quarta-feira, 4 de novembro de 2026

ESTAÇÕES

eu ri
eu acho que chorei
um rio, riacho de tentei

palavras de dores
que nunca contei
me lavram as cores que nublei

trocando os passos eu remei
coração, despacho ofertei

mas nada na vida é uma só mão
depois da partida solidão

eu vou me guardar pro amor da vida
eu vou  encontrar-me no verão
o inverno que há na despedida 
não vai congelar meu coração

se a chuva chegar vou levar as feridas
com ela dançar por diversão
pro rancor que há mostro a saída 
em paz revelar novas versões

SE VOCÊ QUISER

Hoje eu queria você aqui.

Não para resolver os mistérios do mundo, nem para explicar por que algumas pessoas chegam e, mesmo depois de partirem, continuam ocupando os cômodos da gente. Inquilinas que nos pagam insônia, anseio e reservas. Queria você por coisas pequenas. Que são, desconfio, as coisas nuances Itacolomi.

Queria ouvir aquela sua voz que se empolgava contando segredos dos quais Cazuza diria serem de liquidificador, sem mentir, sem abusar da educação, mas destilar as intenções. Queria interromper uma história, começar outra, perder o assunto e encontrá-lo de novo numa gargalhada. Queria dançar um Cazuza com você, jantar o nosso prato predileto, deixar a noite acontecer sem a obrigação de chegar a lugar algum. 

E não me importaria se você precisasse ir embora sem lavar a louça. De verdade. Porque a minha alma você já lavou de uma tristeza silenciosa que, há tanto tempo, me acompanha. Há pessoas que não sabem, mas chegam com as mãos cheias de água e, sem perceber, devolvem alguma transparência aos nossos dias.

Hoje eu estava, ou estou, entregue à generosidade de compartilhar o melhor que tenho. Não porque tenha muito, mas porque aprendi que a esperança, quando repartida, não diminui. Queria lhe oferecer essa pequena desobediência de acreditar na felicidade. De acreditar que ainda é possível baixar a guarda, abandonar as trincheiras, descansar o corpo da guerra que ninguém declarou. E nos feriu. Por fim, não mais proteger-nos o nosso nome por amor, mas por amor sussurrarmos-nos gentis vocativos sem gerúndios.

Talvez toda essa armadura que você vestiu tenha sido construída para proteger justamente aquilo que você mais temia perder. É difícil se dar. É difícil confiar. Todavia receber quando vozes de antigos amores nos julgam incapazes ou indignos. O amor lança fora todo medo, dizem. Mas talvez seja justamente no medo que o amor encontre sua matéria mais humana: esse susto de permitir que alguém nos veja sem as paredes, sem os disfarces, sem a necessidade de parecer invencível. Que dedilha um Benito de Paula nas teclas das cicatrizes, que surfe nas ondas das lágrimas ou chacoalhe junto quando o receio abafar. Afinal, não somos em todos os toques um vulcão em erupção. Há em mim crateras adormecidas, outras mortas.

Eu queria ser a fluidez do Paraíba do Sul, esse rio que corre, às vezes desesperado, em direção ao mar. Queria ser como as corças que suspiram pelas correntes das águas. Como a chuva de verão que, serôdia, toca o chão ressecado e não consegue devolver o tempo perdido, mas liberta da terra aquele perfume que nos faz lembrar que, um dia, um dia tivemos paz. E não tanto faz.

Hoje eu queria você inteiro. Despido das urgências, das defesas, dos receios. Queria você entregue, dançando naquela sala de não mais que quatro metros quadrados, onde cabia uma multidão porque o mundo, quando era nosso, não precisava de tamanho.

Ensaio nosso samba anos inteiros, mesmo em passos quebrados sobre retalhos de cetim. Eu sambei, desfilei, chorei na avenida e você, que jurou, mentiu. 

E talvez seja isso a saudade: descobrir que um espaço tão pequeno pode conter uma geografia inteira. Que uma voz pode continuar fazendo barulho mesmo no silêncio. Que há ausências que não desocupam a casa.

Hoje eu queria você aqui.

