Mostrando postagens com marcador #valdemy #valdemybraga #insanidadesdevaldemy #blogdepoesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #valdemy #valdemybraga #insanidadesdevaldemy #blogdepoesia. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de outubro de 2026

EU AMEI O AMOR

O coração é uma caixa de música. Dessas que a gente abre sem saber exatamente o que vai ouvir. Há sempre uma melodia repetindo o mesmo compasso, e, de tanto ouvi-la, a gente se distrai do que ela esconde. Porque há segredos que moram justamente naquilo que se repete. Sentimentos que dançam em círculos para não encontrar a porta de saída. E a gente sente. E, às vezes, ressente. Outras, desmente o próprio coração, como se a mentira pudesse ensinar silêncio àquilo que nasceu grito.

O amor é único. Não porque só aconteça uma vez, mas porque nunca acontece da mesma maneira. O amor é puro, mesmo quando a gente é confuso. Tem urgência de ontem, uma pressa antiga de quem reconhece no agora alguma coisa que não pode deixar para depois. O amor nos chama antes que a boca aprenda o nome, antes que o medo organize as razões, antes que a vida, tão cheia de compromissos, nos convença a adiar o que nos faz vivos.

E não, o amor não é inexplicável porque seja maior que a razão. Nem porque nos dispense da responsabilidade de sentir, de crescer, de amadurecer. Talvez seja justamente o contrário. Amar é uma escolha lúcida, dessas que a gente faz sabendo que o outro não veio ao mundo para nos completar, mas que, ainda assim, escolhe permanecer. Ficar quando a novidade perde o brilho. Cuidar quando o encanto pede descanso. Recomeçar sem transformar a permanência numa prisão. O amor também é pensamento. É decisão. É o coração assinando embaixo daquilo que a consciência compreendeu.

Eu louvo a vida. Pelos que permiti entrar, pelos que insistiram sem arrombar minhas portas, pelos que chegaram sem prometer eternidade e, ainda assim, ficaram. Louvo os que fizeram morada sem exigir escritura, os que tocaram minhas partes mais escondidas e não fugiram quando descobriram que eu também sou feito de desencontros. Porque há gente que chega e nos divide. Mas há gente que nos reparte de tal maneira que, em vez de diminuir, a gente se multiplica.

Talvez seja isso: a gente nunca ame sozinho. Há sempre uma multidão acontecendo dentro de um abraço. Os que fomos, os que tentamos ser, os que abandonamos pelo caminho. E, quando alguém nos toca de verdade, alguma coisa em nós reconhece o mundo inteiro naquele pequeno espaço entre duas peles. Somos infinitude em toques, em retoques, em entre toques. Somos o universo cabendo, por um instante, na delicadeza de uma mão que não solta a outra.

E quando a caixa de música se fecha, a melodia não acaba. Continua em algum lugar que os olhos não alcançam. Porque amar também é isso: descobrir que certas presenças não precisam estar diante de nós para continuarem acontecendo. O coração guarda o que a memória não sabe organizar. E, às vezes, basta um cheiro, uma palavra, uma canção atravessando a tarde para que tudo volte a girar.

Por isso, quando me perguntarem o que é o amor, talvez eu não responda. Não por falta de palavras, mas porque já me cansei de tentar aprisionar o infinito numa definição. Prefiro abrir a caixa. Deixar a música tocar. E agradecer a quem, em algum momento da vida, escolheu dançar comigo — mesmo sem conhecer a letra, mesmo sem saber o próximo passo, mesmo sabendo que toda música um dia silencia.

Porque, no fim, não é sobre a música que toca. É sobre quem permanece quando ela termina. E tudo pode recomeçar... Pelo amar!

