sexta-feira, 11 de setembro de 2026

SETE DIAS

sob o sussurro do ventilador

a calça preta

pendurada no cabide

seca das águas que caem lá fora


aqui dentro

também chove

e mesmo seco

eu me encharco

de mim


terça-feira, 1 de setembro de 2026

VOCÊ QUE MENTIU

dizem que passo vergonha
por ainda te manter em minha vida 
em minha fronha os resquícios do prazer 

mas por que contar mentiras?
deixe o tempo me curar da armadilha
e numa ilha só nós dois abandonar 

tanta coisa pra dizer
que nunca dita foi do amor
já corri para esconder-me
já sorri em sabor da dor

tanta gente pra dizer 
que auto amor é bloquear 
não quero você preso em mim 
amaria se voltar

dizem que passo vergonha 
nossas línguas se falarem
junto à minha feito concha de um abraço habitar 

mas pra quem conta mentiras
"eu te amo" é só dizer
tudo em mim é só feridas
o teu bem é mal fazer

se talvez você me buscar
num Fusca branco e cantar
talvez eu me desarmo
se Armandinho cantando uma de amar

se Analua for, desarmado me vou
sabe em sonho te encontrar, viu?

eu te amo, 
você sabe, entender
você nunca viu

eu chamo 
cê cabe, se sente
Você que mentiu


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

TRIZ

estou escolhendo ser feliz
já toquei a cicatriz da despedida 
olho o tanto que te quis
o que eu fiz
eu me dei
e hoje tenho alma partida

parte te quer, deseja, te sonha, depente de ti
parte não quer, rejeita, que pensa e te odeia
parte carente, doente, que é crente, confia em ti
parte sem gente, sem pão, que é feliz
e há quem creia

abraços gelados nem São Jorge esquentou
eu sempre de lado ou catando os rastros
palavras ao vento, coração no liquidificador 
você é momento e eu jurando o eterno

estou escolhendo ser feliz 
estou escolhendo, por um triz 
ser inteiro

domingo, 30 de agosto de 2026

OLHOS OBLÍQUOS

é bom estar contigo 
é mistura de idiomas
é ressoar de ondas
solito
nós 

I don't know your name
but call you by a dream
feelings, songs, insane
boca, olhos, schemes

é bom estar contigo
é fluir de Oxúm
permanecer amigo
te ver nu
a sós 

tus ojos cerrados me abrem
tu boca roja convida
distância de amém 
que os anjos celebram

é bom despir teu peito
desabotoar tua paz 
te acolher no leito
sussurrar nós em ais

é bom te escrever
melhor te ler em braile

terça-feira, 25 de agosto de 2026

MELHOR FICAR EM CASA

Eu nunca contei isso desse jeito.
Porque, quando alguma coisa atravessa a nossa vida, a gente tenta dar um nome. Como se nomear fosse uma maneira de controlar o que aconteceu.
Naquele dia, alguma coisa em mim mudou de lugar.
E o mais estranho é que, por fora, a vida continuou. Eu acordava, trabalhava, conversava, ri até.
Mas eu sabia que alguma coisa não voltaria a ser como antes.
Durante muito tempo, achei que precisava superar.
Hoje, não sei se acredito nisso.
Talvez algumas coisas não precisem ser superadas. Precisem ser habitadas.
Porque, às vezes, continuar não é vencer.
É colocar sobre os ombros aquilo que ainda está pesado, mesmo quando eles já estão gastos e feridos.
E caminhar.
Não porque deixou de doer.
Mas porque a vida ainda está ali.
Talvez habitar seja isso: não esperar ficar inteiro para continuar. Pode ser que eu não continue. Pode ser que nunca fique inteiro ou nasça outra parte em mim e eu a desconheça.

Não vou sair hoje. Não estou legal. Melhor ficar em casa.

ALL TÁ

achei que era pra sempre 
o sempre se acaba logo de manhã 
eu te colori, pele, aquarela
em tua boca sabor de romã 

nem todo amor é todo dia
nem todo dia é amar
quem jura o mar 
o choro vibra
há quem se diverte em magoar

em todo ego há uma criança 
que nunca se deu em partilhar
colecionando dor na esperança
do umbigo vazio ser reinar

dance comigo uma vez só 
transe comigo teu olhar 
dá vida à saudade em pôr de sol

quem jura que nunca foi abandonado no altar?
tá todo mundo infeliz com esse tal de amar 

domingo, 26 de julho de 2026

INSÍPIDA

eu sem ti
soou um mar sem sal 
sem cor
sou saudades

sem sentir
teu olhar farol
solidão me invade

hoje no Leblon o mar estava cinza
do Arpoador o sol não mais fascina
percorri Santa toda e não tinha Glória 
me aterrei em Bota 
em Copa tua memória 

a coisa mais linda não me tinha graça 
tanta beleza no rio onde tu não passa 
eu que sempre rio desenhando arcos
na chuva dancei atropelando carros

quem sabe o Cristo abraça -me
e no Jardim eu encontra-te
quem me dera ter o Redentor 
minha apresse a prece do amor

eu senti que sou um mar sem sal
de cor sou saudades

quinta-feira, 23 de julho de 2026

AR

 nem parado
nem voando
sem arado

sem amando
seguindo o vento
lento
embora nas vielas das veias
o tráfego agita o parar

