Há dias em que sorrio como quem assina presença na própria vida, mas por dentro algo em mim permanece em silêncio, sentado num canto escuro, esperando ser ouvido.
Para não assustar ninguém, apelidei essa algazarra interior de ansiedade barroca. Dessas que vestem a dor com rendas e metáforas para que ela pareça apenas uma excentricidade da alma.
Carrego pequenas penumbras por trás de um sorriso educado.
Sorrio como quem acende uma lâmpada para os outros, enquanto dentro de mim ainda é madrugada. Meu sorriso oferece acolhimento, presença, calor humano, mas raramente confessa que também sente frio.
Pedir ajuda é um idioma que esqueci na infância. Ou talvez seja um analfabeto emocional.
Quando tento reaprendê-lo, descobri-lo, decifrá-lo, as palavras tropeçam na garganta. E, quase sempre, do outro lado, encontro apenas a pressa, essa senhora impaciente que governa os nossos dias. E digo sem mero julgamento.
Vivemos todos sequestrados por nossas próprias ansiedades.
Reféns de um egoísmo apressado que nos faz correr pela vida como passageiros atrasados em um aeroporto imaginário. Tudo é para ontem. Tudo é urgente. O hoje virou apenas o corredor estreito que leva ao embarque do amanhã. Quando não o perco.
Não degustamos mais a existência. Sobrevida nos perpetua.
Queremos apenas fotografá-la, etiquetá-la, exibi-la como um prato caro num restaurante estrelado. A vida virou vitrine de prêmios Michelin emocionais, enquanto o pão quente da simplicidade esfria sobre a mesa.
E eu…
Eu tenho fome.
Fome de cuidar de gente. E ser cuidado.
Fome de tocar vidas sem a burocracia dos gestos vazios. Fome de vencer, não para subir em pedestais, mas para provar que ainda é possível existir com alguma dignidade nesse teatro de urgências.
Há um sonho dentro de mim tentando respirar.
Ele bate nas paredes do peito como um pássaro que descobriu tarde demais que nasceu para voar. Às vezes quase o silencio, com medo de que ele me leve a lugares onde eu ainda não sei quem sou.
Mas hoje algo mudou de lugar dentro de mim.
Talvez a vida não seja essa sucessão de relógios nervosos.
Talvez ela seja mais parecida com uma panela no fogo baixo, onde os aromas se encontram devagar e inventam um sentido inesperado para o mundo.
Eu preciso de sabor.
Preciso de experiência.
De cor.
De palco.
De risco.
Eu preciso de vida.
E começo a suspeitar, com a delicadeza de quem escuta o próprio coração pela primeira vez que a vida não esteja talvez lá fora me esperando.
Talvez ela esteja aqui dentro, batendo à porta do meu medo e pedindo, com paciência infinita, para finalmente nascer. E como inquilina fiel e leal fazer morada.
Quem sabe a cura venha?
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