terça-feira, 24 de março de 2026

PARA AMOR MEU

 Carolina
não sei em que ponto da vida
você deixou de ser só nome
e virou abrigo

tem gente que passa
como vento distraído
você é uma brisa que traz ar

você ficou
em lealdade que não grita

você cuida
como quem entende o silêncio
antes mesmo da palavra existir
como quem chega
sem fazer barulho
e, ainda assim, muda tudo
muda junto
e nos faz florescer

você é leveza
e é muito bom sentir
que podemos voar

em mim
você tem casa
no meu coração você tem um lar

sábado, 21 de março de 2026

ESMO

breve
a vida é breve
demais

entre um suspiro e outro
se esvai entre os dedos
que não tocam a alma

a calma se faz carente 
desejada por becos inóspitos

inquilinos de ecos dos ais

era pra ser leve
era pra ser entregue 
era pra ser encontro
era pra não ser era

e já foi 
mesmo em esmo
residindo em mim 
o fim
do que nunca teve
um começar

a vida é breve demais
pra se lamentar

sexta-feira, 20 de março de 2026

quarta-feira, 18 de março de 2026

SENTIR

 talvez vencido pelo cansaço 

o pensamento que me atravessa

seja o parar


eu paro e me escuto

e no escuro desse tumulto

canto uma cantiga de ninar

para as vozes que salientes

dissipam minha paz 


tomo um tempo 

tomo água 

tomo um ar

e não temo

o céu nublado

alvejado por relâmpagos


movimento o meu corpo

em direção à chuva

eu abraço a tempestade

num ritual humano e sagrado

não culpo as dores

nem cultuo as flores

eu deixo ser 

e sou 

me deixou crer

me dou


ser humano é perfeito

o imperfeito é se endeusar 



LUA NOVA

tua beleza não precisa de permissão pra existir
entre as belezas que existem no mundão mais linda é teu sorrir

então fica por aqui
cê sabe se parte parte meu coração
fica por aqui
em parte, a parte de ti em mim é paixão

dançar contigo é verão
ouvir tua voz é bossa nova
tudo em ti é perfeição
e o que não for é lua nova


terça-feira, 17 de março de 2026

ITA

 hoje provei o gosto metálico de existir sem mim

não foi dor
dor ainda é um tipo de companhia
foi uma espécie de ausência com pulso

eram quatro da manhã
e o mundo insistia em acontecer
como se eu estivesse nele
mas eu não estava

meu corpo, essa insistência orgânica
cumpria protocolos:
ria na medida exata,
concordava com delicadeza ensaiada,
vestia o crachá invisível de quem acompanha
sem nunca chegar

eu era presença etiquetada
um erro de impressão com boa educação
e enquanto falavam
eu escorria de mim
como água que desaprendeu o recipiente

havia um som dentro do meu peito
não coração,
mas um tamborim em câmera lenta,
descompassado da festa alheia
uma Sapucaí dentro de mim
e ainda assim
nenhum desfile
eu filetado em partido baixo

só o atraso das coisas
só o tempo pingando
como soro de angústia

alugavam-se um televisor
eu pedi para repetir
e ninguém percebeu
que era o mundo
que eu não estava entendendo-me
imundo

pode falar de novo?

como se a vida tivesse legenda
e eu, finalmente, pudesse alcançar

mas não

o medo não traduz
o medo dilacera

faz do adulto uma caricatura de ossos
e da coragem um verbo que não se conjuga
tampouco faz-se carne

e ainda assim
quem foi que disse
que a força mora no grito?

vi ali
um sacerdócio silencioso:
mãos exaustas sustentando
o que ainda respira,
olhos que já não dormem
mas continuam acreditando
no improvável mínimo
que subscreve o muito
vidas empilhadas sobre cansaço
cansaço sobre cansaço
asco, lasco
tasco?

e o mundo moderno
mastigando tudo
com dentes de máquina
tempo 

então eu chorei.

