sábado, 24 de outubro de 2026

EU AMEI O AMOR

O coração é uma caixa de música. Dessas que a gente abre sem saber exatamente o que vai ouvir. Há sempre uma melodia repetindo o mesmo compasso, e, de tanto ouvi-la, a gente se distrai do que ela esconde. Porque há segredos que moram justamente naquilo que se repete. Sentimentos que dançam em círculos para não encontrar a porta de saída. E a gente sente. E, às vezes, ressente. Outras, desmente o próprio coração, como se a mentira pudesse ensinar silêncio àquilo que nasceu grito.

O amor é único. Não porque só aconteça uma vez, mas porque nunca acontece da mesma maneira. O amor é puro, mesmo quando a gente é confuso. Tem urgência de ontem, uma pressa antiga de quem reconhece no agora alguma coisa que não pode deixar para depois. O amor nos chama antes que a boca aprenda o nome, antes que o medo organize as razões, antes que a vida, tão cheia de compromissos, nos convença a adiar o que nos faz vivos.

E não, o amor não é inexplicável porque seja maior que a razão. Nem porque nos dispense da responsabilidade de sentir, de crescer, de amadurecer. Talvez seja justamente o contrário. Amar é uma escolha lúcida, dessas que a gente faz sabendo que o outro não veio ao mundo para nos completar, mas que, ainda assim, escolhe permanecer. Ficar quando a novidade perde o brilho. Cuidar quando o encanto pede descanso. Recomeçar sem transformar a permanência numa prisão. O amor também é pensamento. É decisão. É o coração assinando embaixo daquilo que a consciência compreendeu.

Eu louvo a vida. Pelos que permiti entrar, pelos que insistiram sem arrombar minhas portas, pelos que chegaram sem prometer eternidade e, ainda assim, ficaram. Louvo os que fizeram morada sem exigir escritura, os que tocaram minhas partes mais escondidas e não fugiram quando descobriram que eu também sou feito de desencontros. Porque há gente que chega e nos divide. Mas há gente que nos reparte de tal maneira que, em vez de diminuir, a gente se multiplica.

Talvez seja isso: a gente nunca ame sozinho. Há sempre uma multidão acontecendo dentro de um abraço. Os que fomos, os que tentamos ser, os que abandonamos pelo caminho. E, quando alguém nos toca de verdade, alguma coisa em nós reconhece o mundo inteiro naquele pequeno espaço entre duas peles. Somos infinitude em toques, em retoques, em entre toques. Somos o universo cabendo, por um instante, na delicadeza de uma mão que não solta a outra.

E quando a caixa de música se fecha, a melodia não acaba. Continua em algum lugar que os olhos não alcançam. Porque amar também é isso: descobrir que certas presenças não precisam estar diante de nós para continuarem acontecendo. O coração guarda o que a memória não sabe organizar. E, às vezes, basta um cheiro, uma palavra, uma canção atravessando a tarde para que tudo volte a girar.

Por isso, quando me perguntarem o que é o amor, talvez eu não responda. Não por falta de palavras, mas porque já me cansei de tentar aprisionar o infinito numa definição. Prefiro abrir a caixa. Deixar a música tocar. E agradecer a quem, em algum momento da vida, escolheu dançar comigo — mesmo sem conhecer a letra, mesmo sem saber o próximo passo, mesmo sabendo que toda música um dia silencia.

Porque, no fim, não é sobre a música que toca. É sobre quem permanece quando ela termina. E tudo pode recomeçar... Pelo amar!

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

DOIS DE DEZ

Hoje vesti minhas melhores máscaras sociais. Saí da cama, escovei os dentes, almocei, jantei. Cumpri o protocolo mínimo da sobrevivência. De zero a dez, fui dois. E o mais irônico é que minha vontade de dar certo era mil.

Há dias em que somos funcionários exemplares da própria sobrevivência: sorrimos, respondemos, comparecemos. Por dentro, um departamento inteiro de afetos está em greve. Mas o mundo não gira em torno do nosso umbigo. Nem mesmo quando tudo em nós implora por uma pausa na órbita.

Eu tento porque ainda acredito no caminho. Mas parar também é verbo, também é movimento. Às vezes, tudo o que temos a oferecer ao dia é a nossa falta de produtividade. E talvez seja muito.

Hoje vivi o sobrenatural de Deus na banalidade de sobreviver a mais um dia. Venci medos, atravessei a falta de coragem. Não movi montanhas. Corte o Gamba. Apenas fui. E, para quem conhece o peso de certas manhãs, esse pequeno verbo tem a dimensão de um milagre.

