fostes rei
por tanto tempo
que ignorei que não havia reinado
que não era real
por tanto tempo
que ignorei que não havia reinado
que não era real
eu te dei a coroa
o trono
a mesa
o vinho
a fome
e fiquei com as migalhas
que alimentavam
não o meu corpo
mas esse animal vaidoso
que em mim
ainda te chama
fostes rei
sem reinado
amor
sem abrigo
presença
sem corpo
promessa
sem palavra
e eu,
tão ocupado em te esperar,
não percebi
que a vida passava
do outro lado da janela
hoje desisto daquilo que inventei
quando te amei
desisto do retorno
da espera
do quase
do talvez
do sim que nunca veio
do não que nunca teve coragem
desisto do retorno
da espera
do quase
do talvez
do sim que nunca veio
do não que nunca teve coragem
desisto
e não perco
abro
a janela
a porta
o peito
a vida
porque algumas canções de amor
são fúnebres
e eu já cansei
de morrer
para ouvir
o teu nome sussurrar
a prisão do não
na frieza de tua mão
sempre acariciada pelo ego
de teu corpo que maquina estrategicamente
as nuances do vale de teu umbigo
amor não se mendiga
tampouco diz adeus
eu por amor morreria
mas como morrer se minha vida já desfaleceu?