terça-feira, 5 de maio de 2026

MONÓLOGO — “CONSTÂNCIA DE ESPERAR”

Eu sou uma constância de esperar.

(ri baixo, sem humor)

É quase bonito assim, dito desse jeito.
Constância… parece disciplina, parece escolha.
Mas não é.

Eu espero.

Espero respostas que não chegam,
gestos que não vêm,
palavras que ficam presas na garganta dos outros…
ou na minha.

(uma pausa curta)

Eu aprendi a esperar sem fazer barulho.
Sem bater na porta.
Sem perguntar “você esqueceu de mim?”

Porque existe um medo…
um medo muito específico…
de ouvir “não”.

Ou pior:
de não ouvir nada.

(silêncio)

O silêncio…
ele não grita, mas ocupa tudo.
Ele entra pelos cantos, senta do seu lado,
e começa a te convencer de coisas.

Que você exagera.
Que você sente demais.
Que você é demais…
ou de menos.

(olha ao redor, como se procurasse alguém)

E eu fui ficando.
Ficando onde não cabia,
diminuindo pedaços de mim
pra ver se alguém, enfim,
abria espaço.

Mas ninguém abre espaço pra quem não se coloca.

(uma respiração mais funda)

E o mais estranho…
é que eu me acostumei.

Me acostumei a traduzir ausência como normal.
A chamar distância de tempo.
A fingir que entendo o silêncio dos outros…
quando eu mal suporto o meu.

(mais íntimo, mais baixo)

Eu sou uma constância de esperar…
mas não porque eu tenha paciência.

É porque eu tenho medo.

Medo de ir.
Medo de dizer.
Medo de não ser escolhido
nem quando eu me escolho.

(pausa longa)

E talvez…
talvez o que mais doa
não seja ninguém ter vindo.

É perceber
que eu também não fui.

(silêncio final) 

terça-feira, 28 de abril de 2026

QUASES

Tem dias em que a solidão não chega, ela já está sentada, antes de mim, à mesa. Não pede licença, não faz barulho. Apenas ocupa. E eu, que tantas vezes sou palco, voz, presença, me vejo reduzido a esse silêncio que não aplaude.

Há uma exaustão quase invisível em sustentar a alegria como quem sustenta um cenário prestes a desabar. A gente aprende a sorrir com técnica, a responder “tudo bem” com precisão cênica, a maquiar os dias com uma luz que nem sempre nos pertence. E, ainda assim, por dentro, algo falha. Como uma equação mal resolvida que insiste em não fechar.

Nessa matemática da vida, fui treinado para buscar o x: a solução, o sentido, o encaixe perfeito. Mas há dias em que o x se esconde, ou pior, não existe. E o que resta é esse intervalo entre o que se espera de mim e o que de fato sou capaz de sustentar. É aí que o fracasso sussurra: não como sentença, mas como presença.

E talvez o mais difícil não seja cair, seja ter que cair sorrindo. Como se a dor precisasse de autorização estética para existir. Como se o mundo só suportasse versões editadas da nossa humanidade.

Então me pergunto, com uma honestidade quase incômoda: a questão é não encontrar respostas… ou é não suportar as perguntas? Estar vivo exige esse enfrentamento constante com o indizível, com o inacabado, com o que não se resolve.

Ou será que o que nos atravessa, no fundo, é o medo de já estarmos, aos poucos, habitando alguma forma de morte? 

Hoje não tenho respostas. E talvez essa seja a única verdade honesta que consigo oferecer. Mas sigo, não por coragem plena, nem por fé inabalável. Sigo porque, apesar de tudo, ainda há algo em mim que insiste. Um resto. Um fio. Um quase.

De tantos "quases" eu quase cri nisso tudo.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

BENÇÃO

em cada despedida deixei-me um pedaço
em cada encontro um ponto
e nenhum orixá dançou

em cada entrega um inteiro de um tudo
tirando do nada que restara

eu nadei contra mim
contra o mar
contra a maré

eu perseguia o vento
mas o vento é ainda uma criança travessa
as saias levantam, as folhas bagunçam 
e de meus sentimentos gargalha
tolo 

eu nadei
com braços firmes
e conchas nas mãos

será o amor o afogar?


quarta-feira, 22 de abril de 2026

NÃO SE FAZ POESIA PARA POEMA

não se faz poesia para São Fidélis
para Cidade Poema se vive a poesia
com rima perfeita afinada à voz de cada morador
com a ímpar beleza a cada vez que o sol se por

não se faz poesia para São Fidélis
a minha pequena cidade só quem traduz é o coração
é o cheiro da pipoca, os contos na feira
rios, cachoeiras, Joana, vasto chão

é abril
abril é mês de encontros
de abraços de Miguel
lembranças de Fernanda
segredos que nunca conto
de vida ressoando em cada nota da lira
na sete de setembro

eu me lembro em abril a gente delira
a gente inexplicavelmente fica mais belo
reafirna os antigos elos
e se abre para o abraço dos novos risos

abril é montanhas mais verdes
é banda, barraca, brindes, leilão
uma montanha russa de emoção
é par, é parque
abril é suspensão
 
e São Fidélis, a minha
é para todos
é para onde meu coração se abriu

terça-feira, 21 de abril de 2026

MADRUGADA

 no fundo todo mundo 
quer sua superfície tocada
pelo voz que cala palavras

entre uma armadura e outra
a alma clama por nudez 
poros dedilhados peito piano de calda
até canções voluptuosa conclamem Oxum 

nossas palavras calam o eu 
nosso breu iluminam o prazer
nossa diferença sepulta
o que poderia ter sido
se a maré do Paraíba 
de sei leito não levantasse

entre uma cruel negação
e minha entrega sincera 
nasceu um território morto

ofereci abismo,
você devolveu superfície áspera