O dia terminou com alguém que não conhece nem um terço da minha história, mas soube tocar justamente onde eu precisava. Não pediu explicações, não tentou consertar minhas dores. Apenas me ofereceu afeto. Às vezes, quem mal conhece nossos capítulos lê uma linha nossa com delicadeza.

Então vieram três palavras: Jesus loves you. See ya. (Jesus te ama. Até mais.) Talvez Deus não precise abrir os céus para se fazer presente. Às vezes, usa a boca de alguém para nos lembrar de que ainda existe ternura neste mundo.

Hoje fui dois de dez. Amanhã, não sei. Há dias em que vencer é apenas não abandonar a si mesmo. Se me perguntarem o que fiz de extraordinário, direi: nada. Apenas estive aqui. Humano naquilo que não pude, inteiro naquilo que consegui. E, por hoje, isso basta. Talvez reside aí,  graça de Deus!


terça-feira, 13 de outubro de 2026

CONTEMPORANEIDADE

se o amor nos convida ao sobrenatural,
quero andar sobre as águas,
não mergulhar em águas rasas.

quero a vertigem dos abismos,
a insanidade de me entregar
e encontrar, no espelho dos teus olhos,
um pedaço de mim
que ainda não aprendi a habitar

quero descobrir tuas delicadezas
como quem encontra passarinhos
morando dentro de uma árvore antiga
e, enquanto te descubro,
desconhecer-me de novo

quero sussurrar palavras doces
mesmo quando a vida nos oferecer
o sal na companhia do cotidiano 

porque amar talvez seja isso:
descobrir o infinito no outro
sem deixar de se espantar
com o pequeno milagre de nós mesmos

e, se for para amar,
que seja sem a covardia das superfícies,
sem a obrigação da perfeição,
com a alma descalça
e a coragem bonita
de quem mergulha no mistério
sem medo de se reinventar

quero um amor que me desobedeça
quando eu tentar fugir de mim,
que me devolva ao mundo
com os olhos de quem acaba de nascer,
que me ensine a ser outro
sem me exigir que deixe de ser quem sou

um amor que tenha céu,
mas não despreze a terra
que tenha asas,
mas saiba reconhecer o chão
que conheça o abismo
e, ainda assim,
não confunda profundidade com sofrimento
pois não é de dor que tenho sede
é de presença

a tua presença que ausência me conjurou

quero o espanto
a vertigem
o susto de encontrar alguém
e, de repente,
não saber mais onde termina o outro
e onde começa o meu desconhecido

porque amar, talvez, seja isso:
perder por instantes a mobília de si,
mudar os móveis de lugar na alma,
descobrir uma janela
onde antes havia parede
e olhar

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

MASSOTERAPEUTA EMOCIONAL

fostes rei
por tanto tempo
que ignorei que não havia reinado 
que não era real

eu te dei a coroa
o trono
a mesa
o vinho
a fome
e fiquei com as migalhas
que alimentavam
não o meu corpo
mas esse animal vaidoso
que em mim
ainda te chama

fostes rei
sem reinado
amor
sem abrigo
presença
sem corpo
promessa
sem palavra

e eu,
tão ocupado em te esperar,
não percebi
que a vida passava
do outro lado da janela

hoje desisto daquilo que inventei
quando te amei
desisto do retorno
da espera
do quase
do talvez
do sim que nunca veio
do não que nunca teve coragem

desisto
e não perco

abro
a janela
a porta
o peito
a vida
porque algumas canções de amor
são fúnebres
e eu já cansei
de morrer
para ouvir
o teu nome sussurrar
a prisão do não
na frieza de tua mão 

sempre acariciada pelo ego
de teu corpo que maquina estrategicamente 
as nuances do vale de teu umbigo 

amor não se mendiga
tampouco diz adeus

eu por amor morreria 
mas como morrer se minha vida já desfaleceu?

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

DEPOIMENTO

depois de tantas braçadas 
de beber tantas águas 
distante, em alto mar

depois do que nunca foi ontem
e me rouba o presente
sob o ardor de mil sóis

depois, dê, pois
depois, depôs 

meu grito tem urgência
minha dor clama o chão 
por que tal penitência?
sou também criação 

meu grito tem nascença 
minha dor tem mãe, não?
porque tal resistência 
é meu bem, Salvação