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sábado, 31 de março de 2012

Eduardo e João: Segundo Final

Uma orquesta cantando no lugar que deveriam trilhar cordas vocais. É o teu nome que elas cantam. Gritam. Cada palavras que pronuncio soam como notas agudas e graves falando o teu nome. Você está em minhas palavras. Você é o meu verbo na música que Ray Charles canta em I can't stop loving you.
Eis outra coisa que me assombra, será que realmente suportaria ver-te por alguns instantes sem as maquilagem que escondem as imperfeições? Só te tenho agora frio em meus braços e quente em meu peito. Te tenho atrelado às minhas auto-acusações. Procuramos na vida estabilidades, ou eternidades, mas preferimos descer ao inferno à subir no altar selando assim votos de amores eternos, cumplicidade e companhia. Mas por você eu iria ao mais profundo de meu ser e encontraria nas minhas essências o nosso lar.
- Você não tem que se culpar pelo o que quis fazer. Você não me deve a tua vida. Sempre te quis livre, João.
- Eu não podia ter negado o nosso amor. Eu tinha que ter escolhido não quer. - A minha dor se concentrava no seu silêncio que arranhava a minha íris. E os seus olhos ainda mantinham o mesmo brilho por mim. Ele já não era mais estranho. Era comum como todos os demais. Eu já era comum. Juro que preferia vê-lo gritar suas raivas por mim e assim como um cão que outrora preso se liberta das correntes, avancei minha mão em cinco dedos em sua bela face marrom cor de jambo e colori com o vermelho de minhas cinco declarações de medo.
- Por que tua mão está trêmula e fria? – Estúpida pergunta que ele me fazia. Não poderia minhas mãos que tocaram outro corpo estar de outra forma. Sem forma. Deformada. – Eu nunca te cobrei perfeição, João. Apenas te excitei a vida. Você caiu no buraco que você mesmo pra si cavou, o buraco de superpotência. Eu te quero homem e menino. Te quero humano. Sem esta amargura que entorpece suas declarações de amor por mim.
- O que isto significa? Eu não entendo.
- Eu te amo, responde? – Belisquem-me se eu estiver ouvindo errado? Estas últimas palavras de Eduardo, se apossou de meu espírito como bálsamo e me fez ver à mim como seu. Da forma que nunca senti. Ele sorriu e agrediu o meu corpo como um rio que rompe a repressa e destrói a paisagem de naturalidades e belezas que o circunda. Ele me apresentava um nova beleza pra contar. Suas águas vinham de encontro as pedras que estruturavam minha angústia e esculpiam minha paz. Água é mole, pedra é dura, tanto bate até que fura. E foi a minhas descrença de ser amor que Eduardo quebrou com sutileza e simplicidade.
Ele sorrindo e maroto, pegou o seu típico copo de Whisky que por dias, dias e 3/4 de dia me olhavan em ternura, sedução e pronunciou as palavras que sempre esperei ouvir orquestrar aos meus ouvidos.- Eu te amei desde sempre.- Eu o abracei pela última sublime vez e o seu corpo se esfriou em meus braços que o suportou com firmeza de amor e arrependimentos. Era como se ele igualasse-se a minha dor pra me aquecer com sua paz e assim o fez. Eu me sentia como na primeira vez que nos vimos. Neste momento eu sintia o seu grave bumbo acelerar o compasso e cada vez mais e mais o rio que enrijecia o meu prazer se tumultuar em seu peito. Eu o beijei com todo amor que eu poderia inspirar em meus pulmões, nunca quis tanto ser a mesma fumaça que o percorria, queria inflá-lo e esvaziá-lo do vazio de mim. Eu queria penetrar o seu céu, construir suas estrelas e em sua boca desconheci o gosto do fel da desilusão. Fomos pra sempre. E pra sempre nos fomos em nós dois.
