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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Em meio tom

É breve
Tão leve como a maré 
Disfarça entre as vogais
Suas mãos de veludo 
E desbota as cores dos lençóis 
É o riso no luto
Melancólica sinfonia 
Agressões escondidas entre notas
Foram desafinados desatinos
Gritos agudos calados
E que calejou 

É breve
Tanto deve quanto o ré
Disfarça entre os cais
Suas mãos de intruso
E sabota as dores dos bemóis 
É o friso do reduto
Melancólica companhia 
Agressões reveladas entre cotas
Foram mal finados destinos
Gritos graves falados
E que falhou


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Senti Mentos na boca

Nos vultos de seu olhar
Eu via as lembranças de minha vó esculpida
Entre íris e pupilas salientava pra mim
Que
Todo amor estava fadado a mentir
Por isso me beijou com gosto de Mentos
E eu acreditei
As erupções que salientaram em minha língua
Tatearam o céu
De minha boca
E ela me traiu revelando 
O que eu mesma
Velando o corpo do falecido negava
Eu caí em amor
Vi estrelas em outro céu
Essas estrelinhas não me pontuavam o saber
Eu ainda não sabia jogar o amar
E amamos na primeira pessoa do singular
Pluralidades era o que produzia
Minhas canções
Minhas intenções e tensões cor-de-rosa
As deles
Cor-de-burro quando foge
Todos os homens me lembrariam o falecido
Todo amor estava fadado a mentir
E eu estava remodulando contos de fadas
Sem um conto de réis para pagar pelo meu coração
Penhorei minhas palhaçadas
E fiz de palhaça minha feição
Perdi minha própria casa
A casa própria ao acasalar com paixão de inquilino
Meu ventre
Livre
Eu ventríloquo, falaram por mim
Talvez o próprio coração 
Em desapropriação de si
Aprendi quebrar o nariz do Pinóquio
Administrei a academia de negar
Inventar
Em ventar os sentimentos
Senti Mentos na boca
Soprei e o vento não 
Soprou de volta
Dei a volta
Meia volta
Ventilei antigos medos
E gostos
Desgostos
Esgotos
E no goto prendi e aprendi amar

domingo, 6 de novembro de 2011

História Insana: Em meu peito. Em meu túmulo.

Eu escrevo isso numa língua que sei que você não sabe ler. Escrevo numa língua que domino. Escrevo assim porque sei que também que você nunca irá ler isto. Escrevo porque sinto que você não vai mais voltar. Escrevo porque nos perdemos. Por que te perdi. Por que você se perdeu de mim. Não sei mais onde você está no mundo. Te procuro, com vergonha, e não te acho. Dou meu jeito para que você saiba de mim. Mas eu não sei de você. Não era assim que eu sentia antes. Será que sempre foi assim e eu não vi? Será que minhas prioridades mudaram na vida? Eu te amo. Eu amo aquela pessoa que eu conheci e que perdi. Eu amo quem eu voltei a ver e não tive. Eu amo e por isto não insisti para que você permanecesse aqui, em mim. Não sei se voltarei, a vê-lo, não importa agora. Não tenho mais esperança nisto, corro longe de te encontrar. Corro para onde acho que você não está. Tenho tanto medo do que vou sentir se te ver de novo . Tenho medo de te encontrar com outra pessoa, outro amor, outro eu e então ter que em mim admitir que você ainda é em mim você. O tempo passa, a vida anda, mas o coração anda mais lento que o mundo que o cerca em multidões vazias. O coração é analógico, ancestral e gosta de reviver os momentos de épocas de ouro sentimentais. É um distúrbio dessincronizado em mim. No meu corpo já tem tempo que não te tenho, pode ser que o meu coração seja vencido por ele. Pode ser que o meu coração se descompasse e se atrapalhe em seu ritmo natural e só cante teu nome em afinações chorosas. Mas ainda não. Não consigo deixar ser tocada. Ainda dói. O toque, qualquer toque, qualquer suspiro profundo ou olhar impetuoso faz o meu coração chorar. Ah, na verdade, já nem choro. As lágrimas secaram em minha dor que brota como manancial de oceanos vivos. Eu choro com dor fina e contínua, é falta de você. Fina e aguda, que está se acabando. Eu sei disso. Sei que logo vou te esquecer no corpo e relembrar em lapsos no coração. A dor de não te ter será substituída por lembranças e só. Só. Não quero as dores do desejo de sair de casa à procura de teu cheiro e voltar cabisbaixa e queixo enterrado no peito. Quero você, enterrado em mim e te procurar em minhas dores que relembram cores. Sairei de mim mesma e em meu peito depositarei flores pra você.