é sem ar mesmo
ao esmo de neblina

é continuar

terça-feira, 14 de julho de 2026

HOJE

às vezes as desdenha

não provêm do interesse de não querer comprar 

mas dá disponibilidade que ofertamos

por carência, anseio,

preciso esperar o amor chegar 


e se amor ainda não habita em mim

toda jura é projeção do vazio

ou da vaidade

que a gente teima cultivar

pelo medo só silêncio do quarto,

da cama fria e vazia, 

dos ecos secos nas paredes do quarto 


amor é ser inteiro, entregue 

o amor é pra ser escuta e zelo

O amor é quando fogem as palavras 

e o abraço é habitar


e o que estrutura ,

não se engane,

nessa negadas curas

o amor é infame


rem todo amor é eterno

mas nenhum amor deveria nossa 

essência raptar


o que você perdeu amanhã por amar hoje?


terça-feira, 7 de julho de 2026

Corrida de corres

hoje meu vício é a corrida
corro para esgotar os corres
me esquecer dos rios que jorram dos cortes
eu rio feito nobre pra esconder o frio
tua presença me ausenta a paz

hoje de manhã as assombrações amarraram o sol
o vulto das lembranças sangrou o afã
todo percurso era curso de ofegância
hoje de manhã era raios fúnebres de ontem

quanto tempo leva pra a insensibilidade pousar?
quanto tempo leva para Sísifo coreografar sua repetição 
minha pernas já estão falhas dessa castigo, deuses
cansado estou de rodopiar no eixo de mim

e eu ainda corro, desesperadamente corro
corpos com tantas outros esperos cruzam comigo
todo mundo de todo passo firme é de urgências 
tão crentes quanto o negar a deus



segunda-feira, 6 de julho de 2026

PEDRA

O menino que virou pedra

Há dias em que me sinto profundamente acompanhado.

Os abraços chegam. As palavras aquecem. As pessoas se demoram em mim com uma generosidade que eu reconheço, admiro e agradeço. Ainda assim, quando a porta se fecha e o silêncio toma conta da casa, descubro que existe um mundo muito maior do que aquele onde todos conseguem entrar.

É um mundo só meu.

E, curiosamente, nele cabem todas essas pessoas que amo. Elas estão lá. Habitam minhas memórias, meus afetos, minhas gratidões. Mas, por alguma razão que ainda não sei explicar, continuo sendo o único morador.

A solidão não grita. Ela sussurra.

É uma dor aguda, fina, constante. Dói por existir. Dói porque, mesmo cercado de acolhimento, às vezes me sinto incapaz de acreditar que ele seja suficiente. Então me culpo. Penso que talvez exista em mim uma fome antiga, dessas que não se alimentam com o pão do presente porque continuam presas à escassez do passado.

Talvez eu ainda não tenha sobrevivido completamente às minhas antigas dores.

E, para que ninguém perceba, eu performo. Sorrio. Converso. Abraço de volta. Faço graça. Pareço inteiro. Mas toda performance cobra um preço. Volto para casa esgotado, abusado de mim mesmo, destruído pela exaustão de sustentar um personagem que, no fundo, só queria pedir colo.

Tenho um choro maior que o Paraíba do Sul quando atravessa São Fidélis. Um rio inteiro represado atrás dos olhos.

Às vezes também carrego pedras no peito, mais brutas que a Serra do Sapateiro. Rochas que não nasceram comigo, mas que aprendi a carregar como se fossem parte do meu corpo.

E, ainda assim, há beleza.

Há uma delicadeza em mim que floresce como a Bela Joana. Há poesias que insistem em nascer, mesmo quando tudo parece árido. Há ternuras que sobrevivem às rachaduras. Há uma esperança teimosa que continua acendendo pequenas luzes dentro de um coração cansado.

Talvez seja por isso que eu me reconheça tanto no Itacolomi.

Dizem que é um menino transformado em pedra. Às vezes penso que também me tornei isso: alguém que endureceu para não quebrar, alguém que aprendeu a permanecer imóvel porque o movimento parecia perigoso.

Mas, hoje, o que mais desejo não é continuar resistindo.

É voltar a fluir.

Quero reencontrar o menino antes da pedra. Antes dos medos. Antes das ausências. Antes de acreditar que precisava suportar tudo sozinho.

Talvez a verdadeira coragem não esteja em permanecer firme como uma montanha.

