quinta-feira, 12 de março de 2026

TIC TAC

Há dias em que sorrio como quem assina presença na própria vida, mas por dentro algo em mim permanece em silêncio, sentado num canto escuro, esperando ser ouvido.
Para não assustar ninguém, apelidei essa algazarra interior de ansiedade barroca. Dessas que vestem a dor com rendas e metáforas para que ela pareça apenas uma excentricidade da alma.

Carrego pequenas penumbras por trás de um sorriso educado.
Sorrio como quem acende uma lâmpada para os outros, enquanto dentro de mim ainda é madrugada. Meu sorriso oferece acolhimento, presença, calor humano, mas raramente confessa que também sente frio.
Pedir ajuda é um idioma que esqueci na infância. Ou talvez seja um analfabeto emocional.
Quando tento reaprendê-lo, descobri-lo, decifrá-lo, as palavras tropeçam na garganta. E, quase sempre, do outro lado, encontro apenas a pressa, essa senhora impaciente que governa os nossos dias. E digo sem mero julgamento.

Vivemos todos sequestrados por nossas próprias ansiedades.
Reféns de um egoísmo apressado que nos faz correr pela vida como passageiros atrasados em um aeroporto imaginário. Tudo é para ontem. Tudo é urgente. O hoje virou apenas o corredor estreito que leva ao embarque do amanhã. Quando não o perco.

Não degustamos mais a existência. Sobrevida nos perpetua.
Queremos apenas fotografá-la, etiquetá-la, exibi-la como um prato caro num restaurante estrelado. A vida virou vitrine de prêmios Michelin emocionais, enquanto o pão quente da simplicidade esfria sobre a mesa.

E eu…
Eu tenho fome.
Fome de cuidar de gente. E ser cuidado.
Fome de tocar vidas sem a burocracia dos gestos vazios. Fome de vencer, não para subir em pedestais, mas para provar que ainda é possível existir com alguma dignidade nesse teatro de urgências.

Há um sonho dentro de mim tentando respirar.
Ele bate nas paredes do peito como um pássaro que descobriu tarde demais que nasceu para voar. Às vezes quase o silencio, com medo de que ele me leve a lugares onde eu ainda não sei quem sou.

Mas hoje algo mudou de lugar dentro de mim.
Talvez a vida não seja essa sucessão de relógios nervosos.
Talvez ela seja mais parecida com uma panela no fogo baixo, onde os aromas se encontram devagar e inventam um sentido inesperado para o mundo.
Eu preciso de sabor.

Preciso de experiência.
De cor.
De palco.
De risco.
Eu preciso de vida.
E começo a suspeitar, com a delicadeza de quem escuta o próprio coração pela primeira vez que a vida não esteja talvez lá fora me esperando.
Talvez ela esteja aqui dentro, batendo à porta do meu medo e pedindo, com paciência infinita, para finalmente nascer. E como inquilina fiel e leal fazer morada.

Quem sabe a cura venha?

segunda-feira, 9 de março de 2026

EM REQUINTE

tem gente que te traz risos soltos
e te prende na leveza de uma conversa 
te olha com a janela da alma aberta
e traz ar puro, leve e fresco ao peito
tem gente que faz bem
e é do bem

tem gente que inspira paz
fala de sonhos e dissipa os medos
que a gente não tem pressa de ir embora 
que quer levar pra casa 
guardar num potinho
e é doçura 

há também gente que só quer ser mais gente
e nos preenche cada lacuna com afago
numa troca de livros 
numa música intrigante 
que cala o peito
E faz gritar o silêncio 

em requinte da simplicidade 
é príncipe do lar
no afago sincero é casa ao abraçar 

SIMPLICIDADE

eu nada tinha
além de um coração que pulsava fé 
eu pouco via
além da mão furada que me pôs de pé 

cravos sangraram Seu corpo
cheiro das rosas Ele pôs em mim
tudo no nada ou pouco
Ele é vida além do fim

eu O vejo na simplicidade
O conheço além das palavras
é a voz mansa na tempestade
passo firme sob as águas 

eu O tenho na naturalidade
e o sobrenatural se manifesta 
caminho seguro, luz e verdade
a paz que excede a humana pressa

O vi sem nada ver
O senti sem nada tocar
O recebi sem nada falar
Jesus além do ter é O SER
sem Jesus sou folha seca no ar



sexta-feira, 6 de março de 2026

STRANGERS ON THE OTHER SHORE

you were a river in my veins,
now only echoes in the rain
time slipped softly through our hands,
and love got lost between the lands

we read between the lines of sighs,
two restless hearts beneath the skies
but silence grew where words once were,
and loving you went a bridge too far

now when our lonely shadows meet,
we pass like strangers in the street


domingo, 15 de fevereiro de 2026

GRAVETOS

 Dor é sentir saudade,

E matar a existência;

No peito, a verdade,

Que se chama ausência

sábado, 31 de janeiro de 2026

LINHA E AGULHA

Havia uma ferida profunda na alma

Um rasgo multilateral dilacerara o riso

Uma fluidez de sentimentalidades

Uma liquidez de toda e qualquer sanidade

 

Atrás do empenho por vida

Residia a desistência pelo pote de ouro

No discurso já não havia lugar para fantasia

A azia queimava na garganta

E no coração congelava o curso de outrora rio

 

Com a maestria e pureza humana

De quem celebra um ritual sagrado e profano

Pus-me, com linha fina e agulha rígida e impetuosa

Costurar os meus cacos humanos

 

Cada vez que essa atravessava meu tecido

Sentia-me vestir de novidade esperança

As lembranças dos desaforos

Em meus poros exalavam paz

E eu nem a compreendia

 

Eu já não esperava no cais sozinho

Tampouco temia me lançar no rio

Que minhas lágrimas produziram

Eu tinha a mim como parceria, menino

 

Sempre é tempo de alinhavar os cortes da dor

Sempre é tempo de realinhar o ar com o interior

Não importa a velocidade que vamos

Mas sim a direção que estamos indo

 

Ouvi isso hoje de um amigo

Ninguém é imensidão sozinho

 


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

VÍSCERA

 eu me sinto só

mas não vazio

excesso


excesso de eu nos outros

de outros em mim

que nunca ficaram

fincam


sempre a(mar) sem amar a volta

sempre per(doar)

como quem doa o próprio ar


conjugo o amor no erro

eu fico

tu somes

ele promete


eu sonho com paz

mas namoro a trincheira

porque amar, pra mim

sempre foi guerra sem medalha


dispenso o conflito

mas conflito me escolhe

me disponho a dois

e me deixam em ímpar


meu voo é terra

porque cansei de cair do céu

achando que era destino

quando era abandono com asas


sou casa sem visita

porto sem chegada

coração em modo avião

esperando uma mensagem

que nunca aterrissa


e ainda assim

olha o vício:

se você bater

eu abro.


porque amar, em mim

não é verbo 

é víscera