não bonito 
não literário 
não digno de ser lembrado ou sucumbido

chorei como rio que esquece a margem:
meu Paraíba do Sul encontrando o Muriaé
em lentidão quase indecente
e.preliminar

um encontro que não salva,
mas continua

e, estranhamente,
entre o colapso e o intervalo,
brotaram risos

pequenos
quase clandestinos

pessoas com calor de gente
— o tipo raro —
oferecendo leveza
como quem não sabe
que está salvando alguém

e foi aí que doeu mais:

porque eu quis o teu abraço
minha carne que sambava 
despencando de meus ossos 
ardia por gente

não o gesto
mas o silêncio que ele contém

aquele silêncio que pulsa
e diz sem dizer Cazuza

eu teria ficado, aproveitando

se o tempo não fosse esse animal que foge
justo quando começamos a tocá-lo
e quando percebi,
já era tarde

o tempo tinha ido embora
sem pedir licença 
como fazem as coisas essenciais

e o que restou
foi essa memória áspera,
salpicada de um arrependimento manso:
o de quase ter sido
mas se foi

podem não era de você que eu queria falar

porque há algo em você
que não cede,
não pulsa,
não sangra

descobri: “Ita", pedra

você carrega uma pedreira no peito
e eu, tolo,
ainda tentei morar aí
como quem acredita
que mármore sabe abraçar

mas mármore
só sabe durar
frio

e eu 

eu só sei sentir
até desaparecer
de zarpar a poder ser

hoje sou adulto que cuida
de minha velha nova criança 
que não crer em bicho papão 
mas conhece o despistar de meu olhar

segunda-feira, 16 de março de 2026

SINGULAR

 como você que é tão único
se manifesta em tantos você?

quase acreditei
na versão que falava baixo
e me fazia voar

na outra
você já era distância
antes mesmo de ir
sem nunca estar

há algo curioso
em descobrir uma pessoa
não que ela mentiu
apenas
que era plural
desde o início
singular

sem lar

domingo, 15 de março de 2026

MARGEM

Jamais contei a ninguém que alguns encontros não começam: eles simplesmente continuam algo que parecia antigo. Como se duas vidas, distraídas de si mesmas, de repente se reconhecessem no escuro.

O que havia entre nós não era exatamente alegria. Era outra coisa. Um tipo de repouso raro: a sensação de que, por alguns instantes, o mundo tinha parado de exigir explicações, obrigações e o vento dançava com a paz.

Silêncios também eram parte da conversa. Havia tardes em que bastava uma música baixa ou uma frase solta para que a realidade se tornasse menos áspera. E entre Djavan ou Cazuza armadinho deixávamos nosso prosear.

Entretanto certas águas nunca se deixam atravessar sem custo. Há quem pressinta isso cedo e recue, não por falta de sentimento, mas por excesso de mundo dentro da própria cabeça.

Resta-me hoje a curiosa experiência de ser cordial com alguém que já foi íntimo da minha respiração.

O convívio tornou-se superfície: palavras corretas, gestos medidos, a civilidade tranquila de dois estranhos que sabem demais.

Basta um descuido, porém uma música antiga, um cheiro na rua, uma tarde comprida, uma refeição ou narrativas de como anda a vida, para que tudo retorne com a precisão de uma lâmina.

Então compreendo que o que se perdeu não foi exatamente uma pessoa. Foi um território.

Rios são assim: às vezes passam por dentro de nós e continuam correndo em silêncio, mesmo quando fingimos terra firme.

Talvez você tenha escolhido a margem. Há quem confunda segurança com permanência. Eu permaneci, eu aguardei, mas já desbotaram as flores.

O curioso é que, de vez em quando, quando nos encontramos sob a luz impecável da educação, tenho a impressão de que ambos escutamos a mesma coisa: a água passando e levando de nós o agora entulho do antes florescer. Mesmo sob essas águas se seca nossa garganta, se irrita nosso olhar e já não chora o meu coração. Mas nadar nunca é em vão.

Entre um vão e outro do afastar moraria eu no encontro de nossos braços entrelaçados pelo silêncio que grita o que cala o amor que sabe amar.


sábado, 14 de março de 2026

TIA LURDES

um sopro é a vida
sequências de idas e vindas
interrompidas por paradas
cardíacas estão minhas palavras

que faltam o ar
um sopro era o que esperava
para aliviar a dor da chegada
do fim que se mescla
com a eternidade

há verdade no existir?
ou tudo é penumbra do porvir?

por acaso
se tiveres a me ouvir
e curiosa como és
entre uma nuvem e outra se aventurar
desbravando o céu
ao encontrar vovó pregue-a um susto
ao encontrar papai se deite
em seu gargalhar

quinta-feira, 12 de março de 2026

TIC TAC

Há dias em que sorrio como quem assina presença na própria vida, mas por dentro algo em mim permanece em silêncio, sentado num canto escuro, esperando ser ouvido.
Para não assustar ninguém, apelidei essa algazarra interior de ansiedade barroca. Dessas que vestem a dor com rendas e metáforas para que ela pareça apenas uma excentricidade da alma.