Todo o amor que tínhamos um pelo outro acabou naquela sexta-feira do dia 30 de março. O nosso amor morreu em seu egoísmo e mediocridade e nos encontramos em corpo e verdade de espírito. O nosso lar se desfez em ruínas, nas lembrabças dos castelos construídos de areia a beira mar, o que eu via era a farsa que construi pra mim se desdobrar entre uma nova proposta de vida colorida em cumplicidade e juventude. A nossa história com o tempo deixou de ser contada entre os grupinhos pelas ruas. Caímos no esquecimento de todos. Naquela espécie de buraco negro onde todas as memórias se escondem com o tempo, e com tempo pra perder ou ganhar. Sem a pressa do horário do almoço! É incrível como as pessoas se frustam em seus próprios preconceitos e vazios. Maquinam o nosso mal e nos roubam a integridade e liberdade de ser simplesmente nós e felizes. Ainda assim, foi a mais bela história de amor que eu vivi em toda minha vida. E vivo! Ou posso arriscar dizer que foi a única vez que amei. Talvez não por que tenha sido o maior amor o que o torna especial, mas foi o último. O eternopra sempre todos os dias em segundos escritos em olhares, toques e silêncios rompido por gritos de ternura e paixão. O amor que nos coloriu a face se refletia nas minhas lembranças que vejo refletida neste copo d’água em temperatura ambiente com gosto de fel nos perfumes de elixir paregórico das soluções das diarréias da infância. Fico a pensar no quanto somos volúveis e mesquinho com as marcas que o tempo vai escrevendo em nossa pele. As lembranças povoam em minha mente como varejeiras em torno de corpos necrosados, fétidos, numa decomposição que me funde ao solo e não me permiti locomover minhas pernas no espaço. Sinto-me fundir neste cemitério de sentimentalidades de minha cabeça insana. Sinto que minha orquestra de medo e acusação encerra o seu espetáculo, mas Ray continua a cantar melodias-jazz em suas teclas alvi-negras em notas que adocicam o meu paladar. Sinto-me fundir ao corpo do Eduardo numa sentimentalidades de alma que se incendeia em chamas de amor e paixão. Os meus olhos vão se perdendo em branco e preto e meus braços ensaia o seu próximo abraço, mas o amor é quem aquece nosso peito que se derrama em delicadez e doçura neste copo, agora vazio, o quem depositei com fidelidade o coração que deveria ter estado sempre no meu peito, aquecendo nós dois. Cresci ouvindo que a mim seria possível ser feliz e precisei morrer em mim e me redescobrir.
- E juro que nunca cri que seria inteiro teu.
- Eu sempre acreditei em nós dois, João. E não foi escolhendo todo dia estar contigo que descrevi o meu amor por você. E não me arrependo. – Ele cantava estas palavras pra mim, enquanto enchia o meu copo com a nobreza do vinho. E o vinho nos adoçva a alma e nós adoçávamos a vida. E assim foi, ontem, hoje e todos os dias, Eduardo e João!