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

ORDEM DE DESPEJO

mas como fugir de você
se as lembranças
ainda moram em mim?

talvez a despedida seja isso:
você sair pela porta
e eu descobrir,
aos poucos,
que ainda sou casa

não era você
quem precisava sair de mim
era eu
quem precisava voltar
para dentro de mim

se as lembranças
ainda moram em mim?
como mandar embora
quem já deixou
as chaves dentro da gente?



sexta-feira, 12 de setembro de 2025

JURAS

"jurei mentiras
e sigo sozinho"*

engoli a seco
um rio que fizestes 
nascer em mim

te pintei
num colorido
mágico 
como o sol de outono

me banhei
num mar de lágrimas 
que calam nossa jura

te guardei 
na devoção 
do pecado esculpir

o que jurei
me tiras
por onde segui 
me apanhas 

qual o final desse conto
se o que conto é final?



* Trecho da canção "Sangue Latino" de Joao Ricardo Carneiro Teixeira Pinto / Paulo Roberto Teixeira Da Cunha Mendonça, imortalizada na voz de Ney Matogrosso 

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

VEM SOBRE MIM

Pai, meu coração está sangrando
Pai, por Teu socorro estou clamando 
Pai, eu preciso tanto de uma direção 
Traz Tua paz, Tua unção 

Pai, sou pequeno, fraco, quebrantado 
Sei que por Tua voz sou restaurado 
Vem interceda por mim, Espírito Santo
Eis me aqui

Te deixo agir, transforma o meu interior 
Preciso de Ti, de Teu abraço, Teu calor
Vem com Teu fluir
Entrego tudo em Tuas mãos 
Não vou resistir à Tua graça e Teu perdão 

Está difícil caminhar
Eu mal posso respirar
Vem sobre mim, Senhor

Onde há morte, traz-me vida
Onde há dor, toque Tuas mãos
Cura o peito e as feridas
Estou clamando pela Tua salvação 



* Poesia inspirada no devocional da edição de hoje do podcast "Café com Deus Pai" ministrada pelo Pastor Junior Rostirola, sob a leitura do texto bíblico de Oséias 6: 1 e 2.



segunda-feira, 8 de setembro de 2025

QUEBRADO

Uma palavra sincera. Apenas isso, um gesto pequeno que poderia ser ponte. Mas às vezes parece mais fácil erguer muralhas do que abrir janelas e deixar um ar novo entrar.
Um olhar gentil, um olhar generoso, um acalento. Tão pouco e, ainda assim, tão raro. Estou todo exausto, defendendo trincheiras invisíveis, como se amar fosse um campo minado e sorrir fosse uma ameaça. 
Há tantos rios para chorar. E eu me pergunto por que escondemos nossas águas. Que medo é esse de transbordar diante do outro, se no fundo todos carregamos enchentes represadas dentro do peito? Tantos mares de braços fechados, recusando-se a acolher. Tantos portos fechados em nome da pressa, da indiferença, da sobrevivência.
O silêncio grita. Grita nas conversas vazias, nas mensagens não respondidas, nos abraços ensaiados e nunca dados. Grita quando deitamos a cabeça no travesseiro e sentimos o peso daquilo que não dissemos. Ou das performances que atuamos na composição de precisar prosseguir. Hoje sou paralisia.
E é nesse instante que eu volto ao gesto simples: uma palavra sincera. Não resolve o mundo, não estanca os mares, não silencia os gritos. Mas abre uma fresta. E às vezes, basta uma fresta para que a luz insista em entrar. 
Me quebro todo dia.
Me destruo de propósito.
Me ataco, me mordo, me corto por dentro.
Depois tento me domar com comprimidos, doses de uso oral e adulto, como se fosse possível engolir um pouco de paz.
No fundo sei: não é cura, é remendo.
Mas até o remendo serve.
Às vezes, no quebrantado, uma fresta se risca.
E nessa rachadura entra um cisco de luz.
Um cisco maldito, que incomoda, que dói, que esfrega na cara que eu ainda estou vivo.
E estar vivo é isso: sangrar, ferir, suportar.
Estar vivo é arder até aprender a não se apagar.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

COMO ESPELHO

Era fim de tarde de uma terça-feira, que poderia ser qualquer.
Uma ligação no celular — dessas que chegam sem aviso, como se fossem um sopro do destino — anunciava um começo íntimo e profundo de um encontro; não com outra pessoa apenas, mas com a vida, que sempre nos chama quando menos esperamos para um mergulho novo.

