Eu nunca contei isso desse jeito.
Porque, quando alguma coisa atravessa a nossa vida, a gente tenta dar um nome. Como se nomear fosse uma maneira de controlar o que aconteceu.
Naquele dia, alguma coisa em mim mudou de lugar.
E o mais estranho é que, por fora, a vida continuou. Eu acordava, trabalhava, conversava, ri até.
Mas eu sabia que alguma coisa não voltaria a ser como antes.
Durante muito tempo, achei que precisava superar.
Hoje, não sei se acredito nisso.
Talvez algumas coisas não precisem ser superadas. Precisem ser habitadas.
Porque, às vezes, continuar não é vencer.
É colocar sobre os ombros aquilo que ainda está pesado, mesmo quando eles já estão gastos e feridos.
E caminhar.
Não porque deixou de doer.
Mas porque a vida ainda está ali.
Talvez habitar seja isso: não esperar ficar inteiro para continuar. Pode ser que eu não continue. Pode ser que nunca fique inteiro ou nasça outra parte em mim e eu a desconheça.
Não vou sair hoje. Não estou legal. Melhor ficar em casa.