quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A SOLIDÃO TAMBÉM MORA AQUI

Há dias em que os segundos parecem fiscais da nossa existência. Cobram produtividade, pontualidade, superação. Querem que a gente seja perfeito até no cansaço, eficiente até na exaustão. E lá vamos nós, performando a coreografia dos dias, fingindo que o corpo acompanha a pressa da vida.

Hoje, eu, que costumo oferecer ao outro uma escuta quase sacerdotal, entre o sagrado e o profano, me deparei com uma frase que ficou ecoando em mim. Uma senhora me disse: “Pedimos que Deus nos dê a mão diante das adversidades, mas poucas vezes pedimos que Ele toque o nosso coração.” Talvez seja isso. Ter um coração parecido com o dEle. Capaz de sentir o pulsar de cada ser humano sem se corromper. De perdoar até as afrontas disfarçadas de superioridade, aquelas que sussurram, sem dizer: sou melhor que você.

Tenho sentido saudades. Muitas. Inclusive de um eu que nunca fui. É estranho sentir falta de alguém que ainda não nasceu dentro da gente. Talvez eu esteja à procura desse homem para, finalmente, ser inteiro meu. E quem sabe repartir um pedaço, ou tudo, com alguém. Afinal, sou taurino. Também gosto de permanências, de afeto com endereço, de gente que não tenha medo de ficar.

Chego em casa e a solidão me recebe sem perguntar como foi meu dia. Já vai tomando conta do sofá de dois lugares, folgada, espaçosa, querendo invadir o meu lado. Assiste à minha série, escuta meu podcast e, quando percebo, já está se oferecendo para deitar na minha cama. Não paga aluguel, não lava a louça, não vai embora. Uma inquilina inconveniente, dessas que chegam sem convite e ainda reclamam da mobília.

Mas talvez o problema não seja a presença dela. Talvez seja o que faço com a minha própria presença quando ninguém mais está por perto. Porque posso passar o dia inteiro acolhendo urgências, escutando histórias, respondendo às expectativas do mundo e, ainda assim, chegar em casa sem saber ouvir o que grita dentro de mim.

E então penso: se sou uma morada, por que tantas vezes pareço viver do lado de fora? Talvez eu não precise encontrar o homem que nunca fui, mas dar a ele espaço para existir. Sem a obrigação de ser extraordinário, sem a pressa de me superar, sem a necessidade de provar que dou conta de tudo.

Afinal, se sou uma morada, eu posso habito em mim. E talvez esteja na hora de parar de ser visita na minha própria casa e me assentar no banco se madeira na varanda, passar um chá e ler um delicioso livro entre os sabores do incenso e Djavan. E quem sabe esperar você chegar, pois como diz o poeta: ninguém é amar sozinho.

PAZ

o teu toque é uma fúria
a tua mão labirinto
o teu olhar me procura
você brinca e eu não brinco

teu equilíbrio, loucura
tua verdade o que eu minto
caçando sempre uma cura
em sete vidas que eu pinto

deixa lá meu coração
distante de você
oxalá, eu saber me proteger

oxalá, meu coração
diante de você
deixa lá eu saber me escolher

na minha boca amargura
saudades do que não sinto
a minha pele, armadura
eu guerreando em paz, faminto

que eu colha paz
que eu ame a paz
que eu viva a paz
não tanto faz


sábado, 24 de outubro de 2026

EU AMEI O AMOR

O coração é uma caixa de música. Dessas que a gente abre sem saber exatamente o que vai ouvir. Há sempre uma melodia repetindo o mesmo compasso, e, de tanto ouvi-la, a gente se distrai do que ela esconde. Porque há segredos que moram justamente naquilo que se repete. Sentimentos que dançam em círculos para não encontrar a porta de saída. E a gente sente. E, às vezes, ressente. Outras, desmente o próprio coração, como se a mentira pudesse ensinar silêncio àquilo que nasceu grito.

O amor é único. Não porque só aconteça uma vez, mas porque nunca acontece da mesma maneira. O amor é puro, mesmo quando a gente é confuso. Tem urgência de ontem, uma pressa antiga de quem reconhece no agora alguma coisa que não pode deixar para depois. O amor nos chama antes que a boca aprenda o nome, antes que o medo organize as razões, antes que a vida, tão cheia de compromissos, nos convença a adiar o que nos faz vivos.

E não, o amor não é inexplicável porque seja maior que a razão. Nem porque nos dispense da responsabilidade de sentir, de crescer, de amadurecer. Talvez seja justamente o contrário. Amar é uma escolha lúcida, dessas que a gente faz sabendo que o outro não veio ao mundo para nos completar, mas que, ainda assim, escolhe permanecer. Ficar quando a novidade perde o brilho. Cuidar quando o encanto pede descanso. Recomeçar sem transformar a permanência numa prisão. O amor também é pensamento. É decisão. É o coração assinando embaixo daquilo que a consciência compreendeu.

Eu louvo a vida. Pelos que permiti entrar, pelos que insistiram sem arrombar minhas portas, pelos que chegaram sem prometer eternidade e, ainda assim, ficaram. Louvo os que fizeram morada sem exigir escritura, os que tocaram minhas partes mais escondidas e não fugiram quando descobriram que eu também sou feito de desencontros. Porque há gente que chega e nos divide. Mas há gente que nos reparte de tal maneira que, em vez de diminuir, a gente se multiplica.