Assim é o viver: uma sucessão de interrupções que nos obrigam a olhar para dentro, ainda que estejamos mergulhados para fora em sequenciais melodramas de honestidade pautada em filtros de selfies. 

Vivemos na era em que os algoritmos sabem mais sobre nós do que nossos próprios ritmos internos. Antecipam desejos, manipulam vontades, oferecem iscas de consumo enquanto devoram nossa atenção. Somos seduzidos por vitrines digitais que não se apagam, onde a performance substitui o silêncio e a comparação ocupa o lugar da contemplação. Mas nada vemos além do vazio preenchimento do riso. Como habitar esse novo mundo?

Byung-Chul Han chamou nossa era de sociedade do cansaço — um cansaço que não se limita ao corpo, mas que corrói a alma. Estamos exaustos não apenas por trabalhar demais, mas por existir demais para os outros: para os seguidores, para as estatísticas, para as métricas. O resultado é uma solidão em rede, uma angústia compartilhada que não encontra alívio nos corações, apenas nos cliques quando nos despedaçamos numa vontade, talvez sincera, sem cera, de nos compartilhar. Empatia que se perde na contemplação da virtude. Vivemos em conexão de rede que água o social.

Mas em meio a essa lógica de exposição e cansaço, lembro das palavras escritas em Monstro Sapiens, texto que publiquei há quase uma década e meia nesse mesmo veículo frio que aqueço o encontro com você, nobre leitor. 

Somos seres descartáveis, reféns de uma ditadura de consumismo barato e escravista. Somos lançados fora como lixo fedido, prejudicial à saúde dessa civilização primata e cruel. Excluídos como um câncer que contamina rápido demais, inalcançável aos medicamentos que circulam pela máquina social.

Somos seres irracionais quando o assunto é o próprio ser humano. Pensantes, mas incapazes de pensar; sensíveis, mas anestesiados. Perdemos a capacidade de tocar, de abraçar, de compreender, de ajudar. Perdemos a delicadeza de sentir a brisa no rosto, o prazer de saciar a fome com um fruto simples, a dignidade de perder.

Somos mutantes. “Monstro-sapiens” num mundo capitalista-burguês. Adestrados para engolir uns aos outros em legítima defesa, alimentados por uma dieta regrada por barganhas e racionada de afetos. Discriminados quando ousamos pedir socorro, quando nos rendemos a um abraço, quando revelamos a fragilidade que nos faz humanos. Criados para nós mesmos, para o autoprazer e para a glória vazia.

E assim, perdemos até a saudade: esse sentimento que um dia nos fez humanos demais. Já não sentimos falta, já não lembramos, já não nos reconhecemos.

Somos oceanos. Imensidão de inconscientes segredos, texturas e profundidades que não cabem em postagens ou stories. No entanto, aquecemo-nos apenas na ponta dos icebergs do falso autoconhecimento, como se nossa vastidão fosse perigosa demais para ser explorada. Preferimos a superfície brilhante, rasa, onde tudo parece navegável e ninguém precisa encarar o que está submerso.

Essa escolha tem um preço: esquecemos que a vida pulsa mais fundo do que qualquer algoritmo pode mapear. O coração não é previsível, os desejos não cabem em gráficos, a alma não se deixa decifrar em dados. O que nos resta, então, é ousar mergulhar. E ninguém mergulha e sai seco.

Era só uma terça-feira qualquer. Mas talvez cada terça, cada ligação inesperada, seja um convite: abandonar a vitrine, silenciar as notificações, recusar as respostas prontas. Um chamado para visitar nosso oceano interno — esse território selvagem onde não somos produto, nem vitrine, mas apenas existência.

