Hoje eu acordei inteiro.
Inteiro como quem aprende a colar os próprios cacos com uma destreza que impressiona quem vê de fora. Nada fora do lugar. Nada fora do tom. A vida, essa vitrine bem iluminada, segue exposta — limpa, organizada, quase convincente.
Eu sou o rei das multidões.
Caminho entre vozes, risos, cumprimentos, e ainda assim carrego um silêncio que não cabe em nenhuma sala cheia. Porque multidão não escuta o que é sussurro da alma. Multidão aplaude o espetáculo, mas não senta no chão comigo quando o palco desmonta.
Dói chorar sozinho.
Dói porque o choro, quando nasce, não encontra caminho. Ele não escorre — ele se perde. Não há leito, não há rio. Só essas marcas no rosto que não são de tempo, são de contenção. Rugas de sentimentos represados. Barragens erguidas por medo de transbordar onde não cabe.
E eu olho o rio…
O rio segue. O rio sabe para onde ir. O rio descansa no próprio curso. Eu, não. Eu represando em mim o que deveria correr. Eu acumulando em silêncio o que deveria encontrar margem.
Eu queria falar.
Mas falar é perigoso quando a gente passou a vida sendo entendido pelo que aparenta.
Eu queria dizer.
Mas dizer desmonta a imagem, e eu me tornei especialista em sustentá-la.
Eu queria ser.
Mas ser exige uma coragem que ninguém ensina quando você aprende cedo demais a corresponder.
E no meio disso tudo, Deus.
Ou a ideia dele. Ou a expectativa que eu criei em nome dele.
Eu me pego perguntando:
Deus, qual foi o teu propósito pra mim aqui?
Mas no fundo, talvez a pergunta esconda outra mais incômoda:
em que momento eu deixei de viver o meu próprio sentir para tentar acertar o teu olhar?
Porque se até Deus eu tento agradar, então eu me perdi de mim em algum ponto do caminho.
É estranho…
Eu sei me comunicar, sei me posicionar, sei ocupar espaço.
Mas quando a dor pede voz, eu viro estrangeiro dentro da própria língua.
Hoje eu acordei inteiro, sim.
Mas não inteiro de paz.
Inteiro de esforço.
E talvez — só talvez — exista um outro tipo de inteireza que eu ainda não conheço.
Uma que não precise ser montada todos os dias.
Uma que não precise convencer ninguém.
Uma que apenas… seja.
Inteiro como quem aprende a colar os próprios cacos com uma destreza que impressiona quem vê de fora. Nada fora do lugar. Nada fora do tom. A vida, essa vitrine bem iluminada, segue exposta — limpa, organizada, quase convincente.
Eu sou o rei das multidões.
Caminho entre vozes, risos, cumprimentos, e ainda assim carrego um silêncio que não cabe em nenhuma sala cheia. Porque multidão não escuta o que é sussurro da alma. Multidão aplaude o espetáculo, mas não senta no chão comigo quando o palco desmonta.
Dói chorar sozinho.
Dói porque o choro, quando nasce, não encontra caminho. Ele não escorre — ele se perde. Não há leito, não há rio. Só essas marcas no rosto que não são de tempo, são de contenção. Rugas de sentimentos represados. Barragens erguidas por medo de transbordar onde não cabe.
E eu olho o rio…
O rio segue. O rio sabe para onde ir. O rio descansa no próprio curso. Eu, não. Eu represando em mim o que deveria correr. Eu acumulando em silêncio o que deveria encontrar margem.
Eu queria falar.
Mas falar é perigoso quando a gente passou a vida sendo entendido pelo que aparenta.
Eu queria dizer.
Mas dizer desmonta a imagem, e eu me tornei especialista em sustentá-la.
Eu queria ser.
Mas ser exige uma coragem que ninguém ensina quando você aprende cedo demais a corresponder.
E no meio disso tudo, Deus.
Ou a ideia dele. Ou a expectativa que eu criei em nome dele.
Eu me pego perguntando:
Deus, qual foi o teu propósito pra mim aqui?
Mas no fundo, talvez a pergunta esconda outra mais incômoda:
em que momento eu deixei de viver o meu próprio sentir para tentar acertar o teu olhar?
Porque se até Deus eu tento agradar, então eu me perdi de mim em algum ponto do caminho.
É estranho…
Eu sei me comunicar, sei me posicionar, sei ocupar espaço.
Mas quando a dor pede voz, eu viro estrangeiro dentro da própria língua.
Hoje eu acordei inteiro, sim.
Mas não inteiro de paz.
Inteiro de esforço.
E talvez — só talvez — exista um outro tipo de inteireza que eu ainda não conheço.
Uma que não precise ser montada todos os dias.
Uma que não precise convencer ninguém.
Uma que apenas… seja.