FIM. RECOMEÇO. FIM. COMEÇO. PAUSA. FIM. FIM...VIDA!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Eduardo e João: Fim

O copo vazio

Ray Charles canta I can't stop loving you. Eu tennho uma orquesta cantando no lugar que deveriam trilhar cordas vocais. É o teu nome que elas cantam. Gritam. Cada palavras que pronuncio soam como notas agudas e graves falando o teu nome. Você está em minhas palavras. Você é o meu verbo.
Eis outra coisa que me assombra, será que realmente suportaria ver-te por alguns instantes sem as maquilagem que escondem as imperfeições? Só te tenho agora frio em meus braços e quente em meu peito.
Procuramos na vida estabilidades, ou eternidades, mas preferimos descer ao inferno à subir no altar selando assim votos de amores eternos, cumplicidade e companhia. Amamos com intensidade na velocidade da luz, assim tal como deixamos de conjugar o mesmo verbo. Amar! Na matemática da vida minha incógnita se revela com uma simples resolução de Pitágoras, e na gramática os predicativos me fogem tornando-me não analfabeto, mas impossibilitado de falar, talvez por já não ouvir, não saiba exprimir mais som. Morte, sepultamento, lápide, epitáfio, ou coisas do tipo, confesso não ter sido o que sonhei pra nós dois.
- Você não tem que se culpar pelo o que quis fazer. Você não me deve a tua vida. Sempre te quis livre, passarinho.
- O que mais me dói não é o fato de ter te traído, mas a incapacidade que tenho de ferir quem eu amo.- A minha dor se concentrava no orgulho de ver em seus olhos o mesmo brilho por mim. Ele já não era mais estranho. Era comum como todos os demais. Eu já era comum. Juro que preferia vê-lo gritar suas raivas por mim e assim como um cão que outrora preso se liberta das correntes, avancei minha mão em cinco dedos em sua bela face marrom cor de jambo e colori com o vermelho de minhas cinco acusações.
- Quando você quiser porrar um homem, o dê pelo menos a honra de ser com um soco de punho bem amarrado, como lança. E não com uma mão aberta e efeminada.- Estas foram as últimas palavras de Eduardo, que se apossou de seu típico copo de Whisky por dias, dias e 3/4 de dia onde olhou-me cm ternura e pronunciou as palavras que sempre esperei ouvir orquestrar aos meus ouvidos.- Eu te amei desde sempre.- Eu o abracei pela última sublime vez e o seu corpo se esfriou em meus braços que o suportou com firmeza de amor e arrependimentos. Neste momento eu sinta o seu grave bumbo desacelerar o compasso e cada vez mais o rio que enrijecia o meu prazer se tranquilizar em seu leito. Eu o beijei com todo amor que eu poderia inspirar em meus pulmões, nunca quis tanto ser a mesma fumaça que o percorria, queria inflá-lo e esvaziá-lo do vazio de mim. Eu queria penetrar o seu céu, mas eu sua boca experimentei do mesmo fel da desilusão. Fomos pra sempre. E pra sempre nos fomos.
Todo o amor que tínhamos um pelo outro se iniciou numa outra conotação naquela sexta-feira do dia 30 de março. O nosso amor morreu em sua morte e respirou a nossa eternidade. O nosso lar se refez das ruínas, nas lembrabças dos castelos construídos de pedra sobre nossos morros. A nossa história com o tempo deixou de ser contada entre os grupinhos pelas ruas, como simplesmente dois homens que viveram um pra si, normal, natural, humano. Tombamos o esquecimento de todos. Naquela espécie de buraco negro onde todas as memórias se escondem com o tempo, e com tempo pra perder ou ganhar. Sem a pressa do horário do almoço! Neste lugar aceleramos todos os relógios para o horário nobre da primavera. A mais bela história de amor que eu vivi em toda minha morte. Ou posso arriscar dizer que foi a única vez que amei. Talvez não por que tenha sido o maior amor o que o torna especial, mas foi o último.
O que ainda tenho em minhas lembranças vejo refletido neste copo d’água em temperatura ambiente com gosto de fel nos perfumes de elixir paregórico das soluções das diarréias da infância. Fico a pensar no quanto somos volúveis e mesquinho com as marcas que o tempo vai escrevendo em nossa pele e que não tatuam o coração. As lembranças povoam em minha mente como varejeiras em torno de corpos necrosados, fétidos, numa decomposição que me funde ao solo e não me permiti locomover minhas pernas no espaço. Sinto que minha orquestra encerra o seu espetáculo, mas Ray continua a cantar melodias jazz em suas teclas alvi-negras em notas que adocicam o meu paladar. Sinto-me fundir neste cemitério de sentimentalidades de minha cabeça em chamas de amor e paixão. Os meus olhos vão se perdendo em branco e preto e meus braços ensaia o seu último abraço, mas o a...