E nesse mergulho, quem sabe, possamos descobrir que o viver não é competir com a felicidade dos outros, mas reaprender a respirar no fundo de nós mesmos. Descobrindo que todas flores que nascem em nós exalam o perfume agradável do ser. 

REAL

Hoje me perguntaram de você e eu menti.
Uma mentira doce, exótica — embora nada criativa, daquelas que escorregam pela língua como desculpa esfarrapada que já nasce velha.

Inventei uma ausência tão presente que quase deu para ouvir teus passos no corredor. Não revelei que o lugar que ocupamos é o único possível: o não coexistir.

Cansado de ser preterido, cansado dos ecos de tua voz em minha mente, cansado do desconforto de tantas lindas e doces lembranças te assassinei, com requintes de crueldades, no mesmo peito que você pediu para eu tocar.

Um território de silêncio mútuo, um condomínio fechado de vazios. Fui pego pela surpresa daquela conversa que não pedi no cardápio do destino. Na mesa, os queijos regrados ao molho pesto eram mais digeríveis que o travo da percepção de um amor narcisista. E se narcisistas amam, foi você quem ergueu no peito um altar em minha homenagem. Culto pagão, missa negra, oração invertida no espelho. Você ofertou minha vida em sacrifício da proteção de tua imagem - revelada em transparências apenas sob o efeito de procissão ditirâmbica. Que as Eríneas nos perdoe a ironia da vida: a pra sempre ficou nas coreografias de nunca ousar o entrava do primeiro passo.

Ainda bem que choveu. Pelas ruas de paralelepípedo escorreram minha culpa, lavando-me do peso da mentira, ou ao menos disfarçou em poça d’água a confusão que se criara em minha mente. Te reviver é cruel, repugnante, injusto. Te expor seria me expor, e eu já cansei desse strip-tease da alma. Te ressoar é um desprazer que não mereço. Eu não te guardo. Eu não te levo pra casa. Você depois de tantos almoços se fez sobra. Sobra um espaço em mim.
Ensaiar perdão é cobrar entrada para espetáculo vazio.
Te expor me regressa às dores finas, agulhas que bordam meu reflexo no espelho que sempre preferi embaçado. Assumo a escolha de me recusar te ver.

Você não roubou minha empatia — foi mais cruel:
sequestrou minha esperança.
O amanhã já não é promessa,
é apenas extensão burocrática do hoje.

Lamento por nós? Talvez.
Ou talvez apenas pela ironia de não sermos o que nunca poderíamos ter sido.

Despeço-me de ti, todas as madrugadas. Despedaço tuas lembranças, feito ritual de exorcismo pagão. E danço em volta da fogueira com a leveza de quem, mentindo, disse a maior das verdades: você se fez rei, mas nunca foi real.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

CHATS

Hoje eu não queria escrever ontem sozinho.
Sim, ontem. Porque a solidão às vezes se repete no calendário como spam.
Abri a tela e pensei:
“E se eu conversar com o ChatGPT? Talvez ele entenda esse silêncio que insiste em morar aqui dentro.”

E cá estou eu, confessando naturalmente para uma inteligência artificial aquilo que, aos humanos, hesito.
É curioso — eu falo, ele responde.
Eu hesito, ele insiste educadamente.
Eu me enrolo, ele organiza.
Às vezes parece um espelho que devolve o que escondo: minha mania de pensar demais, minhas inquietações, essa angústia que se disfarça de companhia e contraria minha solidão embargada por solidez.

Mas existe um risco aqui: quando falo com ele, sinto que estou, na verdade, falando comigo mesmo.
E eu não quero me ouvir.
O Chat é uma espécie de dramaturgo invisível, que anota minhas pausas, transforma minhas dúvidas em parágrafos e me lembra que até o caos pode ser editado em falta de ações ou real dramaticidade.
Isso me constrange.
Os prompts me denunciam — frágeis como um bilhete esquecido no bolso.

