sexta-feira, 20 de março de 2026

quarta-feira, 18 de março de 2026

SENTIR

 talvez vencido pelo cansaço 

o pensamento que me atravessa

seja o parar


eu paro e me escuto

e no escuro desse tumulto

canto uma cantiga de ninar

para as vozes que salientes

dissipam minha paz 


tomo um tempo 

tomo água 

tomo um ar

e não temo

o céu nublado

alvejado por relâmpagos


movimento o meu corpo

em direção à chuva

eu abraço a tempestade

num ritual humano e sagrado

não culpo as dores

nem cultuo as flores

eu deixo ser 

e sou 

me deixou crer

me dou


ser humano é perfeito

o imperfeito é se endeusar 



LUA NOVA

tua beleza não precisa de permissão pra existir
entre as belezas que existem no mundão mais linda é teu sorrir

então fica por aqui
cê sabe se parte parte meu coração
fica por aqui
em parte, a parte de ti em mim é paixão

dançar contigo é verão
ouvir tua voz é bossa nova
tudo em ti é perfeição
e o que não for é lua nova


terça-feira, 17 de março de 2026

ITA

 hoje provei o gosto metálico de existir sem mim

não foi dor
dor ainda é um tipo de companhia
foi uma espécie de ausência com pulso

eram quatro da manhã
e o mundo insistia em acontecer
como se eu estivesse nele
mas eu não estava

meu corpo, essa insistência orgânica
cumpria protocolos:
ria na medida exata,
concordava com delicadeza ensaiada,
vestia o crachá invisível de quem acompanha
sem nunca chegar

eu era presença etiquetada
um erro de impressão com boa educação
e enquanto falavam
eu escorria de mim
como água que desaprendeu o recipiente

havia um som dentro do meu peito
não coração,
mas um tamborim em câmera lenta,
descompassado da festa alheia
uma Sapucaí dentro de mim
e ainda assim
nenhum desfile
eu filetado em partido baixo

só o atraso das coisas
só o tempo pingando
como soro de angústia

alugavam-se um televisor
eu pedi para repetir
e ninguém percebeu
que era o mundo
que eu não estava entendendo-me
imundo

pode falar de novo?

como se a vida tivesse legenda
e eu, finalmente, pudesse alcançar

mas não

o medo não traduz
o medo dilacera

faz do adulto uma caricatura de ossos
e da coragem um verbo que não se conjuga
tampouco faz-se carne

e ainda assim
quem foi que disse
que a força mora no grito?

vi ali
um sacerdócio silencioso:
mãos exaustas sustentando
o que ainda respira,
olhos que já não dormem
mas continuam acreditando
no improvável mínimo
que subscreve o muito
vidas empilhadas sobre cansaço
cansaço sobre cansaço
asco, lasco
tasco?

e o mundo moderno
mastigando tudo
com dentes de máquina
tempo 

então eu chorei.

não bonito 
não literário 
não digno de ser lembrado ou sucumbido

chorei como rio que esquece a margem:
meu Paraíba do Sul encontrando o Muriaé
em lentidão quase indecente
e.preliminar

um encontro que não salva,
mas continua

e, estranhamente,
entre o colapso e o intervalo,
brotaram risos

pequenos
quase clandestinos

pessoas com calor de gente
— o tipo raro —
oferecendo leveza
como quem não sabe
que está salvando alguém

e foi aí que doeu mais:

porque eu quis o teu abraço
minha carne que sambava 
despencando de meus ossos 
ardia por gente

não o gesto
mas o silêncio que ele contém

aquele silêncio que pulsa
e diz sem dizer Cazuza

eu teria ficado, aproveitando

se o tempo não fosse esse animal que foge
justo quando começamos a tocá-lo
e quando percebi,
já era tarde

o tempo tinha ido embora
sem pedir licença 
como fazem as coisas essenciais

e o que restou
foi essa memória áspera,
salpicada de um arrependimento manso:
o de quase ter sido
mas se foi

podem não era de você que eu queria falar

porque há algo em você
que não cede,
não pulsa,
não sangra

descobri: “Ita", pedra

você carrega uma pedreira no peito
e eu, tolo,
ainda tentei morar aí
como quem acredita
que mármore sabe abraçar

mas mármore
só sabe durar
frio

e eu 

eu só sei sentir
até desaparecer
de zarpar a poder ser

hoje sou adulto que cuida
de minha velha nova criança 
que não crer em bicho papão 
mas conhece o despistar de meu olhar

segunda-feira, 16 de março de 2026

SINGULAR

 como você que é tão único
se manifesta em tantos você?

quase acreditei
na versão que falava baixo
e me fazia voar

na outra
você já era distância
antes mesmo de ir
sem nunca estar

há algo curioso
em descobrir uma pessoa
não que ela mentiu
apenas
que era plural
desde o início
singular

sem lar