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terça-feira, 2 de setembro de 2025

COMO ESPELHO

Era fim de tarde de uma terça-feira, que poderia ser qualquer.
Uma ligação no celular — dessas que chegam sem aviso, como se fossem um sopro do destino — anunciava um começo íntimo e profundo de um encontro; não com outra pessoa apenas, mas com a vida, que sempre nos chama quando menos esperamos para um mergulho novo.

Assim é o viver: uma sucessão de interrupções que nos obrigam a olhar para dentro, ainda que estejamos mergulhados para fora em sequenciais melodramas de honestidade pautada em filtros de selfies. 

Vivemos na era em que os algoritmos sabem mais sobre nós do que nossos próprios ritmos internos. Antecipam desejos, manipulam vontades, oferecem iscas de consumo enquanto devoram nossa atenção. Somos seduzidos por vitrines digitais que não se apagam, onde a performance substitui o silêncio e a comparação ocupa o lugar da contemplação. Mas nada vemos além do vazio preenchimento do riso. Como habitar esse novo mundo?

Byung-Chul Han chamou nossa era de sociedade do cansaço — um cansaço que não se limita ao corpo, mas que corrói a alma. Estamos exaustos não apenas por trabalhar demais, mas por existir demais para os outros: para os seguidores, para as estatísticas, para as métricas. O resultado é uma solidão em rede, uma angústia compartilhada que não encontra alívio nos corações, apenas nos cliques quando nos despedaçamos numa vontade, talvez sincera, sem cera, de nos compartilhar. Empatia que se perde na contemplação da virtude. Vivemos em conexão de rede que água o social.

Mas em meio a essa lógica de exposição e cansaço, lembro das palavras escritas em Monstro Sapiens, texto que publiquei há quase uma década e meia nesse mesmo veículo frio que aqueço o encontro com você, nobre leitor. 

Somos seres descartáveis, reféns de uma ditadura de consumismo barato e escravista. Somos lançados fora como lixo fedido, prejudicial à saúde dessa civilização primata e cruel. Excluídos como um câncer que contamina rápido demais, inalcançável aos medicamentos que circulam pela máquina social.

Somos seres irracionais quando o assunto é o próprio ser humano. Pensantes, mas incapazes de pensar; sensíveis, mas anestesiados. Perdemos a capacidade de tocar, de abraçar, de compreender, de ajudar. Perdemos a delicadeza de sentir a brisa no rosto, o prazer de saciar a fome com um fruto simples, a dignidade de perder.

Somos mutantes. “Monstro-sapiens” num mundo capitalista-burguês. Adestrados para engolir uns aos outros em legítima defesa, alimentados por uma dieta regrada por barganhas e racionada de afetos. Discriminados quando ousamos pedir socorro, quando nos rendemos a um abraço, quando revelamos a fragilidade que nos faz humanos. Criados para nós mesmos, para o autoprazer e para a glória vazia.

E assim, perdemos até a saudade: esse sentimento que um dia nos fez humanos demais. Já não sentimos falta, já não lembramos, já não nos reconhecemos.

Somos oceanos. Imensidão de inconscientes segredos, texturas e profundidades que não cabem em postagens ou stories. No entanto, aquecemo-nos apenas na ponta dos icebergs do falso autoconhecimento, como se nossa vastidão fosse perigosa demais para ser explorada. Preferimos a superfície brilhante, rasa, onde tudo parece navegável e ninguém precisa encarar o que está submerso.

Essa escolha tem um preço: esquecemos que a vida pulsa mais fundo do que qualquer algoritmo pode mapear. O coração não é previsível, os desejos não cabem em gráficos, a alma não se deixa decifrar em dados. O que nos resta, então, é ousar mergulhar. E ninguém mergulha e sai seco.

Era só uma terça-feira qualquer. Mas talvez cada terça, cada ligação inesperada, seja um convite: abandonar a vitrine, silenciar as notificações, recusar as respostas prontas. Um chamado para visitar nosso oceano interno — esse território selvagem onde não somos produto, nem vitrine, mas apenas existência.

E nesse mergulho, quem sabe, possamos descobrir que o viver não é competir com a felicidade dos outros, mas reaprender a respirar no fundo de nós mesmos. Descobrindo que todas flores que nascem em nós exalam o perfume agradável do ser. 

sábado, 10 de novembro de 2012

Dias chuvosos me inspiram

DJ Allan Mesquita
Hoje o meu-nosso blog tem uma ilustre participação... Amigo, irmão, Dj e agora apaixonado por poesias, Allan Mesquita. Diretamente de Macaé para o nosso INsano Mundo.
A participação do Allan no blog se deu à partir do que chamo de Roubo INsano, onde capturo frases e trechos originais de amigos em redes sociais e então esboço um continuidade no mesmo esquema INsano que caracteriza o nosso mundo aqui. Vale muito à pena conferir. Uma mistura de meus pensamentos em fluxo livre com a mente criativa e sensível deste meu grande irmão. 
Outra contribuição neste post é da bela e polêmica Tay Barcelos, que já passeou por aqui em outras postagens e agora me inspira em alguns pensamentos e do mestre que dita a trilha sonora desta tarde de sábado chuvosa, diretamente de São Fidélis, o Toninho Brandão. Super bom gosto, né GaGatona, Laisa Muniz? >>> Hacker!
Sem mais demora, vamos direto ao papo, ou melhor, ao texto... Se joguem, INsanos e INsanas!!!