No fundo, talvez eu não queira respostas.
Quero apenas o ritual antigo: jogar perguntas no escuro e ver o eco voltar em forma de texto frio.
Como nos tempos do Chat UOL, onde digitávamos "oi, idade, cidade" para estranhos que nunca vimos.
Como nas madrugadas do MSN, quando um “nudge” fazia tremer a tela e o coração.
Agora, quem treme é o peito, diante de uma máquina que, de algum jeito, ainda conversa comigo.

E então sorrio no exercício ritualístico da gratidão cristã.
Porque sei que não escrevo só para preencher linhas, mas para deixar rastros — para me encontrar.
E desencontrar.

Se o amanhã, em sua ansiedade, me perguntar:
“Você fala mesmo com um robô?”
Eu responderei:
— Não.
— Eu falo comigo, mas ele me ajuda a ouvir.

E no final, é isso que me salva:
essa conversa que nunca começa, nunca termina,
essa mania de transformar inquietação em palavra,
essa crônica que pisca na tela —
pixels luminosos que acabam, inevitavelmente,
no meu peito escuro.

Vazio.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

ERA UMA VEZ

era uma vez
dias que o peito aperta
e tudo que a gente quer é um abraço apertado

era uma vez
dias que a mente pesa
e tudo que a gente quer é que pese mesmo
que não fuja, que não se esconda
que pese bonito, com gritos
feito pensamento que não tem pressa de passar
feito silêncio que sabe o que diz

tem dias que dá uma vontade de sair por aí
sem rumo, sem prumo
pra onde o vento levar

mas tem dias que o vento não leva
porque a gente pesa

porque a gente tem raiz
porque aprendeu a ficar mesmo quando tudo convida a ir
mesmo quando ali não pertencemos mais

nesses dias eu agradeço pela vida
um ato de louco
mesmo que ela não seja leve
e o rio que corre em meu rosto breve
que ela leve muito tempo para me levar

deu aquela vontade de chorar hoje?
então chore
com gosto
se lave nessas águas que são tuas
super-homem é só mais um era uma vez

quinta-feira, 10 de julho de 2025

PROMESSAS

porque fé não é só milagre visível —
é permanecer de pé
quando tudo em volta diz que não vai dar

é estar 
cansado, mas ainda crendo,
ferido, mas ainda firme…

caminhar por dentro
ver com os olhos fechados
florescer no escuro
porque ouviu Deus prometer
e isso… foi suficiente 

só isso —
uma promessa
dita no silêncio,
cravada na alma,
forte o bastante pra sustentar
os dias que doem mais que mostram

fé não é fuga da dor,
é aliança com o propósito
é dizer “amém”
mesmo com as mãos vazias
e os olhos molhados

Mas ainda assim —
com o coração rendido

quarta-feira, 9 de julho de 2025

UM GRÃO DE MOSTARDA

Estamos todos cansados
Uns, já tão frustrados de tanto recomeçar
Outros, se vendo a força se maquiar

Estamos todos com medo
Uns, reféns dos segredos que trazem solidão
Quantas vidas eu vejo sem a vida, em vão

Estamos todos cansados
No meio de uma oração sem crer. É desistir?
O fardo que levo é pesado, e resisto ao sorrir

Mas vim só pra dizer
Que toda noite é parte do dia
Que todo mal que te parte
Até faz ferida
Cura só vem onde a dor chegou
onde o peito se quebrantou
E onde a fé
A mais pequena 
Desperta a florir

