terça-feira, 17 de março de 2026

ITA

 hoje provei o gosto metálico de existir sem mim

não foi dor
dor ainda é um tipo de companhia
foi uma espécie de ausência com pulso

eram quatro da manhã
e o mundo insistia em acontecer
como se eu estivesse nele
mas eu não estava

meu corpo, essa insistência orgânica
cumpria protocolos:
ria na medida exata,
concordava com delicadeza ensaiada,
vestia o crachá invisível de quem acompanha
sem nunca chegar

eu era presença etiquetada
um erro de impressão com boa educação
e enquanto falavam
eu escorria de mim
como água que desaprendeu o recipiente

havia um som dentro do meu peito
não coração,
mas um tamborim em câmera lenta,
descompassado da festa alheia
uma Sapucaí dentro de mim
e ainda assim
nenhum desfile
eu filetado em partido baixo

só o atraso das coisas
só o tempo pingando
como soro de angústia

alugavam-se um televisor
eu pedi para repetir
e ninguém percebeu
que era o mundo
que eu não estava entendendo-me
imundo

pode falar de novo?

como se a vida tivesse legenda
e eu, finalmente, pudesse alcançar

mas não

o medo não traduz
o medo dilacera

faz do adulto uma caricatura de ossos
e da coragem um verbo que não se conjuga
tampouco faz-se carne

e ainda assim
quem foi que disse
que a força mora no grito?

vi ali
um sacerdócio silencioso:
mãos exaustas sustentando
o que ainda respira,
olhos que já não dormem
mas continuam acreditando
no improvável mínimo
que subscreve o muito
vidas empilhadas sobre cansaço
cansaço sobre cansaço
asco, lasco
tasco?

e o mundo moderno
mastigando tudo
com dentes de máquina
tempo 

então eu chorei.

não bonito 
não literário 
não digno de ser lembrado ou sucumbido

chorei como rio que esquece a margem:
meu Paraíba do Sul encontrando o Muriaé
em lentidão quase indecente
e.preliminar

um encontro que não salva,
mas continua

e, estranhamente,
entre o colapso e o intervalo,
brotaram risos

pequenos
quase clandestinos

pessoas com calor de gente
— o tipo raro —
oferecendo leveza
como quem não sabe
que está salvando alguém

e foi aí que doeu mais:

porque eu quis o teu abraço
minha carne que sambava 
despencando de meus ossos 
ardia por gente

não o gesto
mas o silêncio que ele contém

aquele silêncio que pulsa
e diz sem dizer Cazuza

eu teria ficado, aproveitando

se o tempo não fosse esse animal que foge
justo quando começamos a tocá-lo
e quando percebi,
já era tarde

o tempo tinha ido embora
sem pedir licença 
como fazem as coisas essenciais

e o que restou
foi essa memória áspera,
salpicada de um arrependimento manso:
o de quase ter sido
mas se foi

podem não era de você que eu queria falar

porque há algo em você
que não cede,
não pulsa,
não sangra

descobri: “Ita", pedra

você carrega uma pedreira no peito
e eu, tolo,
ainda tentei morar aí
como quem acredita
que mármore sabe abraçar

mas mármore
só sabe durar
frio

e eu 

eu só sei sentir
até desaparecer
de zarpar a poder ser

hoje sou adulto que cuida
de minha velha nova criança 
que não crer em bicho papão 
mas conhece o despistar de meu olhar

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