Carrego pequenas penumbras por trás de um sorriso educado.
Sorrio como quem acende uma lâmpada para os outros, enquanto dentro de mim ainda é madrugada. Meu sorriso oferece acolhimento, presença, calor humano, mas raramente confessa que também sente frio.
Pedir ajuda é um idioma que esqueci na infância. Ou talvez seja um analfabeto emocional.
Quando tento reaprendê-lo, descobri-lo, decifrá-lo, as palavras tropeçam na garganta. E, quase sempre, do outro lado, encontro apenas a pressa, essa senhora impaciente que governa os nossos dias. E digo sem mero julgamento.

Vivemos todos sequestrados por nossas próprias ansiedades.
Reféns de um egoísmo apressado que nos faz correr pela vida como passageiros atrasados em um aeroporto imaginário. Tudo é para ontem. Tudo é urgente. O hoje virou apenas o corredor estreito que leva ao embarque do amanhã. Quando não o perco.

Não degustamos mais a existência. Sobrevida nos perpetua.
Queremos apenas fotografá-la, etiquetá-la, exibi-la como um prato caro num restaurante estrelado. A vida virou vitrine de prêmios Michelin emocionais, enquanto o pão quente da simplicidade esfria sobre a mesa.

E eu…
Eu tenho fome.
Fome de cuidar de gente. E ser cuidado.
Fome de tocar vidas sem a burocracia dos gestos vazios. Fome de vencer, não para subir em pedestais, mas para provar que ainda é possível existir com alguma dignidade nesse teatro de urgências.

Há um sonho dentro de mim tentando respirar.
Ele bate nas paredes do peito como um pássaro que descobriu tarde demais que nasceu para voar. Às vezes quase o silencio, com medo de que ele me leve a lugares onde eu ainda não sei quem sou.

Mas hoje algo mudou de lugar dentro de mim.
Talvez a vida não seja essa sucessão de relógios nervosos.
Talvez ela seja mais parecida com uma panela no fogo baixo, onde os aromas se encontram devagar e inventam um sentido inesperado para o mundo.
Eu preciso de sabor.

Preciso de experiência.
De cor.
De palco.
De risco.
Eu preciso de vida.
E começo a suspeitar, com a delicadeza de quem escuta o próprio coração pela primeira vez que a vida não esteja talvez lá fora me esperando.
Talvez ela esteja aqui dentro, batendo à porta do meu medo e pedindo, com paciência infinita, para finalmente nascer. E como inquilina fiel e leal fazer morada.

Quem sabe a cura venha?

segunda-feira, 9 de março de 2026

EM REQUINTE

tem gente que te traz risos soltos
e te prende na leveza de uma conversa 
te olha com a janela da alma aberta
e traz ar puro, leve e fresco ao peito
tem gente que faz bem
e é do bem

tem gente que inspira paz
fala de sonhos e dissipa os medos
que a gente não tem pressa de ir embora 
que quer levar pra casa 
guardar num potinho
e é doçura 

há também gente que só quer ser mais gente
e nos preenche cada lacuna com afago
numa troca de livros 
numa música intrigante 
que cala o peito
E faz gritar o silêncio 

em requinte da simplicidade 
é príncipe do lar
no afago sincero é casa ao abraçar 

SIMPLICIDADE

eu nada tinha
além de um coração que pulsava fé 
eu pouco via
além da mão furada que me pôs de pé 

cravos sangraram Seu corpo
cheiro das rosas Ele pôs em mim
tudo no nada ou pouco
Ele é vida além do fim

eu O vejo na simplicidade
O conheço além das palavras
é a voz mansa na tempestade
passo firme sob as águas 

eu O tenho na naturalidade
e o sobrenatural se manifesta 
caminho seguro, luz e verdade
a paz que excede a humana pressa

O vi sem nada ver
O senti sem nada tocar
O recebi sem nada falar
Jesus além do ter é O SER
sem Jesus sou folha seca no ar



sexta-feira, 6 de março de 2026

STRANGERS ON THE OTHER SHORE

you were a river in my veins,
now only echoes in the rain
time slipped softly through our hands,
and love got lost between the lands

we read between the lines of sighs,
two restless hearts beneath the skies
but silence grew where words once were,
and loving you went a bridge too far

now when our lonely shadows meet,
we pass like strangers in the street