FIM.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Eduardo e João: Parte 4

As flores

Hoje o céu amanheceu cor de púrpura em respingos roxos. Um sentimento turvo tornava o meu humor ainda mais amargo que o gosto que exauria em meu paladar. Eduardo dormia como um anjo que repousasse em minha cama. Dormia um anjo comigo, mas eu não me via em proteção. Estava vulnerável, aflito, tal como um boi que sofre a dor do abate. E quem beberia de meu sangue? Quem comeria de minha carne? Ou seria eu o meu Judas?
O Eduardo quando dorme se entrega fielmente ao aconchego do colchão como uma corsa ao encontro das águas e eu me vejo como terra seca em carência d’água. Somos diferentes, somos iguais, somos mistos. Somos quem?
Tem dias que me sinto como uma esponja a sugar toda vitalidade de sua juventude. Quero sempre mais. Sou insaciável e inseguro. Vejo nos traços de seu corpo o cobiçar de cada mulher que a um mundo trairia para percorrer, mesmo que uma única vez, os seus vales e montes. Elas trilham seus desejos de aventura nesta trilha que eu percorro nas manhãs e madrugadas e às vezes me perco entre árvores e cipós, pedras e descidas, picos que se desfazem ao fim. E eu sei que isto o afaga e envaidesse.
Hoje acordei com o peso da culpa. Ontem fui fiel à mim. Ontem traí Eduardo.
- Eu te amo!
- O que o senhor disse, João?
- É isto mesmo que ouviu. Não tenho por que esconder o que se vê estampado em meus gestos. Eu te amo!
Quando eu disse estas estúpidas palavras pela primeira vez, o que espera no mínimo ouvir era o mesmo, mesmo que tímido, mas ele apenas soube rir, rir, rir e retornar o riso. Não entendo o que de engraçado tinha. E ele gargalhou outra vez. Dudu, era uma daquelas pessoas que cria num amor revelado em atutudes e práticas apenas. Não poderia ser mais cliché. Mas seus gestos e escolhas meticulosas e certeiras, em naturalidades não deixavam sombras de dúvidas sequer de seu sentimento fundamentado em escolha de envelhecer comigo, mas eu sabia que os anos chegariam mais cedo pra mim. Sei que apenas sete primaveras não fazem verão, mas recobriam a minha paz de inverno. E foi no calor de seu melhor amigo, se é que posso chamar aquele demônio oportuno e sedutor, de amigo fidedigno, mas em seus braços que encontrei o meu outono. Ele fazia as estações retrocederem em minha ambientação, para que quando chegasse a primavera, fossem flores para o meu próprio velório que eu colhesse. Eu sentia a morte se aproximar de mim e amargurar o meu gosto. Como eu iria trafegar pelo corpo que me traduzia paz se o meu juízo se transcrevia de culpas e condenações? Foi a única vez na vida que sabia que merecia ser condenado de fato pelo céu. Foi a única vez que não me justificaria o amor. Eu estava sujo em trapos e farrapos e Eduardo só soube sorrir pra mim.
O que fazer se nossas lembranças são levadas pelo vento assim como folhas picotadas de papel que se espalham pela sala? Eu tinha as lembranças de teu amor nunca pronunciado, mas sempre dito. Isto me estrangulava a consciência. Talvez por que foi a primeira vez? Não. Não foi. Era a terceira, mas eu pensava que com mulher não contava. Ou sempre contou? Estupidez de relacionamento aberto. Procurávamos a liberdade e nos abrimos pro engano e auto-traição. Nós velamos nossos finados embriagados pelas lembranças do convívio, aventuras, histórias e até mesmo na falta dela e à caminho do cemitério nos desprendemos de todo o sentimento, e ficamos na beira do esquecimento. Eu não quero um corpo, uma lembrança encarnada ao meu lado para me recobrar a memória do amor. Eu só queria mais que nunca sentir o amor. Talvez ele até estivesse ali, mas minha poeira impedia de contemplar. Ah, se cruzássemos novamente a alma ao coração! Os olhos à boca! Contradizemos-nos em nosso próprio entendimento de amor. Minha mente se embaralha entre os nódulos cerebrais que transam indecentemente justificativas para minhas intenções e questionamentos. Não encontro respostas ou procuro descansos e confortos? Enigmas de traição.
Por não cumprir um mandamento do amor sou excluso do céu, e tenho moradia garantida no inferno. Isto não é todo mal, pois entre os rejeitados e excluídos há certificação de que há uma verdade, somos todos iguais e desprovidos de amor, carinho e respeito. No inferno já não há necessidade de máscaras. Talvez seja esta a pela primeira vez que sentirei um gosto diferente deste fel.


