais baixo)
Eu sou uma constância de esperar…
mas não porque eu tenha paciência.
É porque eu tenho medo.
Medo de ir.
Medo de dizer.
Medo de não ser escolhido
nem quando eu me escolho.
(pausa longa)
E talvez…
talvez o que mais doa
não seja ninguém ter vindo.
É perceber
que eu também não fui.
talvez vencido pelo cansaço
o pensamento que me atravessa
seja o parar
eu paro e me escuto
e no escuro desse tumulto
canto uma cantiga de ninar
para as vozes que salientes
dissipam minha paz
tomo um tempo
tomo água
tomo um ar
e não temo
o céu nublado
alvejado por relâmpagos
movimento o meu corpo
em direção à chuva
eu abraço a tempestade
num ritual humano e sagrado
não culpo as dores
nem cultuo as flores
eu deixo ser
e sou
me deixou crer
me dou
ser humano é perfeito
o imperfeito é se endeusar
Havia uma
ferida profunda na alma
Um rasgo
multilateral dilacerara o riso
Uma fluidez de
sentimentalidades
Uma liquidez de
toda e qualquer sanidade
Atrás do
empenho por vida
Residia a
desistência pelo pote de ouro
No discurso já
não havia lugar para fantasia
A azia queimava
na garganta
E no coração
congelava o curso de outrora rio
Com a maestria
e pureza humana
De quem celebra
um ritual sagrado e profano
Pus-me, com
linha fina e agulha rígida e impetuosa
Costurar os
meus cacos humanos
Cada vez que
essa atravessava meu tecido
Sentia-me
vestir de novidade esperança
As lembranças
dos desaforos
Em meus poros
exalavam paz
E eu nem a
compreendia
Eu já não esperava
no cais sozinho
Tampouco temia
me lançar no rio
Que minhas
lágrimas produziram
Eu tinha a mim
como parceria, menino
Sempre é tempo
de alinhavar os cortes da dor
Sempre é tempo
de realinhar o ar com o interior
Não importa a
velocidade que vamos
Mas sim a direção
que estamos indo
Ouvi isso hoje
de um amigo
Ninguém é
imensidão sozinho
eu me sinto só
mas não vazio
excesso
excesso de eu nos outros
de outros em mim
que nunca ficaram
fincam
sempre a(mar) sem amar a volta
sempre per(doar)
como quem doa o próprio ar
conjugo o amor no erro
eu fico
tu somes
ele promete
eu sonho com paz
mas namoro a trincheira
porque amar, pra mim
sempre foi guerra sem medalha
dispenso o conflito
mas conflito me escolhe
me disponho a dois
e me deixam em ímpar
meu voo é terra
porque cansei de cair do céu
achando que era destino
quando era abandono com asas
sou casa sem visita
porto sem chegada
coração em modo avião
esperando uma mensagem
que nunca aterrissa
e ainda assim
olha o vício:
se você bater
eu abro.
porque amar, em mim
não é verbo
é víscera