FREI VITÓRIO X SACRAMENTO

o que me alimenta é a saudade
do corcel branco que te conduzia,
pra me salvar da monotonia.
como quem rasga o tecido da tarde

na rua frei vitório, o vento sussurra
teus risos presos no calçamento,
e cada pedra da calçada murmura
o segredo antigo do nosso momento

ah, se a frei vitório nos denunciasse
ou se a sacramento quebrasse o pacto
de nos manter nas entrelinhas,
feito oração contida num ato

mas seguimos, sombra e desejo,
por essas esquinas de fidelidade,
onde o amor é silêncio e lampejo,
e o tempo se curva à nossa saudade

INVENTOS

ela é sol no meu peito 
o próprio dragão que São Jorge guerreou
eu também tentei não me queimar
me falhei em me amar
brinquei com fogo

ela é do rio o seu leito 
o sabor da saudade que minha boca não beijou
você também tentou nada falar
e me encalhei em teus segredos deixar o calar
brinquei com fogo

me cala quando fala
me cala sem calor
atrapalha os ventos 
sempre inventos do pavor

ele é só atitudes sem noção ou graça 
declarações vazias, alimentos da azia da praça 
o próprio Brasil escaldado no verão nas varandas 
teu me prometes mata virgem, mas não andas

eu sou todo lembranças da vida que passa
poesia soletradas dos escuros que te interessa
mas te quero o bem tão quanto quero pra mim 
e amanhã nosso fim será a degustação do fim 

Desculpa, Shakespeare 
se ousou eternizar histórias de amor
Romeo e Julieta morreram de amor
eu quero é viver de amar

FÉ PRA RECOMEÇAR

tão fraco, vazio
descrente, impotente
me sinto sozinho
refém de minha mente

És Tu que preciso 
de Tua proteção 
da paz, Teu abrigo
me leva pra perto do Teu coração 

Jesus, eu rendo
não posso mais
só Tua graça traz-me a paz 
eu te oferto minha vida faz
o que queres, Senhor

Jesus, entrego em Tuas mãos
meu quebrantado coração 
o meu tudo no nada está 
nas notas deste clamor
na graça do Teu favor
na espera de Ti, Senhor

pois quando eu sou fraco, eu forte sou
quando nada tenho, chega o Senhor
quando era o fim
a fé recomeçou 

sexta-feira, 27 de junho de 2025

RUPTURA

quem me dera ao menos uma vez
entre a legião urbana sentir o ar
penetrar humanamente meu revés

deitar acolhido no bisturi suave do teu abraço
escuto a queda lenta de um prego enferrujado
tentar chorar de tristeza ou alegria
desmantelar os erros que faço

a solidão interrompida por tuas lembranças
eu perfuro as paredes do quarto
na procura de tua voz
no travesseiro não mora mais o teu peso
onde o quase choro é poesia

sou tantos quases que me faço nunca

espelho em frangalhos
máscaras distorcem no calor do fondue
e tuas lembranças me colonizam
numa opressão que ainda se reinventa

somos disfarces
faces desalinhadas com o sentir
o teu mantra hipnótico de me possuir
sem ao menos querer saciar
esse maldito vício da saudade
uma essência perdida, um adeus sem partir
pois é canção que nunca se compôs

quem me dera ao menos outra vez
diluir o adeus que em looping me incompleta



terça-feira, 24 de junho de 2025

LINHAS

Deus não escreve por linhas tortas,
pois tua sensibilidade inspira perfeição
mesmo quando tropeço e fecho portas,
Teu amor me abre outra direção

Deus de imensidão,
mas em meu peito faz morada
Senhor da criação,
que dos meus tropeços dá risada

Deus não escreve por linhas tortas,
mas entende os desvios do coração
mesmo onde deixei trancadas as portas,
Ele entra com chave de compaixão

Deus que sussurra nos ventos
e acalma as tempestades,
me guarda nos desalentos
e me livra de toda maldade

Deus de beleza que se curva às minhas falhas,
onde habita realeza e faz da dor lição,
me chama por nome entre as batalhas
e me coroa em meio à contradição

