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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Toda minha verdade é mentira - PARTE I

As pessoas tendem a nos julgar segundo os seus próprios medos e fraquezas. Se não temêssemos tanto os efeitos das drogas, viveríamos todos mergulhados em gostos e cheiros de maconhas ou sintéticos. Drogas não tem esse nome porque não prestam. São drogas porque se fossem doces a julgamento seria em torno de que engordam. Não vou dizer que não estou fazendo apologias, não me sentiria um ponto e vírgula culpado se tuas forças te motivassem ao primeiro teco. Na desculpa, é claro, ter sido sugestionada por mim.
O meu vício foi e é esse senso de liberdade que corrói minhas veias, engano-me a mim no propósito de ser dono de meu nariz e razões. Hipócrita, eu sou. Somos todos escravos de nós mesmos. No anseio de o outro dominar.

(AARON e CINDY sentados lado a lado no sofá bege. O menor do conjunto de três e dois lugares. AARON bebe uísque, fuma e balança as pernas. CINDY enrola os cabelos com os dedos. Ambos olham fixamente pra frente)

AARON - Por que tá chorando?

CINDY - Não sei. Acho que mesmo sabendo que não é você tem uma parte de mim que queria que tivesse sido.

AARON - A gente vai continuar amigo.

CINDY (Roendo a unha do anelar esquerdo) - Não, Aaron. A gente para aqui.

AARON - Por quê?

CINDY - Porque já tem muita parte de mim dentro de você. E eu que dei. Me dei. E já não posso reivindicar.

AARON - Se arrepende...?

CINDY - Eu vivi. E é essa história que vou contar.

AARON - Boa?

CINDY - História.

AARON - Boa?

CINDY - Toda história fica boa um dia. É só esperar.

AARON (Vira todo o uísque) - Eu...

CINDY - Não. (O encara) Você não foi a pessoa que mais amei.

Ando meio assim. Ando meio anão. Ando pela metade. Desando. Talho. Azedo. Avesso. Ando meio talvez. Pra não assumir minha culpa fui incorporando esta mentira no meu diálogo. A mentira de que havia amado. Eu nunca a amei. Desejei. E tive. Penetrei e exorcizei de meus músculos toda sorte de volúpia e paixão. Tendemos confundir o que é ótimo no agora com o que poderia ser bom no pra sempre. Eu só queria o ótimo, perfeito. E acabou. Fui me convencendo de que era verdade o meu conto, afinal, poderia contá-lo mil vezes ou mais. Sou paciente... Assim como esse trago de cigarro que agora dou e não libero. Fumo a fumaça. Essa sim me preenche e dá prazer. Tomo um gole do uísque e umedeço as palavras que nunca a disse e a fumaça sussurrará feito incenso. Lenta. Bailarina. Ladra. Prostituta. E amiga. Mas não era essa exaltação que ansiava o meu deus. Libero-a lentamente. A fumaça. E ela. Torno a tragar. Posso contar essa mentira que criei pra nós pelo resto de nossas vidas, mas ela nunca deixará de ser mentira. Contando e recontando, no máximo, ela passar a ser a nossa realidade. E o REAL nem sempre é o VERDADEIRO. E o verdadeiro é essencial?


quarta-feira, 11 de julho de 2012

O HOMEM QUE AMEI: E que não amei

Ele chegou e se insinuou como que se um simples olhar atraente pudesse provocar em minhas vértebras alguma desconexão desconfortável, mas o que conseguia distribuir em meu corpo eram arrepios e frios que ministravam um calor do qual eu gostava de sentir e pôr lenha para queimar. Ele queria me aquecer, mas eu queria incendiar o nosso motel.
Homens se gabam entre conversa e outra dos beijos, apertos e afins que conquistaram em noites passadas. Mulheres gargalham das mentiras que contaram para construção destas mesmas fantasias que os suplantam virilidade. Eu? Eu vivo! Eu consumo! Eu amo, mesmo sem amar!
Ele chegou e se dispiu em mínimos detalhes e estes realhavam o medo que ele estupidamente escondia entre um aperto e outro que ensaiava em meu corpo. Tapas que não tapavam o meu libido. Beijos que não beijavam o meu coração. Gozo!
Fico a me perguntar da importância de ter um parque de diversões se não sabemos administrar um brinquedo apenas. Admisnistração é tudo na vida, até mesmo as desiquilibradas! A minha arte estava em calar as sonoridades de amor que ele teimavam em produzir em seus lábios. Eu não buscava o seu amor tampouco cria nas declarações do mesmo. Eu queria sexo e ele se traduzia em antagonia ao amor. Era fogo. Era incêncio. Brinquei com fogo e não me queimei, me inundei em águas que sozinha não saberia produzir.

