terça-feira, 13 de outubro de 2026

CONTEMPORANEIDADE

se o amor nos convida ao sobrenatural,
quero andar sobre as águas,
não mergulhar em águas rasas.

quero a vertigem dos abismos,
a insanidade de me entregar
e encontrar, no espelho dos teus olhos,
um pedaço de mim
que ainda não aprendi a habitar

quero descobrir tuas delicadezas
como quem encontra passarinhos
morando dentro de uma árvore antiga
e, enquanto te descubro,
desconhecer-me de novo

quero sussurrar palavras doces
mesmo quando a vida nos oferecer
o sal na companhia do cotidiano 

porque amar talvez seja isso:
descobrir o infinito no outro
sem deixar de se espantar
com o pequeno milagre de nós mesmos

e, se for para amar,
que seja sem a covardia das superfícies,
sem a obrigação da perfeição,
com a alma descalça
e a coragem bonita
de quem mergulha no mistério
sem medo de se reinventar

quero um amor que me desobedeça
quando eu tentar fugir de mim,
que me devolva ao mundo
com os olhos de quem acaba de nascer,
que me ensine a ser outro
sem me exigir que deixe de ser quem sou

um amor que tenha céu,
mas não despreze a terra
que tenha asas,
mas saiba reconhecer o chão
que conheça o abismo
e, ainda assim,
não confunda profundidade com sofrimento
pois não é de dor que tenho sede
é de presença

a tua presença que ausência me conjurou

quero o espanto
a vertigem
o susto de encontrar alguém
e, de repente,
não saber mais onde termina o outro
e onde começa o meu desconhecido

porque amar, talvez, seja isso:
perder por instantes a mobília de si,
mudar os móveis de lugar na alma,
descobrir uma janela
onde antes havia parede
e olhar

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

MASSOTERAPEUTA EMOCIONAL

fostes rei
por tanto tempo
que ignorei que não havia reinado 
que não era real

eu te dei a coroa
o trono
a mesa
o vinho
a fome
e fiquei com as migalhas
que alimentavam
não o meu corpo
mas esse animal vaidoso
que em mim
ainda te chama

fostes rei
sem reinado
amor
sem abrigo
presença
sem corpo
promessa
sem palavra

e eu,
tão ocupado em te esperar,
não percebi
que a vida passava
do outro lado da janela

hoje desisto daquilo que inventei
quando te amei
desisto do retorno
da espera
do quase
do talvez
do sim que nunca veio
do não que nunca teve coragem

desisto
e não perco

abro
a janela
a porta
o peito
a vida
porque algumas canções de amor
são fúnebres
e eu já cansei
de morrer
para ouvir
o teu nome sussurrar
a prisão do não
na frieza de tua mão 

sempre acariciada pelo ego
de teu corpo que maquina estrategicamente 
as nuances do vale de teu umbigo 

amor não se mendiga
tampouco diz adeus

eu por amor morreria 
mas como morrer se minha vida já desfaleceu?

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

DEPOIMENTO

depois de tantas braçadas 
de beber tantas águas 
distante, em alto mar

depois do que nunca foi ontem
e me rouba o presente
sob o ardor de mil sóis

depois, dê, pois
depois, depôs 

meu grito tem urgência
minha dor clama o chão 
por que tal penitência?
sou também criação 

meu grito tem nascença 
minha dor tem mãe, não?
porque tal resistência 
é meu bem, Salvação

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

ORDEM DE DESPEJO

mas como fugir de você
se as lembranças
ainda moram em mim?

talvez a despedida seja isso:
você sair pela porta
e eu descobrir,
aos poucos,
que ainda sou casa

não era você
quem precisava sair de mim
era eu
quem precisava voltar
para dentro de mim

se as lembranças
ainda moram em mim?
como mandar embora
quem já deixou
as chaves dentro da gente?



sexta-feira, 11 de setembro de 2026

SETE DIAS

sob o sussurro do ventilador

a calça preta

pendurada no cabide

seca das águas que caem lá fora


aqui dentro

também chove

e mesmo seco

eu me encharco

de mim