sábado, 30 de maio de 2026

CABIDE

 você me fere
quando se adere ao teu medo
que, cheio de dedos, nos afasta
sem sequer nos tocar

você me fere quando
o nada nos faz

nas encostas desse rio
nado em braçadas
rumo ao nada
seco, me derramo silenciosamente
como quem constrange deus
como quem exuma a mãe
como quem não se cabe em si

você é cabide
onde repouso
sem jamais pousar
meu amanhã

quarta-feira, 27 de maio de 2026

EM CAIXAS TU

juntei meus cacos espalhados pelo chão 
meus pedaços de juras curtas
compridas foram as esperas
palavras de calor, hoje pedras brutas

ainda dói olhar a tristeza na alegria
ainda é pranto o seco silêncio 
paixão é sempre carnaval
encarnado prazer de fantasia 

uma noite acolhida pelo frio
um Djavan já em vã promessas 
longe das luzes que te pinta belo
perto do diabo 
e tantas rezas

me abri para o esquecimento
sabendo que isso ainda era lembrar 
cataloguei os bons momentos
em caixas de papelão sobre o guarda-roupa 

guardei-me pra mim 
resguardei-me de ti 
destruí o imaginário 
e me construí o fim

depois de um final
antecedido pela dor
sempre chega o recomeçar 


terça-feira, 26 de maio de 2026

EU MENTI

eu menti
dizia que por já três semanas 
que não pensava em você 
mas pra te esquecer eu me lembro

eu menti 
te escondo em cavidades das palavras 
pra ninguém perceber
um sol à meia-noite inodoro

o rio enquanto eu choro
embalo o peito e corro
espalho o pensamento 
o vento a favor de mim

eu fujo, tento, calo
verdades nunca falo
te amo no que invento
um rei sem ser real pra mim

como pode alguém morrer
se no peito ainda pulsa, enfim





segunda-feira, 25 de maio de 2026

CIRANDA

a vida é um roda
um generoso convite ao bailar
alternar o passos
os pesos 
e liberar os pesares

a ciranda da vida nos cativa
nos captura o que há de leve
e brevemente nos achega a paz 

a vida é uma brincadeira 
séria, como convém o respirar 
passageira como vem a serôdia 
a vida é lembrança do que nunca parte 

a vida já se faz parte 
o que era inteiro se perdeu 

terça-feira, 19 de maio de 2026

AZIA

como um furacão 
agitam as lágrimas 
que eu não posso chorar
são companhias 

a brisa é um tufão 
ventila em esgrimas
as palavras no ar
são costuras sem linhas

cama vazia
o lençol incendeio
na boca azia
tua saliva o tempero 

o real fantasia
no descarte, o primeiro 
o que foi alegria
é cachoeira em bueiro 

queria eu ficar
o passado habitar
tanta cor pra transbordar 
tô a bordo de um penhasco sem fim
te abordo por um raso meio sim