Talvez seja isso: a gente nunca ame sozinho. Há sempre uma multidão acontecendo dentro de um abraço. Os que fomos, os que tentamos ser, os que abandonamos pelo caminho. E, quando alguém nos toca de verdade, alguma coisa em nós reconhece o mundo inteiro naquele pequeno espaço entre duas peles. Somos infinitude em toques, em retoques, em entre toques. Somos o universo cabendo, por um instante, na delicadeza de uma mão que não solta a outra.

E quando a caixa de música se fecha, a melodia não acaba. Continua em algum lugar que os olhos não alcançam. Porque amar também é isso: descobrir que certas presenças não precisam estar diante de nós para continuarem acontecendo. O coração guarda o que a memória não sabe organizar. E, às vezes, basta um cheiro, uma palavra, uma canção atravessando a tarde para que tudo volte a girar.

Por isso, quando me perguntarem o que é o amor, talvez eu não responda. Não por falta de palavras, mas porque já me cansei de tentar aprisionar o infinito numa definição. Prefiro abrir a caixa. Deixar a música tocar. E agradecer a quem, em algum momento da vida, escolheu dançar comigo. Mesmo sem conhecer a letra, mesmo sem saber o próximo passo, mesmo sabendo que toda música um dia silencia.

Porque, no fim, não é sobre a música que toca. É sobre quem permanece quando ela termina. E tudo pode recomeçar... Pelo amar!

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

DOIS DE DEZ

Hoje vesti minhas melhores máscaras sociais. Saí da cama, escovei os dentes, almocei, jantei. Cumpri o protocolo mínimo da sobrevivência. De zero a dez, fui dois. E o mais irônico é que minha vontade de dar certo era mil.

Há dias em que somos funcionários exemplares da própria sobrevivência: sorrimos, respondemos, comparecemos. Por dentro, um departamento inteiro de afetos está em greve. Mas o mundo não gira em torno do nosso umbigo. Nem mesmo quando tudo em nós implora por uma pausa na órbita.

Eu tento porque ainda acredito no caminho. Mas parar também é verbo, também é movimento. Às vezes, tudo o que temos a oferecer ao dia é a nossa falta de produtividade. E talvez seja muito.

Hoje vivi o sobrenatural de Deus na banalidade de sobreviver a mais um dia. Venci medos, atravessei a falta de coragem. Não movi montanhas. Corte o Gamba. Apenas fui. E, para quem conhece o peso de certas manhãs, esse pequeno verbo tem a dimensão de um milagre.

O dia terminou com alguém que não conhece nem um terço da minha história, mas soube tocar justamente onde eu precisava. Não pediu explicações, não tentou consertar minhas dores. Apenas me ofereceu afeto. Às vezes, quem mal conhece nossos capítulos lê uma linha nossa com delicadeza.

Então vieram três palavras: Jesus loves you. See ya. (Jesus te ama. Até mais.) Talvez Deus não precise abrir os céus para se fazer presente. Às vezes, usa a boca de alguém para nos lembrar de que ainda existe ternura neste mundo.

Hoje fui dois de dez. Amanhã, não sei. Há dias em que vencer é apenas não abandonar a si mesmo. Se me perguntarem o que fiz de extraordinário, direi: nada. Apenas estive aqui. Humano naquilo que não pude, inteiro naquilo que consegui. E, por hoje, isso basta. Talvez reside aí,  graça de Deus!


terça-feira, 13 de outubro de 2026

CONTEMPORANEIDADE

se o amor nos convida ao sobrenatural,
quero andar sobre as águas,
não mergulhar em águas rasas.

quero a vertigem dos abismos,
a insanidade de me entregar
e encontrar, no espelho dos teus olhos,
um pedaço de mim
que ainda não aprendi a habitar

quero descobrir tuas delicadezas
como quem encontra passarinhos
morando dentro de uma árvore antiga
e, enquanto te descubro,
desconhecer-me de novo

quero sussurrar palavras doces
mesmo quando a vida nos oferecer
o sal na companhia do cotidiano 

porque amar talvez seja isso:
descobrir o infinito no outro
sem deixar de se espantar
com o pequeno milagre de nós mesmos

e, se for para amar,
que seja sem a covardia das superfícies,
sem a obrigação da perfeição,
com a alma descalça
e a coragem bonita
de quem mergulha no mistério
sem medo de se reinventar

quero um amor que me desobedeça
quando eu tentar fugir de mim,
que me devolva ao mundo
com os olhos de quem acaba de nascer,
que me ensine a ser outro
sem me exigir que deixe de ser quem sou

um amor que tenha céu,
mas não despreze a terra
que tenha asas,
mas saiba reconhecer o chão
que conheça o abismo
e, ainda assim,
não confunda profundidade com sofrimento
pois não é de dor que tenho sede
é de presença

a tua presença que ausência me conjurou

quero o espanto
a vertigem
o susto de encontrar alguém
e, de repente,
não saber mais onde termina o outro
e onde começa o meu desconhecido

porque amar, talvez, seja isso:
perder por instantes a mobília de si,
mudar os móveis de lugar na alma,
descobrir uma janela
onde antes havia parede
e olhar