CONTINUA...

quarta-feira, 28 de março de 2012

Eduardo e João: Parte 3

O alfabeto

Quem foi que disse que amor é uma soma de A + B? O amor pode ser todo o alfabeto e suas mais dissonantes combinações. Quem foi que disse que opostos se atraem? Quem foi que disse que haveria de ser desta forma o meu conto? Não era desta forma que eu suspirava contar as minhas alegrias. Eu queria poder gritar o meu romance. Como sou louco! Como posso falar em romances se não o conheço nem em vinte quatro horas? Mas são quase onze da manhã e minha mente pronuncia Eduardo. São duas da tarde e minha mão escreve Eduardo sem que minhas sinapses comandem. São seis da tarde e já está tarde para convidar para um outro café. Mas minhas conexões vinculam o seu nome sob mim. E se eu ligasse? Melhor não, poderia parecer estúpido. Mas estúpido por que? Somo adultos. Bem resolvidos. Sabemos o que queremos. Mas não, é melhor deixá-lo pensar em mim e quem sabe sentir saudades. Mas eu teria algum lugar já em sua vida pra construir saudades?
O telefone não tocou e eu me senti como uma mulher esquecida nas plenitudes do gozo. Juro que nunca mais faria isto com elas. Mas será que eu ainda sairia com outra mulher? Mas eu nunca estive com uma. Foram só beijos, apertos, amassos e nada mais. E então houve a primeira, a segunda, terceira, depois da quarta, da Vanessa, Alice e Carla e eu perdi as contas de quantas. E enxergava em mim o mesmo homem cretino e cafajeste que os demais. Eu era homem. E nunca nenhuma delas se queixou, ao contrário, elas conheciam o gozo em mim. Seria a minha sensibilidade? Ou mesmo a mulher que havia em mim? Mas eu não tenho nenhuma mulher dentro de mim. Eu sou homem. Eu sou homem. Na terceira vez gritei e toda repartição ouviu. Me desculpem, gente, estou ensaiando a apresentação da pauta do novo lançamento. Um produto exclusivo para homens.
Isto! Ser homem é um produto! Eu poderia comprar o manual no mercado. O que é ser homem? Eu sou homem? Esta última pergunta eu fiz durante os quatro meses consecutivos e no quarto mês e treze dias o Eduardo reapareceu. E como se nada houvesse acontecido sorriu pra mim. Era aquele mesmo sorriso cor de jambo e gosto de baunilha entre notas de nicotina. Eu gelei e tremi. Estufei o peito e eu voz grave perguntei: Por que sumiu?
- Pensei que primeiro ouviria um bom dia.