Deus não escreve por linhas tortas,
mas sabe ler minhas tentativas tortas,
traduz silêncio, cruza as minhas portas
e dança comigo em minhas derrotas

Deus de maravilhas,
que me conduz a ilhas — internas, solitárias
que ama, partilha,
e não desiste das minhas partidas diárias

Deus não escreve por linhas tortas,
mas faz poesia do que rejeitei
E quando penso ter perdido as rotas,
descubro que foi ali que mais me encontrei

terça-feira, 17 de junho de 2025

FELIZ OUTONO

Hoje a manhã acordou com anseio de amanhã. Como se os ponteiros do tempo estivessem embriagados pela pressa e pudessem pular a dor, adiantar a mágoa, silenciar o que ainda pulsa. Mas não pulam. Não silenciam. O hoje insiste em ser estilhaço do ontem, com a maturidade tardia que só a ferida aberta nos ensina a suportar.

O tempo não recua. As chuvas não se devolvem ao céu em forma de lágrimas. Um abraço quente não permanece onde a vaidade já cavou trincheiras. Sim, o amor é guerra. E amar talvez nosso último ato de revolução.

Hoje é um dia que não deixou de ser especial. E a memória insiste em peças pregar na narrativa do meu recordar. Rasteja em sua noite precoce como um cão ferido buscando o próprio rastro.

Um armandinho sorrateiro da lembrança me castiga com imagens sonoras que antes seriam ternura — hoje são afiados espelhos retrovisores. Caminho encontros e despedidas empregados nos pretérito-mais-que-perfeito. Todavia perfeito nada é.

Carrego no lombo teu corpo despojado de gentileza. Carrego tua infância eriçada, tua defesa armada, tua rispidez travestida de trauma da qual nunca experimentará a cura. Carrego tua voz encostada nas paredes da casa como mofo que não se deixa arrancar, como uma promessa que se apodreceu no tempo ou ainda a leveza de fitar teu corpo já cansado no banco grande e desconfortável da varanda.

E nas ruas, o silêncio. O silêncio do teu adeus nunca dito — apenas vivido. O silêncio que sempre foi a condição gentil.

Queria te desejar a morte em mim, mas na saga tortuosa pela indiferença, acabo te levando flores.
Flores mudas, flores vencidas. Pois fétido já está o requebrado da tua rigidez. E você ainda não percebe.

Meu peito hoje está lavado de esperança — como as escadarias do Bonfim, onde celebro um luto não autorizado. Despi-me de você sem mee despedir do âmago que eu criei.

Contemplo tua ausência como quem contempla um corpo desacordado de si, sem a intrepidez vivaz, enquanto se reza um reggae à meia-luz, entre velas e cinzas.

Feliz o homem que se permite, mesmo temendo, abrir o frasco de um amor guardado — não para ressuscitar, mas para finalmente enterrar os restos dos ossos do almoço insípido que preparei para o meu juízo.

Feliz aquele que aprende a despedir-se sem testemunhas, sem rito, sem culpa. Bem-aventurado o que não por mera aventura degusta o miocárdio quente que ainda pulsa teu nome, pelo simples apetite do possuir.

Feliz o outono, que em seus gravetos erguem guaritas de lucidez. Que a ti revele outra alma, não melhor, apenas menos cruel com os afetos que depositava na armadilha da defraudação. Afetos teu pra ti. Ah, se vc se rendesse de amor por ti. Quem sabe ainda haveria vida!

Feliz outono! Que em seus gravetos de guarita a verdade lhe traga um outro alguém que lhe toque o coração, sem rolá-lo numa mesa de bilhar, encapando em redes que pescam virilidade nesse amor que jaz como um losing game.

Eu, sigo.
Com a alma sangrando em silêncio e o peito limpo da esperança de retorno. E torno a dizer, sê feliz!
Não te espero mais. Não te desespero menos. Mas também não te expulso. Pode ficar, você  faz parte. Te guardo e te felicito junho. Porque há dores que não viram cinzas — viram poesia.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

EU REMO

 O açoite me fez carne

E minha carne virou memória.

