segunda-feira, 6 de julho de 2026

PEDRA

O menino que virou pedra

Há dias em que me sinto profundamente acompanhado.

Os abraços chegam. As palavras aquecem. As pessoas se demoram em mim com uma generosidade que eu reconheço, admiro e agradeço. Ainda assim, quando a porta se fecha e o silêncio toma conta da casa, descubro que existe um mundo muito maior do que aquele onde todos conseguem entrar.

É um mundo só meu.

E, curiosamente, nele cabem todas essas pessoas que amo. Elas estão lá. Habitam minhas memórias, meus afetos, minhas gratidões. Mas, por alguma razão que ainda não sei explicar, continuo sendo o único morador.

A solidão não grita. Ela sussurra.

É uma dor aguda, fina, constante. Dói por existir. Dói porque, mesmo cercado de acolhimento, às vezes me sinto incapaz de acreditar que ele seja suficiente. Então me culpo. Penso que talvez exista em mim uma fome antiga, dessas que não se alimentam com o pão do presente porque continuam presas à escassez do passado.

Talvez eu ainda não tenha sobrevivido completamente às minhas antigas dores.

E, para que ninguém perceba, eu performo. Sorrio. Converso. Abraço de volta. Faço graça. Pareço inteiro. Mas toda performance cobra um preço. Volto para casa esgotado, abusado de mim mesmo, destruído pela exaustão de sustentar um personagem que, no fundo, só queria pedir colo.

Tenho um choro maior que o Paraíba do Sul quando atravessa São Fidélis. Um rio inteiro represado atrás dos olhos.

Às vezes também carrego pedras no peito, mais brutas que a Serra do Sapateiro. Rochas que não nasceram comigo, mas que aprendi a carregar como se fossem parte do meu corpo.

E, ainda assim, há beleza.

Há uma delicadeza em mim que floresce como a Bela Joana. Há poesias que insistem em nascer, mesmo quando tudo parece árido. Há ternuras que sobrevivem às rachaduras. Há uma esperança teimosa que continua acendendo pequenas luzes dentro de um coração cansado.

Talvez seja por isso que eu me reconheça tanto no Itacolomi.

Dizem que é um menino transformado em pedra. Às vezes penso que também me tornei isso: alguém que endureceu para não quebrar, alguém que aprendeu a permanecer imóvel porque o movimento parecia perigoso.

Mas, hoje, o que mais desejo não é continuar resistindo.

É voltar a fluir.

Quero reencontrar o menino antes da pedra. Antes dos medos. Antes das ausências. Antes de acreditar que precisava suportar tudo sozinho.

Talvez a verdadeira coragem não esteja em permanecer firme como uma montanha.

Talvez esteja em permitir que o rio, enfim, encontre passagem por dentro de nós.

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