- Ah, sim, claro, eu me prescipitei e de repente esta pergunta surgiu em minhas palavras. Mas – Sim, eu estou gago novamente e falando coisa por coisa, sem sentido. Um verdadeiro estúpido idiota. Esperto como só ele poderia ser em sete primaveras a menos que eu, sorria de meus constrangimento. Eu tentei ser rude as suas graças, mas isto fluia como lenhas nas labaredas do fogo de sua ironia. Eu o convidei para se sentar comigo, mas era mais prático me ajuntar a ele e eu fui, sem revidar recusas. Entre silêncios, olhares e outras tais estupidez tomei meu café expresso e sem açúcar. No entanto nada tirava de meu paladar este gosto de amargo fel que me apetece. E ele me convidou para assistir um filme no sábado a noite. Que homem convida outro homem para ir ao cinema? Quem? Eu fui. Nós fomos. E os finalmente se iniciou outra vez, mas não foi como naquela noite. Não tinha sabor de descoberta. De liberdade! Eu estava sóbrio! E naquela lucidez o entreguei a chave de meu apartamento. E durante onze anos ela foi a chave de sua casa.
- É incrível o prazer que nós temos em estar juntos, né? A gente é muito amigo um do outro! A gente gosta de estar junto e se olhar, se ver.
- Dudu, você quer que seja pra sempre assim?
- Não tem que ser pra sempre. Tem é que estar na memória, no corpo, na vida. Eu acho que é pequeno pensar a vida nos contornos dos relógios que se limitam em seu traçado pré-planejado, sabe? O que eu gosto de nós dois é este lugar do livre, do belo...
- Eu sempre penso que não morreremos juntos.
- Eu tenho certeza. – Disse ele sorrindo e cheio de luz nos olhos. – A nossa história é de vida e não de morte. E...
Eu precisava interrompê-lo. Era difícil viver em acordo com as filosofias baratas do Eduardo. Eram sonhos e utopias demais para uma única pessoa. Ele tinha muita vida em mim, mas os anos se passavam aos nossos olhos e ele era sempre criança, jovem, menino. Eduardo não tinha medo da morte, nem da vida. Eu tenho. Temo os julgamentos que ainda vejo nas delicadezas das pessoas com a gente. É um tal de dizer que somos lindos juntos. Santa hipocrisia e desnecessidades. Temo a Deus e ao inferno. Na verdade, Eduardo sempre foi muito mais homem que eu.
- Por que você fala como se Deus não visse amor no que construimos? Por que você se priva ainda da felicidade? – Ele sabia calar as minhas conexões de consoantes e vogais. Sabia roubar-me os conectivos e só ficavam as interjeições, mas não calava a minha dor.- Deus não está preocupado com a gente, João. Deus tem muita gente que ainda não aprendeu a amar pra ensinar. E Ele não tem tempo pra perder, por que o amor não espera de braços cruzados e de repente com o tempo o coração se foi. Pára de bater. E então começa os aplausos mesquinhos e vazios que você tanto espera.


