quarta-feira, 27 de maio de 2026

EM CAIXAS TU

juntei meus cacos espalhados pelo chão 
meus pedaços de juras curtas
compridas foram as esperas
palavras de calor, hoje pedras brutas

ainda dói olhar a tristeza na alegria
ainda é pranto o seco silêncio 
paixão é sempre carnaval
encarnado prazer de fantasia 

uma noite acolhida pelo frio
um Djavan já em vã promessas 
longe das luzes que te pinta belo
perto do diabo 
e tantas rezas

me abri para o esquecimento
sabendo que isso ainda era lembrar 
cataloguei os bons momentos
em caixas de papelão sobre o guarda-roupa 

guardei-me pra mim 
resguardei-me de ti 
destruí o imaginário 
e me construí o fim

depois de um final
antecedido pela dor
sempre chega o recomeçar 


terça-feira, 26 de maio de 2026

EU MENTI

eu menti
dizia que por já três semanas 
que não pensava em você 
mas pra te esquecer eu me lembro

eu menti 
te escondo em cavidades das palavras 
pra ninguém perceber
um sol à meia-noite inodoro

o rio enquanto eu choro
embalo o peito e corro
espalho o pensamento 
o vento a favor de mim

eu fujo, tento, calo
verdades nunca falo
te amo no que invento
um rei sem ser real pra mim

como pode alguém morrer
se no peito ainda pulsa, enfim





segunda-feira, 25 de maio de 2026

CIRANDA

a vida é um roda
um generoso convite ao bailar
alternar o passos
os pesos 
e liberar os pesares

a ciranda da vida nos cativa
nos captura o que há de leve
e brevemente nos achega a paz 

a vida é uma brincadeira 
séria, como convém o respirar 
passageira como vem a serôdia 
a vida é lembrança do que nunca parte 

a vida já se faz parte 
o que era inteiro se perdeu 

terça-feira, 19 de maio de 2026

AZIA

como um furacão 
agitam as lágrimas 
que eu não posso chorar
são companhias 

a brisa é um tufão 
ventila em esgrimas
as palavras no ar
são costuras sem linhas

cama vazia
o lençol incendeio
na boca azia
tua saliva o tempero 

o real fantasia
no descarte, o primeiro 
o que foi alegria
é cachoeira em bueiro 

queria eu ficar
o passado habitar
tanta cor pra transbordar 
tô a bordo de um penhasco sem fim
te abordo por um raso meio sim 



terça-feira, 5 de maio de 2026

MONÓLOGO — “CONSTÂNCIA DE ESPERAR”

Eu sou uma constância de esperar.

(ri baixo, sem humor)

É quase bonito assim, dito desse jeito.
Constância… parece disciplina, parece escolha.
Mas não é.

Eu espero.

Espero respostas que não chegam,
gestos que não vêm,
palavras que ficam presas na garganta dos outros…
ou na minha.

(uma pausa curta)

Eu aprendi a esperar sem fazer barulho.
Sem bater na porta.
Sem perguntar “você esqueceu de mim?”

Porque existe um medo…
um medo muito específico…
de ouvir “não”.

Ou pior:
de não ouvir nada.

(silêncio)

O silêncio…
ele não grita, mas ocupa tudo.
Ele entra pelos cantos, senta do seu lado,
e começa a te convencer de coisas.

Que você exagera.
Que você sente demais.
Que você é demais…
ou de menos.

(olha ao redor, como se procurasse alguém)

E eu fui ficando.
Ficando onde não cabia,
diminuindo pedaços de mim
pra ver se alguém, enfim,
abria espaço.

Mas ninguém abre espaço pra quem não se coloca.

(uma respiração mais funda)

E o mais estranho…
é que eu me acostumei.

Me acostumei a traduzir ausência como normal.
A chamar distância de tempo.
A fingir que entendo o silêncio dos outros…
quando eu mal suporto o meu.

(mais íntimo, mais baixo)

Eu sou uma constância de esperar…
mas não porque eu tenha paciência.

É porque eu tenho medo.

Medo de ir.
Medo de dizer.
Medo de não ser escolhido
nem quando eu me escolho.

(pausa longa)

E talvez…
talvez o que mais doa
não seja ninguém ter vindo.

É perceber
que eu também não fui.

(silêncio final)