quarta-feira, 7 de outubro de 2026

MASSOTERAPEUTA EMOCIONAL

fostes rei
por tanto tempo
que ignorei que não havia reinado 
que não era real

eu te dei a coroa
o trono
a mesa
o vinho
a fome
e fiquei com as migalhas
que alimentavam
não o meu corpo
mas esse animal vaidoso
que em mim
ainda te chama

fostes rei
sem reinado
amor
sem abrigo
presença
sem corpo
promessa
sem palavra

e eu,
tão ocupado em te esperar,
não percebi
que a vida passava
do outro lado da janela

hoje desisto daquilo que inventei
quando te amei
desisto do retorno
da espera
do quase
do talvez
do sim que nunca veio
do não que nunca teve coragem

desisto
e não perco

abro
a janela
a porta
o peito
a vida
porque algumas canções de amor
são fúnebres
e eu já cansei
de morrer
para ouvir
o teu nome sussurrar
a prisão do não
na frieza de tua mão 

sempre acariciada pelo ego
de teu corpo que maquina estrategicamente 
as nuances do vale de teu umbigo 

amor não se mendiga
tampouco diz adeus

eu por amor morreria 
mas como morrer se minha vida já desfaleceu?

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

DEPOIMENTO

depois de tantas braçadas 
de beber tantas águas 
distante, em alto mar

depois do que nunca foi ontem
e me rouba o presente
sob o ardor de mil sóis

depois, dê, pois
depois, depôs 

meu grito tem urgência
minha dor clama o chão 
por que tal penitência?
sou também criação 

meu grito tem nascença 
minha dor tem mãe, não?
porque tal resistência 
é meu bem, Salvação

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

ORDEM DE DESPEJO

mas como fugir de você
se as lembranças
ainda moram em mim?

talvez a despedida seja isso:
você sair pela porta
e eu descobrir,
aos poucos,
que ainda sou casa

não era você
quem precisava sair de mim
era eu
quem precisava voltar
para dentro de mim

se as lembranças
ainda moram em mim?
como mandar embora
quem já deixou
as chaves dentro da gente?



sexta-feira, 11 de setembro de 2026

SETE DIAS

sob o sussurro do ventilador

a calça preta

pendurada no cabide

seca das águas que caem lá fora


aqui dentro

também chove

e mesmo seco

eu me encharco

de mim


terça-feira, 1 de setembro de 2026

VOCÊ QUE MENTIU

dizem que passo vergonha
por ainda te manter em minha vida 
em minha fronha os resquícios do prazer 

mas por que contar mentiras?
deixe o tempo me curar da armadilha
e numa ilha só nós dois abandonar 

tanta coisa pra dizer
que nunca dita foi do amor
já corri para esconder-me
já sorri em sabor da dor

tanta gente pra dizer 
que auto amor é bloquear 
não quero você preso em mim 
amaria se voltar

dizem que passo vergonha 
nossas línguas se falarem
junto à minha feito concha de um abraço habitar 

mas pra quem conta mentiras
"eu te amo" é só dizer
tudo em mim é só feridas
o teu bem é mal fazer

se talvez você me buscar
num Fusca branco e cantar
talvez eu me desarmo
se Armandinho cantando uma de amar

se Analua for, desarmado me vou
sabe em sonho te encontrar, viu?

eu te amo, 
você sabe, entender
você nunca viu

eu chamo 
cê cabe, se sente
Você que mentiu