CONTINUA...

terça-feira, 27 de março de 2012

Eduardo e João: Parte 2

A toalha bordada

Caminhamos juntos depois o banho que tomamos separados no aperto de meu imenso apartamento. Permiti que tomasse o seu banho primeiro e me arrependi por não me oferecer como a companhia. Vai que algo a acontecesse e precisasse de minha proteção. Porém preferi fazer as hospitalidades da casa e deixei recobrar os seus sentidos e tempo na paz de um banho quente e calmo. Não sei que mundo se apresentava do outro lado daquela porta branca de madeira um pouco mais alta que eu, mas na minha mente havia um guerra e paz interior que se revelava nos vulcões que rompiam em minha pele frio. As horas pareciam terem se calado e o relógio paralisava o tempo para que minha consciência analisasse com calma a escolha que havia feito por mim, mas as lembranças das últimas horas escondidas naquela noite eram muito mais aprazível e sedutora, eu não tinha como resisti, sucumbi a mim e Eduardo gritou: “Eu preciso de uma toalha. Posso usar a tua?” Gago e infantil eu respondi que poderia trazê-lhe uma nova. Ele abriu a porta do banheiro, me revelando outra vez o seu corpo nu e molhado entre a fumaça do vapor da água quente que o cobria por inteiro. Eu me vi como naqueles filmes de super-herói com poderes de congelar os inimigos, me vi com as pernas travadas ao chão mais uma vez e um frio repentino subir por entre as mesmas em encontros de fluxos frios e quentes de líquidos rubros, espessos, sanguíneos que me transitavam em congestionamentos as veias. Havia uma certa confusão no meu corpo. Eu não tinha mais álcool em minha mente e tinha a oportunidade de olhar em seu corpo nu a nudez de minha vontade e desejo. Eu me via nos reflexos das gotículas em seu corpo. Conheci a mim naquele instante e trocamos as palavras que construíram o nosso maior diálogo até então.
- Que cor de toalhas você prefere?
- Até pano de chão serve – sorriu.
- O pano de chão está muito sujo – eu disse em dose cavalar de estupidez . Uma branca?
-Entre no banho. E então nos enxuguemos com a tua. É bom que economiza e eu não te dou trabalho.
Não preciso dizer o que aconteceu. Mas eu preciso. Não para que me entendas, mas para que eu possa compreender os meus símbolos linguísticos. E sua língua tinha gosto agora de minha pasta de dente. Vocês obviamente já imaginam que tudo recomeçou, mas desta vez tinha gosto de primeira vez. Tinha gosto de ser de verdade, de ser eu, de ser ela, como pessoa. De sermos de fato nós dois e agora me faltam as palavras certas para descrever o que se acumulava em minha mente. De uma noite pra outro dia eu deixara de ser um simples virgem na inocência da selvageria das minhas tentações e me via homem ao encontro das curvas e saliências que não eram distintas ao meu próprio corpo. E naquela mesma toalha que nos secou eu bordei em dias depois o nosso nome, Eduardo e João.
Ele era a pessoa mais estranha que havia cruzado a minha vida. Depois do banho tivemos que esperar uns trinta minutos para que os cabelos dele pudessem secar e recompor os belos cachos. Só não o comparo com um anjo, por que anjos não têm sexo. E era só sexo que tínhamos até então. De repente o ouvi pronunciar as palavras correspondentes às leituras que via em seus olhos. Não imaginava tamanha coragem. Via sua vontade interior desestruturar o seu corpo físico que tremia ao produzir aquelas sonoridades. Foi inevitável! Eu sabia que era diferente o que aquilo provocava em mim. E ouvi Lucy In The Sky With Diamonds dos The Beatles cantar em meus ouvidos. Tive medo de me permitir ser feliz. Digo felicidade pois seria a única resultante de meu entregar. Tem certas horas na vida que temos que ser honesto com nós mesmo e definir o traço de nosso riso, assim como delinear o curso de um rio. E eu sabia que estava preste a gargalhar, mas ainda eram nove horas da manhã. O meu mau humor não permitia. E demos um pausa pro café.
Ele usou uma camisa, calça e também cueca minha. Distribuiu alguns pingos do meu perfume em seu corpo e fomos saciar a fome que já se alimentava em nosso estômago. Eu sentei na mesma mesa de costume e via os olhares dos garçons em minha direção. Mas não entendia o que eles poderiam estar lendo em meu comportmento ou era a minha mente que maquinava todos os olhares para mim, como uma perseguição. Tinha a imprensão de que era o típico cafézinho preto de todas as mesas. Você já se sentiu assim? Não sei, mas todo mundo me via naquele dia e o garçon perguntou: “Feliz hoje, João?” Finji que não entendi a sua pergunta. O que ele tinha com minha vida? A preocupação dele deveria estar única e exclusivamente no meu café expresso e sem açucar e não no que acompanharia a minha bolacha. Tive vontade de levantar, pegar naquele colarinho e estrangular aquele pescoço mais fino que minhas canelas e romper a sua cabeça com tantos encontros que promoveria com a parede amarelo-ovo que se tangeria de vermelho sangue talhado com os meus murros, mas então Eduardo sorriu e replicou dizendo que era inegável a minha alegria, hoje era de fato um dia de mudanças. E eu queria mudar o curso de todas elas. Me vi pela primeira vez na vida em vida e nunca tive curso pra isto. Um guardanapo, por favor.


