terça-feira, 26 de maio de 2026

EU MENTI

eu menti
dizia que por já três semanas 
que não pensava em você 
mas pra te esquecer eu me lembro

eu menti 
te escondo em cavidades das palavras 
pra ninguém perceber
um sol à meia-noite inodoro

o rio enquanto eu choro
embalo o peito e corro
espalho o pensamento 
o vento a favor de mim

eu fujo, tento, calo
verdades nunca falo
te amo no que invento
um rei sem ser real pra mim

como pode alguém morrer
se no peito ainda pulsa, enfim





segunda-feira, 25 de maio de 2026

CIRANDA

a vida é um roda
um generoso convite ao bailar
alternar o passos
os pesos 
e liberar os pesares

a ciranda da vida nos cativa
nos captura o que há de leve
e brevemente nos achega a paz 

a vida é uma brincadeira 
séria, como convém o respirar 
passageira como vem a serôdia 
a vida é lembrança do que nunca parte 

a vida já se faz parte 
o que era inteiro se perdeu 

terça-feira, 19 de maio de 2026

AZIA

como um furacão 
agitam as lágrimas 
que eu não posso chorar
são companhias 

a brisa é um tufão 
ventila em esgrimas
as palavras no ar
são costuras sem linhas

cama vazia
o lençol incendeio
na boca azia
tua saliva o tempero 

o real fantasia
no descarte, o primeiro 
o que foi alegria
é cachoeira em bueiro 

queria eu ficar
o passado habitar
tanta cor pra transbordar 
tô a bordo de um penhasco sem fim
te abordo por um raso meio sim 



terça-feira, 5 de maio de 2026

MONÓLOGO — “CONSTÂNCIA DE ESPERAR”

Eu sou uma constância de esperar.

(ri baixo, sem humor)

É quase bonito assim, dito desse jeito.
Constância… parece disciplina, parece escolha.
Mas não é.

Eu espero.

Espero respostas que não chegam,
gestos que não vêm,
palavras que ficam presas na garganta dos outros…
ou na minha.

(uma pausa curta)

Eu aprendi a esperar sem fazer barulho.
Sem bater na porta.
Sem perguntar “você esqueceu de mim?”

Porque existe um medo…
um medo muito específico…
de ouvir “não”.

Ou pior:
de não ouvir nada.

(silêncio)

O silêncio…
ele não grita, mas ocupa tudo.
Ele entra pelos cantos, senta do seu lado,
e começa a te convencer de coisas.

Que você exagera.
Que você sente demais.
Que você é demais…
ou de menos.

(olha ao redor, como se procurasse alguém)

E eu fui ficando.
Ficando onde não cabia,
diminuindo pedaços de mim
pra ver se alguém, enfim,
abria espaço.

Mas ninguém abre espaço pra quem não se coloca.

(uma respiração mais funda)

E o mais estranho…
é que eu me acostumei.

Me acostumei a traduzir ausência como normal.
A chamar distância de tempo.
A fingir que entendo o silêncio dos outros…
quando eu mal suporto o meu.

(mais íntimo, mais baixo)

Eu sou uma constância de esperar…
mas não porque eu tenha paciência.

É porque eu tenho medo.

Medo de ir.
Medo de dizer.
Medo de não ser escolhido
nem quando eu me escolho.

(pausa longa)

E talvez…
talvez o que mais doa
não seja ninguém ter vindo.

É perceber
que eu também não fui.

(silêncio final) 

terça-feira, 28 de abril de 2026

QUASES

Tem dias em que a solidão não chega, ela já está sentada, antes de mim, à mesa. Não pede licença, não faz barulho. Apenas ocupa. E eu, que tantas vezes sou palco, voz, presença, me vejo reduzido a esse silêncio que não aplaude.

Há uma exaustão quase invisível em sustentar a alegria como quem sustenta um cenário prestes a desabar. A gente aprende a sorrir com técnica, a responder “tudo bem” com precisão cênica, a maquiar os dias com uma luz que nem sempre nos pertence. E, ainda assim, por dentro, algo falha. Como uma equação mal resolvida que insiste em não fechar.

Nessa matemática da vida, fui treinado para buscar o x: a solução, o sentido, o encaixe perfeito. Mas há dias em que o x se esconde, ou pior, não existe. E o que resta é esse intervalo entre o que se espera de mim e o que de fato sou capaz de sustentar. É aí que o fracasso sussurra: não como sentença, mas como presença.

E talvez o mais difícil não seja cair, seja ter que cair sorrindo. Como se a dor precisasse de autorização estética para existir. Como se o mundo só suportasse versões editadas da nossa humanidade.

Então me pergunto, com uma honestidade quase incômoda: a questão é não encontrar respostas… ou é não suportar as perguntas? Estar vivo exige esse enfrentamento constante com o indizível, com o inacabado, com o que não se resolve.

Ou será que o que nos atravessa, no fundo, é o medo de já estarmos, aos poucos, habitando alguma forma de morte? 

Hoje não tenho respostas. E talvez essa seja a única verdade honesta que consigo oferecer. Mas sigo, não por coragem plena, nem por fé inabalável. Sigo porque, apesar de tudo, ainda há algo em mim que insiste. Um resto. Um fio. Um quase.

De tantos "quases" eu quase cri nisso tudo.