hoje provei o gosto metálico de existir sem mim
não foi dor
dor ainda é um tipo de companhia
foi uma espécie de ausência com pulso
eram quatro da manhã
e o mundo insistia em acontecer
como se eu estivesse nele
mas eu não estava
meu corpo, essa insistência orgânica
cumpria protocolos:
ria na medida exata,
concordava com delicadeza ensaiada,
vestia o crachá invisível de quem acompanha
sem nunca chegar
eu era presença etiquetada
um erro de impressão com boa educação
e enquanto falavam
eu escorria de mim
como água que desaprendeu o recipiente
havia um som dentro do meu peito
não coração,
mas um tamborim em câmera lenta,
descompassado da festa alheia
uma Sapucaí dentro de mim
e ainda assim
nenhum desfile
eu filetado em partido baixo
só o atraso das coisas
só o tempo pingando
como soro de angústia
alugavam-se um televisor
eu pedi para repetir
e ninguém percebeu
que era o mundo
que eu não estava entendendo-me
imundo
pode falar de novo?
como se a vida tivesse legenda
e eu, finalmente, pudesse alcançar
mas não
o medo não traduz
o medo dilacera
faz do adulto uma caricatura de ossos
e da coragem um verbo que não se conjuga
tampouco faz-se carne
e ainda assim
quem foi que disse
que a força mora no grito?
vi ali
um sacerdócio silencioso:
mãos exaustas sustentando
o que ainda respira,
olhos que já não dormem
mas continuam acreditando
no improvável mínimo
que subscreve o muito
vidas empilhadas sobre cansaço
cansaço sobre cansaço
asco, lasco
tasco?
e o mundo moderno
mastigando tudo
com dentes de máquina
tempo
então eu chorei.
não bonito
não literário
não digno de ser lembrado ou sucumbido
chorei como rio que esquece a margem:
meu Paraíba do Sul encontrando o Muriaé
em lentidão quase indecente
e.preliminar
um encontro que não salva,
mas continua
e, estranhamente,
entre o colapso e o intervalo,
brotaram risos
pequenos
quase clandestinos
pessoas com calor de gente
— o tipo raro —
oferecendo leveza
como quem não sabe
que está salvando alguém
e foi aí que doeu mais:
porque eu quis o teu abraço
minha carne que sambava
despencando de meus ossos
ardia por gente
não o gesto
mas o silêncio que ele contém
aquele silêncio que pulsa
e diz sem dizer Cazuza
eu teria ficado, aproveitando
se o tempo não fosse esse animal que foge
justo quando começamos a tocá-lo
e quando percebi,
já era tarde
o tempo tinha ido embora
sem pedir licença
como fazem as coisas essenciais
e o que restou
foi essa memória áspera,
salpicada de um arrependimento manso:
o de quase ter sido
mas se foi
podem não era de você que eu queria falar
porque há algo em você
que não cede,
não pulsa,
não sangra
descobri: “Ita", pedra
você carrega uma pedreira no peito
e eu, tolo,
ainda tentei morar aí
como quem acredita
que mármore sabe abraçar
mas mármore
só sabe durar
frio
e eu
eu só sei sentir
até desaparecer
de zarpar a poder ser
hoje sou adulto que cuida
de minha velha nova criança
que não crer em bicho papão
mas conhece o despistar de meu olhar
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