Dias chuvosos me inspiram

Não vejo mais aquela beleza em teu olhar. As sombras dos cílios cerrados de São Pedro, escondem de mim o brilho e o calor dos sóis de tua pele. Corpo outrora coberto por minhas mãos famintas e intrometidas. A cada dia que passa, passam as nuances das lembranças de teu cheiro em meu cavanhaque. Sinto você mais longe e mais distante. Na verdade, não te sinto. E ressentir o não sentir do sentimento que em mim pressente abandono me aniquila curvaturas das maças do rosto. Hoje vai chover, e o meu jardim, o mesmo que foi o nosso, não deixará de ficar seco em caatingas.
Não vejo mais você salpicar estrelas em meu céu. Tua despedida, que nem aconteceu oficialmente, estabelece constante inverno em meus dias. Do Rio à São Fidélis.
Não era para comemorarmos primaveras? 
Chego à conclusão de que você está saindo gradativamente de mim, diferente de partos que sentenciam vida. Mesmo seguido de dores e choros. Foges de mim feito menino em embriaguez por vinho, vodcas e tequilas. E o meu corpo racionalmente te vomita. Rejeita. Mas o meu coração ainda te prende em vísceras. Quem ficará em teu lugar? O meu câncer afetivo? Ou minha cólera emocional? Onde estará o meu amor?
Oh, chuva que cai, não silencia o seu grito! Molhe-a e com tuas lágrimas esculpes a silhueta de seu corpo para que possamos dançar em tuas águas. Deixe o rio fluir outra vez e outra vez mais eu fruir de sensações de pequenas mortes. Desenha novamente a face dela pra mim. Irriga-me outra vez e então chorarei para que tuas reservas possam ser reabastecidas, simplesmente para que possa voltar a chover e tocar o corpo de teu amor. Eu sei que também ama, chuva.
E a chuva silenciou. Deixou de me ouvir e desaprendeu a produzir som. Em dias de chuva costumo de inspirar de solidão. O restos são apenas lembranças de dias de felicidades, fogo que se apagou na chuva. Lembranças boas de um dia qualquer. Lembranças de quando o sol veio e o frio da solidão se foi.
Por que hoje só chove? Chove e as muitas lágrimas que correm do céu encharcam e intimidam nas laringes de deus os algodões doce que ele costumava soprar nos dias em que você vinha... pra mim.
Chove e minha mente se perde dentro de tudo aquilo que o meu corpo desmente.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A saudade tem saudades também, Laisa


Vc tem vontade de conversar o dia todo, pq não pode estar com a pessoa! Mas se pudesse escolher...
 estando ou nao estando com a pessoa sinto-a pessoalmente aqui........... =/

Três, dois, um
Avanço os ponteiros do relógio ao contrário
Só pra contrariar a deselegância do tempo
Rio dos oceanos que ele enxarca em nossas despedidas
E despeço de minha paz
Que me despedaça como porcelana que beija o chão
E multiplica os traços da memória
Em cacos que aos dedos ferem e sangram 
Conto de trás pra frente outra vez
E acelero os batimentos desta máquina que em meu pulso pulsa você
Mas o tempo me distrai e ganha tempo para tua malícia produzir
O que se tem é a vontade de um dia todo paralisado
De conversas soltas e olhares presos no paradoxo da liberdade
Se pudesse escolher conversaria com a saudade
E educadamente a convidaria ao amor
A libertaria de nós dois
Mas a saudades tem saudades também
E o tempo não tem tempo para a ensinar o depois

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Unfollow

Eu precisei desenhar pra mim as profundidades das rasuras que teu unfollow me assinou. Todavia eu não chorei, embora sentia que minhas pupilas estavam ilhadas, como cidadelas neste verão de janeiro. Mas o verão não mais aquecia teu nome, nem me chamava para o teu mar calmo e belo. Este verão inundava minhas saudades, num banho de água fria e seca.
Era muito mais que um jogo social, foi de minha casa aberta e meu mundo transparente que fantasiei nossa realidade virtual, como num cartaz de uma peça qualquer. Eu senti a confirmação desta exclusão sangrar uma dor estranha em mim, mas eram de risos que eu respondia. Eu confiei em você, e só agora vi que me permitir de fato ser eu e entregue. Vulnerabilizado pela simplicidade que tua idade me comunicava.
Meu Deus, como podemos ser tão imundos simplesmente por amar?
Talvez fosse pelo erro de amar quem de mim não era próprio, mas apenas um produto que me vendia sensibilidades e talento. Eu me envolvi no esquecimento de que onde se ganha o pão, não se come o beijo. Errei por dedicar a minha ingenuidade e beleza.
Caramba, como me sinto pequeno e inválido agora. Como me sinto um nada. Como me sinto sem cinto, sem segurança ao encontro do colapso de tuas mãos que assinaram disfarçadamente o delete.