sexta-feira, 23 de outubro de 2026

DOIS DE DEZ

Hoje vesti minhas melhores máscaras sociais. Saí da cama, escovei os dentes, almocei, jantei. Cumpri o protocolo mínimo da sobrevivência. De zero a dez, fui dois. E o mais irônico é que minha vontade de dar certo era mil.

Há dias em que somos funcionários exemplares da própria sobrevivência: sorrimos, respondemos, comparecemos. Por dentro, um departamento inteiro de afetos está em greve. Mas o mundo não gira em torno do nosso umbigo. Nem mesmo quando tudo em nós implora por uma pausa na órbita.

Eu tento porque ainda acredito no caminho. Mas parar também é verbo, também é movimento. Às vezes, tudo o que temos a oferecer ao dia é a nossa falta de produtividade. E talvez seja muito.

Hoje vivi o sobrenatural de Deus na banalidade de sobreviver a mais um dia. Venci medos, atravessei a falta de coragem. Não movi montanhas. Corte o Gamba. Apenas fui. E, para quem conhece o peso de certas manhãs, esse pequeno verbo tem a dimensão de um milagre.

O dia terminou com alguém que não conhece nem um terço da minha história, mas soube tocar justamente onde eu precisava. Não pediu explicações, não tentou consertar minhas dores. Apenas me ofereceu afeto. Às vezes, quem mal conhece nossos capítulos lê uma linha nossa com delicadeza.

Então vieram três palavras: Jesus loves you. See ya. (Jesus te ama. Até mais.) Talvez Deus não precise abrir os céus para se fazer presente. Às vezes, usa a boca de alguém para nos lembrar de que ainda existe ternura neste mundo.

Hoje fui dois de dez. Amanhã, não sei. Há dias em que vencer é apenas não abandonar a si mesmo. Se me perguntarem o que fiz de extraordinário, direi: nada. Apenas estive aqui. Humano naquilo que não pude, inteiro naquilo que consegui. E, por hoje, isso basta. Talvez reside aí,  graça de Deus!


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