Há dias em que os segundos parecem fiscais da nossa existência. Cobram produtividade, pontualidade, superação. Querem que a gente seja perfeito até no cansaço, eficiente até na exaustão. E lá vamos nós, performando a coreografia dos dias, fingindo que o corpo acompanha a pressa da vida.
Hoje, eu, que costumo oferecer ao outro uma escuta quase sacerdotal, entre o sagrado e o profano, me deparei com uma frase que ficou ecoando em mim. Uma senhora me disse: “Pedimos que Deus nos dê a mão diante das adversidades, mas poucas vezes pedimos que Ele toque o nosso coração.” Talvez seja isso. Ter um coração parecido com o dEle. Capaz de sentir o pulsar de cada ser humano sem se corromper. De perdoar até as afrontas disfarçadas de superioridade, aquelas que sussurram, sem dizer: sou melhor que você.
Tenho sentido saudades. Muitas. Inclusive de um eu que nunca fui. É estranho sentir falta de alguém que ainda não nasceu dentro da gente. Talvez eu esteja à procura desse homem para, finalmente, ser inteiro meu. E quem sabe repartir um pedaço, ou tudo, com alguém. Afinal, sou taurino. Também gosto de permanências, de afeto com endereço, de gente que não tenha medo de ficar.
Chego em casa e a solidão me recebe sem perguntar como foi meu dia. Já vai tomando conta do sofá de dois lugares, folgada, espaçosa, querendo invadir o meu lado. Assiste à minha série, escuta meu podcast e, quando percebo, já está se oferecendo para deitar na minha cama. Não paga aluguel, não lava a louça, não vai embora. Uma inquilina inconveniente, dessas que chegam sem convite e ainda reclamam da mobília.
Mas talvez o problema não seja a presença dela. Talvez seja o que faço com a minha própria presença quando ninguém mais está por perto. Porque posso passar o dia inteiro acolhendo urgências, escutando histórias, respondendo às expectativas do mundo e, ainda assim, chegar em casa sem saber ouvir o que grita dentro de mim.
E então penso: se sou uma morada, por que tantas vezes pareço viver do lado de fora? Talvez eu não precise encontrar o homem que nunca fui, mas dar a ele espaço para existir. Sem a obrigação de ser extraordinário, sem a pressa de me superar, sem a necessidade de provar que dou conta de tudo.
Afinal, se sou uma morada, eu posso habito em mim. E talvez esteja na hora de parar de ser visita na minha própria casa e me assentar no banco se madeira na varanda, passar um chá e ler um delicioso livro entre os sabores do incenso e Djavan. E quem sabe esperar você chegar, pois como diz o poeta: ninguém é amar sozinho.
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