Talvez esteja em permitir que o rio, enfim, encontre passagem por dentro de nós.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

PROFUNDOS

toda madrugada tua voz vem me chamar
nos meus sonhos mais profundos 
uma noite virada só pra colecionar 
os meus monstros mais profundos

pra que fugir
se em tudo você está
se habita meu falar
se grita meu silêncio?

pra que mentir
se o sol já vai raiar
e tudo revelar?
no fundo te pertenço 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

ATÉ QUE O AMOR NOS SEPARE

o poeta nunca mentiu
quando disse que era eterno o amor
o poeta nunca mentiu 
quando rimou o amor com a dor

o amor se eterniza no silêncio da casa
nas paredes rabiscadas em tintas de suor 
o amor se eterniza no inverno da brasa
tão sublime como perdão sem pudor

o amor se eterniza do ódio que inflama 
nas injúrias que atropelam a sinceridade
amor se eterniza na saudade que clama
feito albergue sem hospitalidade 

o amor se desdém do amor
e deixa o amar sem jeito
o amor em si desbota a cor
muitas vezes é só um aperto no peito

quarta-feira, 24 de junho de 2026

SOU POEMA

sou Poema 
e meu lema é amar (eu amo você)
sou Poema 
não pequena é minha alma (o poeta falou)

sou Poema 
em mim queima o coração (eu não nego não)
por Poema
vou viver com paixão 

cidade de risos, de ois
de feira, de café e mel 
cidade, quem tem um faz dois
desconheço tão perfeito céu 

cidade de pipoca e carnaval 
futevôlei, resenha e a Matriz
cachoeiras te regam o quintal
sou planta que cresce
cidade, tu és raiz

cidade, Deus mora aqui
Teus olhos tem cor de quindim
cidade, tem flores

teus beijos sabor de licor 
o mar se faz de nosso amor
cidade de cores

deixa eu me banhar no Paraíba 
onde Deus chorou de tanto por rir
quando eu repousar da minha vida
cidade, vou me abrigar ti 

nascerão outras flores
pra regrar outros amores
e te coroar tuas rimas
você ainda é menina

sexta-feira, 19 de junho de 2026

GOODBYE

estou preso em tua teia
amarrado em teu calcanhar
te querer corre em minha veia
teu abraço é ego em placenta 

te imventei pra minha cena
te guardei nas palavras mal ditas
sussurrei o teu nome por pena
das manhãs de esperanças perdidas

I don't know how to say goodbye 

teu perfume está nas infindas dores
tuas juras desenha chuva serôdia
lavando as cores das flores
essa poesia é monocórdia

eternidade de vaidade
é tão frágil o coração 
toda mentira é verdade
só velando a intenção 

I don't know how to say goodbye
I don't know how to say goodbye
I don't know how to say... when you lie

domingo, 7 de junho de 2026

GRITO

 tenho dores silenciadas 
pelas vozes que circundam a razão 
tenho razões que perco 
movido pela busca da aceitação 

sou cíclico 
repetições 
sou petições sem ofício
no ócio das ações sou ópio 
entrelaçado por opinião barata

eu valho pouco
e por muito me encalho
sufocado pelos ais do silêncio 
sou atalho de mim
em constante busca 
do fim
do recomeçar 

que da próxima vez
meça eu a infinitude 
e me deixe gritar 

sábado, 30 de maio de 2026

CABIDE

 você me fere
quando se adere ao teu medo
que, cheio de dedos, nos afasta
sem sequer nos tocar

você me fere quando
o nada nos faz

nas encostas desse rio
nado em braçadas
rumo ao nada
seco, me derramo silenciosamente
como quem constrange deus
como quem exuma a mãe
como quem não se cabe em si

você é cabide
onde repouso
sem jamais pousar
meu amanhã

quarta-feira, 27 de maio de 2026

EM CAIXAS TU

juntei meus cacos espalhados pelo chão 
meus pedaços de juras curtas
compridas foram as esperas
palavras de calor, hoje pedras brutas

ainda dói olhar a tristeza na alegria
ainda é pranto o seco silêncio 
paixão é sempre carnaval
encarnado prazer de fantasia 

uma noite acolhida pelo frio
um Djavan já em vã promessas 
longe das luzes que te pinta belo
perto do diabo 
e tantas rezas

me abri para o esquecimento
sabendo que isso ainda era lembrar 
cataloguei os bons momentos
em caixas de papelão sobre o guarda-roupa 

guardei-me pra mim 
resguardei-me de ti 
destruí o imaginário 
e me construí o fim

depois de um final
antecedido pela dor
sempre chega o recomeçar 


terça-feira, 26 de maio de 2026

EU MENTI

eu menti
dizia que por já três semanas 
que não pensava em você 
mas pra te esquecer eu me lembro

eu menti 
te escondo em cavidades das palavras 
pra ninguém perceber
um sol à meia-noite inodoro

o rio enquanto eu choro
embalo o peito e corro
espalho o pensamento 
o vento a favor de mim

eu fujo, tento, calo
verdades nunca falo
te amo no que invento
um rei sem ser real pra mim

como pode alguém morrer
se no peito ainda pulsa, enfim





segunda-feira, 25 de maio de 2026

CIRANDA

a vida é um roda
um generoso convite ao bailar
alternar o passos
os pesos 
e liberar os pesares

a ciranda da vida nos cativa
nos captura o que há de leve
e brevemente nos achega a paz 

a vida é uma brincadeira 
séria, como convém o respirar 
passageira como vem a serôdia 
a vida é lembrança do que nunca parte 

a vida já se faz parte 
o que era inteiro se perdeu