domingo, 15 de março de 2026

MARGEM

Jamais contei a ninguém que alguns encontros não começam: eles simplesmente continuam algo que parecia antigo. Como se duas vidas, distraídas de si mesmas, de repente se reconhecessem no escuro.

O que havia entre nós não era exatamente alegria. Era outra coisa. Um tipo de repouso raro: a sensação de que, por alguns instantes, o mundo tinha parado de exigir explicações, obrigações e o vento dançava com a paz.

Silêncios também eram parte da conversa. Havia tardes em que bastava uma música baixa ou uma frase solta para que a realidade se tornasse menos áspera. E entre Djavan ou Cazuza armadinho deixávamos nosso prosear.

Entretanto certas águas nunca se deixam atravessar sem custo. Há quem pressinta isso cedo e recue, não por falta de sentimento, mas por excesso de mundo dentro da própria cabeça.

Resta-me hoje a curiosa experiência de ser cordial com alguém que já foi íntimo da minha respiração.

O convívio tornou-se superfície: palavras corretas, gestos medidos, a civilidade tranquila de dois estranhos que sabem demais.

Basta um descuido, porém uma música antiga, um cheiro na rua, uma tarde comprida, uma refeição ou narrativas de como anda a vida, para que tudo retorne com a precisão de uma lâmina.

Então compreendo que o que se perdeu não foi exatamente uma pessoa. Foi um território.

Rios são assim: às vezes passam por dentro de nós e continuam correndo em silêncio, mesmo quando fingimos terra firme.

Talvez você tenha escolhido a margem. Há quem confunda segurança com permanência. Eu permaneci, eu aguardei, mas já desbotaram as flores.

O curioso é que, de vez em quando, quando nos encontramos sob a luz impecável da educação, tenho a impressão de que ambos escutamos a mesma coisa: a água passando e levando de nós o agora entulho do antes florescer. Mesmo sob essas águas se seca nossa garganta, se irrita nosso olhar e já não chora o meu coração. Mas nadar nunca é em vão.

Entre um vão e outro do afastar moraria eu no encontro de nossos braços entrelaçados pelo silêncio que grita o que cala o amor que sabe amar.


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