domingo, 30 de agosto de 2026

OLHOS OBLÍQUOS

é bom estar contigo 
é mistura de idiomas
é ressoar de ondas
solito
nós 

I don't know your name
but call you by a dream
feelings, songs, insane
boca, olhos, schemes

é bom estar contigo
é fluir de Oxúm
permanecer amigo
te ver nu
a sós 

tus ojos cerrados me abrem
tu boca roja convida
distância de amém 
que os anjos celebram

é bom despir teu peito
desabotoar tua paz 
te acolher no leito
sussurrar nós em ais

é bom te escrever
melhor te ler em braile

terça-feira, 25 de agosto de 2026

MELHOR FICAR EM CASA

Eu nunca contei isso desse jeito.
Porque, quando alguma coisa atravessa a nossa vida, a gente tenta dar um nome. Como se nomear fosse uma maneira de controlar o que aconteceu.
Naquele dia, alguma coisa em mim mudou de lugar.
E o mais estranho é que, por fora, a vida continuou. Eu acordava, trabalhava, conversava, ri até.
Mas eu sabia que alguma coisa não voltaria a ser como antes.
Durante muito tempo, achei que precisava superar.
Hoje, não sei se acredito nisso.
Talvez algumas coisas não precisem ser superadas. Precisem ser habitadas.
Porque, às vezes, continuar não é vencer.
É colocar sobre os ombros aquilo que ainda está pesado, mesmo quando eles já estão gastos e feridos.
E caminhar.
Não porque deixou de doer.
Mas porque a vida ainda está ali.
Talvez habitar seja isso: não esperar ficar inteiro para continuar. Pode ser que eu não continue. Pode ser que nunca fique inteiro ou nasça outra parte em mim e eu a desconheça.

Não vou sair hoje. Não estou legal. Melhor ficar em casa.

ALL TÁ

achei que era pra sempre 
o sempre se acaba logo de manhã 
eu te colori, pele, aquarela
em tua boca sabor de romã 

nem todo amor é todo dia
nem todo dia é amar
quem jura o mar 
o choro vibra
há quem se diverte em magoar

em todo ego há uma criança 
que nunca se deu em partilhar
colecionando dor na esperança
do umbigo vazio ser reinar

dance comigo uma vez só 
transe comigo teu olhar 
dá vida à saudade em pôr de sol

quem jura que nunca foi abandonado no altar?
tá todo mundo infeliz com esse tal de amar 

domingo, 26 de julho de 2026

INSÍPIDA

eu sem ti
soou um mar sem sal 
sem cor
sou saudades

sem sentir
teu olhar farol
solidão me invade

hoje no Leblon o mar estava cinza
do Arpoador o sol não mais fascina
percorri Santa toda e não tinha Glória 
me aterrei em Bota 
em Copa tua memória 

a coisa mais linda não me tinha graça 
tanta beleza no rio onde tu não passa 
eu que sempre rio desenhando arcos
na chuva dancei atropelando carros

quem sabe o Cristo abraça -me
e no Jardim eu encontra-te
quem me dera ter o Redentor 
minha apresse a prece do amor

eu senti que sou um mar sem sal
de cor sou saudades

quinta-feira, 23 de julho de 2026

AR

 nem parado
nem voando
sem arado

sem amando
seguindo o vento
lento
embora nas vielas das veias
o tráfego agita o parar

é sem ar mesmo
ao esmo de neblina

é continuar