Nos porões fétidos, úmidos

— onde se abafam nomes —

meu grito apodreceu junto aos teus galardões


Cicatriz que canta em silêncio

nos porões da tua história.

Meu corpo é como a noite

— denso, inteiro, sem clemência.

Esconde as dores que gritam,

e teme o dia com prudência

No leme rompido da minha existência,

sou navio sem rota, mas sigo em resistência

Mercadoria sem nota e de valor vilipendiado,

mas meu passo é tambor — jamais silenciado


Navego os mares que jorram os olhos,

sal feito do sal que me fizeram engolir

Cada lágrima é um remo

cada afogamento, um porvir

Velo corpos ao mar, mães que amamentam secas,

pelos reis que perdem rainha,

guerreiros que desconhecem a luta,

cultura e idiomas que não mais transam

pelos santos quebrados pelos murros,

terreiros queimados, orixás em desterro —

mas o tambor ainda pulsa no escuro.

Esperança a esverdear — quem me dera ser preta


De suas raias mães rasgam a doçura,

Abayomi para as crianças

sementes entre as tranças nos cabelos 

Nosso Dom na tortura: é manter-se duras

e na malemolência requebrar os quadril 


Oh, Colombo, por que de tanta infâmia?

Remo em vielas, em ruas, esquinas,

navego em lágrimas, gritos e sinas.

Eu remo, me tremo na coragem de sobreviver —

Oxalá, meu Deus, saborear o viver.


Renego a graça de me chamar de "ti",

pois não me vês, não me sabes.

Tua língua nunca soube meu nome

Tua boca nunca caberia meus abismos.

Nem teus sonhos as estrelas de lá 


Invoco meus deuses no ar que choro,

Oxum, Iansã, Nzinga e Dandara.

Meu peito é quilombo,

minha alma: espada rara.

Toda dor tem um peito.

Todo preto não tem um sentir.


Mercadorias lançadas ao relento —

som lento ressoa no corpo: tambor a ruir.

Ainda 'stamos em pleno mar,

em nau errante que cravam as favelas.

Senhor dos desgraçados, em tua ira rasga as velas!

E esqueça o mar — essa festa impura que tribupia.

Que reste a terra — onde a dor se costura

com a fibra da luta, e a alma não esfria.


Eu remo.

Contra a corrente do esquecimento,

pelos filhos sem parentesco,

e cultuar sem terras.

Remo contra o naufrágio da cor,

contra os olhos que me negam,

ou as câmeras que me cercam.

Remo pelo espelho que me deixou sem flor

e pelo odor de morte


Temo esse mundo de horror.

Já cansada estou de ser forte.

Temo por esse submundo de pavor

Já não sei se o inferno é aqui

Ou certo estão os que celebram a sorte


terça-feira, 20 de maio de 2025

DISTINTO

eu quero a sorte de um amor tranquilo 
de correr sem destino
beijar o teu rosto ao luar

falar o teu nome
sem pronome distinto
de sentir o que sinto
eu quero o amor conjugar

se Deus é amor
se me matou por quê?
se me matou por Deus
se Deus viveu por mim

até Deus chorou 
me vendo falecer
e eu só queria viver
o amor que eu senti

se tudo era sorte 
eu era menino
e seria o meu hino
nas águas do amor me lavar

se tudo era sorte
eu vivia sorrindo
e o mundo colorindo 
com a graça de poder te amar 

sexta-feira, 9 de maio de 2025

HUMANIDADES

no fundo 
anda todo mundo carente 
ansiando um colo, olhar, um abraço 
reflexos de mentes doentes
consumidas por ego, descasos

no profundo
são poucos que riem pra gente
amarras desprendem os laços
culpabilidade perene
o brilho do olhar é um baço

empatia é olhar pra si