Desculpe. Mas, assim como a cantora, eu amanheci com febre.

E há febres que não se medem com costas de mãos. São apenas o corpo tentando dizer aquilo que a boca, por prudência ou covardia, ainda não conseguiu esquecer. Nem a palma da mão tocar.

Se você quiser...

BANDOLIM

eu já não falo mais do teu nome
porém um eco de tua voz eu sou 
você um homem, eu um outro nome
pecando por não se render ao amor

fica em minha casa
que eu te dou asa
se não souber voar
se joga que eu te pego 

um toque, uma brasa
no peito que abraça
também silenciar
ruídos, antigos medos

deixa eu te pegar
deixa em ti pecar
deixa eu ser uma peça do bandolim

em ti retirar
sem me retirar 
deixa eu morar em festa que nunca tem fim

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A SOLIDÃO TAMBÉM MORA AQUI

Há dias em que os segundos parecem fiscais da nossa existência. Cobram produtividade, pontualidade, superação. Querem que a gente seja perfeito até no cansaço, eficiente até na exaustão. E lá vamos nós, performando a coreografia dos dias, fingindo que o corpo acompanha a pressa da vida.

Hoje, eu, que costumo oferecer ao outro uma escuta quase sacerdotal, entre o sagrado e o profano, me deparei com uma frase que ficou ecoando em mim. Uma senhora me disse: “Pedimos que Deus nos dê a mão diante das adversidades, mas poucas vezes pedimos que Ele toque o nosso coração.” Talvez seja isso. Ter um coração parecido com o dEle. Capaz de sentir o pulsar de cada ser humano sem se corromper. De perdoar até as afrontas disfarçadas de superioridade, aquelas que sussurram, sem dizer: sou melhor que você.

Tenho sentido saudades. Muitas. Inclusive de um eu que nunca fui. É estranho sentir falta de alguém que ainda não nasceu dentro da gente. Talvez eu esteja à procura desse homem para, finalmente, ser inteiro meu. E quem sabe repartir um pedaço, ou tudo, com alguém. Afinal, sou taurino. Também gosto de permanências, de afeto com endereço, de gente que não tenha medo de ficar.

Chego em casa e a solidão me recebe sem perguntar como foi meu dia. Já vai tomando conta do sofá de dois lugares, folgada, espaçosa, querendo invadir o meu lado. Assiste à minha série, escuta meu podcast e, quando percebo, já está se oferecendo para deitar na minha cama. Não paga aluguel, não lava a louça, não vai embora. Uma inquilina inconveniente, dessas que chegam sem convite e ainda reclamam da mobília.

Mas talvez o problema não seja a presença dela. Talvez seja o que faço com a minha própria presença quando ninguém mais está por perto. Porque posso passar o dia inteiro acolhendo urgências, escutando histórias, respondendo às expectativas do mundo e, ainda assim, chegar em casa sem saber ouvir o que grita dentro de mim.

E então penso: se sou uma morada, por que tantas vezes pareço viver do lado de fora? Talvez eu não precise encontrar o homem que nunca fui, mas dar a ele espaço para existir. Sem a obrigação de ser extraordinário, sem a pressa de me superar, sem a necessidade de provar que dou conta de tudo.

Afinal, se sou uma morada, eu posso habito em mim. E talvez esteja na hora de parar de ser visita na minha própria casa e me assentar no banco se madeira na varanda, passar um chá e ler um delicioso livro entre os sabores do incenso e Djavan. E quem sabe esperar você chegar, pois como diz o poeta: ninguém é amar sozinho.

PAZ

o teu toque é uma fúria
a tua mão labirinto
o teu olhar me procura
você brinca e eu não brinco

teu equilíbrio, loucura
tua verdade o que eu minto
caçando sempre uma cura
em sete vidas que eu pinto

deixa lá meu coração
distante de você
oxalá, eu saber me proteger

oxalá, meu coração
diante de você
deixa lá eu saber me escolher

na minha boca amargura
saudades do que não sinto
a minha pele, armadura
eu guerreando em paz, faminto

que eu colha paz
que eu ame a paz
que eu viva a paz
não tanto faz