quarta-feira, 24 de setembro de 2025

CANOA

rejeitei a luz do fim do túnel 
busquei a paz no meio ao caos
eu, tão resistente quanto um papel
lacrimejado em canoa sem paus

eu resisti ao medo, aos credos, aos dedos
insistindo em contrariar a razão 
fluindo em graça feito arvoredo
frutificando fé onde reinou solidão 

deixei o impossível se possibilitar
vendo o invisível acontecer
pra quem procura a cura é lar
na loucura de ação por no crer

eu vi nascer o sol 
na persistência de lutar
meio do túnel é arrebol
sobrenatural é acreditar

e vivi pra crer


terça-feira, 23 de setembro de 2025

MAR

amar-me
e me perdoar
sem armar-me
e então recomeçar 

toda dor tem um destino
choro seco feito leito fino
a saudade é presença que falta faz
o pecado é despedir-se pra chorar em paz,

tua voz sempre foi a melhor canção 
o peito que hoje feres já dispôs a mão 
eu remo contra o vento de esquecer
quem ama vive o tempo do permanecer

amar-te
e te libertar
chorar-te
e o mar te dar

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

DOAR E PERDOAR

muita pose
para pouca posse
no passo de reivindicar 
o paço sem rei

nada é real
tudo é pó
que se perde no vento
e só restam os momentos
de quando era ego

o meu eu
ainda conclama nossa paz
o meu céu 
ainda reclama nossos ais
talvez quem sabe
possa Deus nos perdoar 
e que sabe possamos nos doar
o ar do recomeçar

QUANDO O BERÇO SANGRA

Hoje o céu escancarou o que não adormecia em meu peito regrado a pílulas de autocontrole. A chuva insistiu em desabar como se fosse arrancar cada gota de melancolia que eu mantinha cativa no silêncio. Já não adianta disfarçar o torpor do peito nem fingir que os risos mornos compensam o vazio no eco das horas. Cada passo era uma negociação entre o desejo de ser forte e a urgência de ceder ao pranto que escorria, invisível aos outros.

Sinto que carrego dentro de mim uma marcha lenta de pensamentos, pequenas bombas de medo, culpa, expectativa mal resolvida, soterradas pela cortina fria das aparências. Cumpro horários, troco frases feitas, brindo com copos que sabem de minha dor, mas não a refletem. A cevada escorre, gelada, e me observo: sou oceano em tempestade; sou rosto calmo no espelho quebrado.

Onde estará, então, o colo de uma escuta sincera? O abraço que não pesa? A voz que reconhece, sem pedir desculpas, o tumulto que se move sob a pele? Pergunto ao céu, pergunto ao vento, pergunto ao ontem que deixou rastros de cicatriz. Mas a resposta parece vir num suspiro: apenas estou.

E então, quem sabe, nasça amanhã. Que a aurora venha vestida de promessa. Que floresçam nos meus ossos sementes de esperança. Que o mundo volte a ter cor, não por obrigação, mas porque a alma, enfim, permitiu-se abrir pétalas. Que a alegria pequena, aquela que se atreve a sorrir depois da tempestade, me alcance, me habite, me revolução.

Porque se o céu chorou por mim hoje, que eu possa chorar de volta: liberta, inteira, humana, respirando.

Desabar como se fosse arrancar cada gota de melancolia que eu mantinha cativa no silêncio. Já não adianta disfarçar o torpor do peito nem fingir que os risos mornos compensam o vazio no eco das horas. Cada passo era uma negociação entre o desejo de ser forte e a urgência de ceder ao pranto que escorria, invisível aos outros.

sábado, 20 de setembro de 2025

BOM PASTOR

aprender a descansar
confiar no agir de um deus que é  Pai
e nos convida ao refrigério
dos verdes pastos 
ao colo, proteção, escuta
à uma paz que excede o entendimento

é mesmo sem entender o propósito
continuar a jornada
caminhando na dúvida que sucumbe a fé 
crer que até no deserto nasce uma flor 
experimentar nesse deserto
o cuidado, o amparo, o sobrenatural

se deixar ser filho
retornar ao útero da vida
e aguardar nascer um fôlego novo

o sobrenatural se manifesta
na festa do crer
que às águas tranquilas
o Bom Pastor sempre nos guiará