CONTINUA...

segunda-feira, 26 de março de 2012

Eduardo e João: Parte I

O copo cheio

Todo o amor que tínhamos um pelo outro acabou naquela sexta-feira do dia 30 de março. O nosso amor morreu. O nosso lar se desfez em ruínas, nas lembrabças dos castelos construídos de areia a beira mar. A nossa história com o tempo deixou de ser contada entre os grupinhos pelas ruas. Caímos no esquecimento de todos. Naquela espécie de buraco negro onde todas as memórias se escondem com o tempo, e com tempo pra perder ou ganhar. Sem a pressa do horário do almoço! E já faz tempo que tudo isto aconteceu. Ainda assim, foi a mais bela história de amor que eu vivi em toda minha vida. Ou posso arriscar dizer que foi a única vez que amei. Talvez não por que tenha sido o maior amor o que o torna especial, mas foi o último. O que ainda tenho em minhas lembranças vejo refletido neste copo d’água em temperatura ambiente com gosto de fel nos perfumes de elixir paregórico das soluções das diarréias da infância. Fico a pensar no quanto somos volúveis e mesquinho com as marcas que o tempo vai escrevendo em nossa pele. As lembranças povoam em minha mente como varejeiras em torno de corpos necrosados, fétidos, numa decomposição que me funde ao solo e não me permiti locomover minhas pernas no espaço. Sinto-me fundir neste cemitério de sentimentalidades de minha cabeça insana.
O que você prefere, cerveja ou vodca? Por mais estranho que pareça foi com esta frase que começou toda esta história. Eu estava num bar com um grupo de amigos quando a conheci. Era jovem, delicada, bonita, recém chegada à cidade e ainda encantada com a boa recepção de todos. Normal, sempre somos muito simpáticos e hospitaleiros a primeiro instante no interior. E com esta pessoa não poderia ser diferente, era extrovertida, inteligente, enfim, uma companhia formidável. Em resposta a minha pergunta foi imediata e convicta: “Por mim pode ser até gasolina.” Me respondeu já desenhando risos e logo gargalhadas no rosto. Eu já sabia que não saberia lidar muito bem com o que via acontecer entre os nossos olhares. Eu tinha medo do que via, pavor do que sentia, mas algo no mais íntimo me fazia prosseguir. E eu prossegui. Até que chegou o amanhã e no nosso amanhecer erámos muito mais que íntimos. Éramos corpos entrelaçados entre pernas, braços, suor seco e cabelos. Tramas de tricô tecida de lã que desnuda ovelhas encobria nossa natureza. Éramos nós dois. E um momento.
Era claro que o constrangimento se instaurou entre os nossos gostos de hálito contaminado em cigarros e cervejas. Como fumamos. Tragávamos os cigarros como famintos que buscavam trazer a satisfação pra dentro de si e prendê-la entre os pulmões e traquéia, numa sensação estranha de que todo o vazio que existia em meu mundo dava lugar à plenitude.
Havia de ter maior criatividade a culpa para nos roubar a alegria da fantasia que tivemos na noite que mal dormimos. Havia uma beleza nobre nas cores de nossa timidez. Eu não sei muito bem como explicar, mas sentia que os calafrios das acusações dos pudores e desamor se desmanchavam entre os toques e retoques que se reiniciavam em nosso lençol e eu convidei para um café da manhã. Queria roubar de sua pessoa o tempo que corria como ladrão em fuga flagrante de nós dois e foi no sim, não menos inevitável e imediato que vi a paz de desentender que pela primeira vez na vida poderia me apaixonar e desconstruir todo o forte que torturou o meu pesadelo. Ele em seus olhos verdes de contraste a pele amarronzada sorriu pra mim.


CONTINUA...