sábado, 31 de janeiro de 2026

LINHA E AGULHA

Havia uma ferida profunda na alma

Um rasgo multilateral dilacerara o riso

Uma fluidez de sentimentalidades

Uma liquidez de toda e qualquer sanidade

 

Atrás do empenho por vida

Residia a desistência pelo pote de ouro

No discurso já não havia lugar para fantasia

A azia queimava na garganta

E no coração congelava o curso de outrora rio

 

Com a maestria e pureza humana

De quem celebra um ritual sagrado e profano

Pus-me, com linha fina e agulha rígida e impetuosa

Costurar os meus cacos humanos

 

Cada vez que essa atravessava meu tecido

Sentia-me vestir de novidade esperança

As lembranças dos desaforos

Em meus poros exalavam paz

E eu nem a compreendia

 

Eu já não esperava no cais sozinho

Tampouco temia me lançar no rio

Que minhas lágrimas produziram

Eu tinha a mim como parceria, menino

 

Sempre é tempo de alinhavar os cortes da dor

Sempre é tempo de realinhar o ar com o interior

Não importa a velocidade que vamos

Mas sim a direção que estamos indo

 

Ouvi isso hoje de um amigo

Ninguém é imensidão sozinho

 


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

VÍSCERA

 eu me sinto só

mas não vazio

excesso


excesso de eu nos outros

de outros em mim

que nunca ficaram

fincam


sempre a(mar) sem amar a volta

sempre per(doar)

como quem doa o próprio ar


conjugo o amor no erro

eu fico

tu somes

ele promete


eu sonho com paz

mas namoro a trincheira

porque amar, pra mim

sempre foi guerra sem medalha


dispenso o conflito

mas conflito me escolhe

me disponho a dois

e me deixam em ímpar


meu voo é terra

porque cansei de cair do céu

achando que era destino

quando era abandono com asas


sou casa sem visita

porto sem chegada

coração em modo avião

esperando uma mensagem

que nunca aterrissa


e ainda assim

olha o vício:

se você bater

eu abro.


porque amar, em mim

não é verbo 

é víscera

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

PEPITA

a gente silencia o peito
embora ainda pulse o coração
nessa vazia caixa torácica 

minha mente que constrange o riso montado 
lamenta os trilhos 
que eu mesmo desenhei pra mim

um picadeiro de falsas ternuras 
um abraço de frios acolhimentos
sofrimentos que não choram

hoje teu nome mergulhou
profundamente em águas áureas comigo

você não vale pepita alguma


domingo, 28 de dezembro de 2025

RODA DA VIDA

a vida é uma sequência de ciclos 
que se iniciam, nos confundem, fundem 
sucubem e se findam
dando com extrema generosidade 
um lugar nobre para um novo recomeçar







a vida é um silêncio sem pecado
um prazer maculado pela razão 
a distância do ao lado
e a presença da continuação 






a vida é a certeza do nada sei

mas da permanência pulsante de se aventurar

sem a pretensão de ser rei,
sem a criatividade de ser lei
e com toda simplicidade para o respirar





a vida é ausência 
a ausência é presença 
um presente do passado 
o passado já passou, soou e ressou






eu tenho saudade é do futuro 





terça-feira, 2 de dezembro de 2025

COMPASSO E HARMONIA

 hoje
meus pensamentos se enrodilham
espasmos em sustenido
risos em bemol
lamentos vestidos de silêncio

um grito
sem voz
dentro do peito
pulsante fora de mim