"Não perca amanhã... o quarto e último capítulo de nossa série em conto: "O Homem que amei e que amei"

terça-feira, 10 de julho de 2012

O HOMEM QUE AMEI: E que não amou

Ele chegou manso, calmo, delicado. Um gentil cavalheiro revelado entre lindos olhos verdes que iluminavam uma torre de 1,90m de puro morenos músculos e torneiros. Os seus cabelos eram tão negros quanto à cor que tingia o meu mundo que parava apenas só para ver o seu riso branco esboçado em carnudos e rosados lábios para mim. Quem não apaixonaria? Eu amei!
O homem que amei tinha a calorosidade de tocar o meu corpo frágil e imprimir em seus apertos as marcas de meus pelos que avolumavam erupções vulcânicas em suas digitais. Aqueles toques me tocavam a alma em melodia de qualquer pop sensual. Eu perdia o meu ar.  Eu perdia o meu tino. Eu perdia os meus achados de uma vida inteira que se representava insignificante ante si. Foi a primeira vez que eu morri! Morri em mortes pequenas, cada vez que parte de seu corpo penetrou as cavernas de minhas escuridões e medos que ofuscavam o desejo. Morri em morte pequenas, todas as vezes que parte de seu corpo endurecido por sua certeza de vontade revelou o seu inteiro que habitava em mim todos os dias. Morri em pequenas mortes ao som de grandes gemidos de dor e alegria. Morri e sepultei a mulher que nunca fui, mas abrigo encontrava em mim.
O homem que amei me beijava a boca como quem se lambuza de manga madura e doce, manga espada, suculenta, tropical! Foi nele que descobri o prazer do beijo, o encontro que se ansiava entre um oceano e outro e eu salivava ao cheiro de sua pele e suor que me comunicava fogo. Cheiro de homem! Cheiro de macho. E ele dizia me amar. Como renunciar tanto amor? Eu me entreguei!
Ele sabia a maneira simples e colossal de franzir os lados esquerdo e direito das extremidades de meus olhos, sabia corar minhas maças, sabia atropelar as minhas palavras ou mesmo silenciá-las. Ele sabia me saber e quando já me tinha como um livro lido e relido obrigatoriamente, o homem que amei deixou de me amar. Ele amou a sua torre e cerrou as suas portas pra mim. O farol que resplandecia em seus olhos se avermelhavam em mil pavor. Ele não já me possuía como antes, pois já exibia irônico a posse de mim. Ele de desapossou de meu amor, de minha paz, de minhas alegrias. O homem que amei me conjugou no passado. No pretérito perfeito, imperfeito, mais-que-perfeito. Ele se aperfeiçoou de mim e eu perdi a graça de ser graciosa e desejada. E de graça me lancei aos teus braços a procura do mesmo abraço que outrora me aqueceu e os mesmos congelaram ainda mais o meu peito. Que aperto me gargalhou. Os seus lábios não sorriam pra mim nem pronunciava com mel o meu nome. Os seus lábios não mais me saboreava ou consumia. O rio secou. A sede inundou. E a morte nasceu. Eu me suicidei!


"Não perca amanhã... o terceiro capítulo de nossa série em conto: "O Homem que amei e não amei"

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O HOMEM QUE AMEI: E que me amou

Ele chegou tão inesperado quanto chuva de verão. Entre um sorriso e outras distrações me encontrei em seus braços tão firmes quanto o impacto de sua bota que demarcava os compassos de meu sarandeio. Ele chegou firme, certo, seguro e inevitavelmente me apaixonei.
Se eu tivesse o dom de sentenciar todos os meus desejos, eu sangraria os dedos dos músicos nos violões e foles, eles tocariam pra o som da eternidade aquele mesma melodia que embalava a minha dança mais nobre das que dancei em vida e inspirava executar em morte. Eu me perdia em seus braços que aqueciam ao mesmo tempo que queimava em mim todos os medos de me entregar e ser feliz. Eu o ofertei o meu tesouro, o meu bem, a minha pureza e me maculei entre sangue e gozo de pertencer a si e ser sua por inteira. Ele se apaixonou por mim.
Os seus olhos negros se iluminavam de ver verde que refletia em sua pele escura a alegria de ser e pertencer à vida e morte. Eu não temia o passado tampouco ressentia o futuro, eu me sucumbia me minhas próprias vontades de ser jovem, mulher que ama e é amada. O homem que amei esculpiu em meu corpo os traços das histórias que eu escondia entre um dom e outro de falar poesias estruturadas de belas rimas e musicalidades de valsas. O homem que amei sepultou em mim as marcas dos constrangimentos de conhecer eu mesma o paladar de minhas intenções e insinuações. Ele me revelou à mim e eu me apaixonei pela imagem que via refletida em sua pele que se hidratava de um suor seco, forte, impregnador. Eu me via em suas marcas, em suas curvas em saliências, eu me reconhecia tímida em sua musculatura que escondia os alicerces de meus tesouros e mesquinharia. O homem que amei me revelou o amor por mim e me libertou para o amor, assim como borboleta que rompe o hímen do casulo e se perde nas cores da primavera. Ele pintou de cores novas o meu mundo outrora branco e rosa.
Como pode fantasiar a nossa mente tamanha hipocrisia em relação ao amor? Eu escrevia em meu diário relatos de expectativas e sonhos que se frustraram ao encontro do real e tangível sabor de seu beijo. O amor que me oferecia tinha o dom de desmitificar os paradigmas e calar as revoltas de meu peito. E nem todos compreendeu o nosso amor. Mas estaria nas concepções vizinhas o legitimar de minha paixão e entrega? Leviana ou não me embriaguei deste vinho que me oferecia juventude e perversidade dionisíaca. O homem que eu amei não tinha clima para apolíneos contornos, ele tinha por sacerdócio o ministério de ser revolução e minha vida desestruturou. O homem que amei e que me amou se diluiu entre o meu sangue que se recuperou da hemorragia de sucos de uva que adoçou as minhas palavras e queimando levemente pela garganta, aqueceu o meu coração e anestesiou a mente e intelecto. O homem que amei era tinto, seco e envelhecido. Era nobre!

"Não perca amanhã... o segundo capítulo de nossa série em conto: "O Homem que amei e não amou"