quinta-feira, 13 de março de 2025

PALADAR


Treino minha mente para distrações banais na tentativa idiota de esquecer teu nome. Graça doce que pronuncio no treinamento da fé. E eu odeio sobremesas.
As contrariedades que tua existência produz em mim desafiam os alicerces em que se estabelece minha autoproteção ingênua e tua perspicácia sorri pra mim. Eu gosto disso!
Vivo no paradoxal movimento de lembrar de te esquecer para não recordar a razão ímpar da saudade que amarga o peito. Tua presença agridoça meu dia. Me liquefaz como uma vitamina de leite e abacate com biscoito maisena. Eu gosto disso!
Gosto de imaginar o sabor de tua boca ao encontro de todas as bocas que em meu corpo clamam por ti. Nosso olhar silencia a multidão, nossos compassos silencia a reserva, nossas mãos aquietam a vontade, nosso hálito amenizam as fugas. Minha boca se encharca de ti. E eu gozo disso.
Entre tantas outras coisas, eu quero lamber o teu cérebro.

QUARTO GRANDE


Voltas complexas os ponteiros desenhavam no relógio enquanto na mente os pensamentos se tocavam em sinapses descompassadas. Um quarto faltava ainda para as onze e um edredom azul marinho pespontado por linhas que se inspiravam no mar se esticava na janela no canto esquerdo do quarto no intento de reproduzir a noite. A escuridão no miocárdio reluzia a paz que não há.
No lado de fora da casa, operários de construção destrinchavam a calçada recém inaugurada para a criação de sulcos por onde pudesse escorrer as águas da chuva que estava por vir. O ronco fúnebre do ventilador silenciava a violência que se expandia no concreto cinza, mas em sua cabeça o abstrato tomava forma se alimentando das frustrações cotidianas.
Havia um desespero descoberto em seu olhar.
Nas paredes que se projetavam insinuantes da sala se revelavam as inquietações das tímidas inquilinas pinceladas em algodão cru encoberto por tinta acrílica branca. Tentativas frustradas de negar sua sonoridade.
Havia um choro reprimido em suas gargalhadas.
No lençol limpo e perfumado que descansava em seu leito o que repousava era medo, esgotamento e desejos. Era audível o ruído dos sonhos perdidos no cansaço de esperar.
No quarto grande da casa duzentos e quatro o que residia era o amargo de findo estar.
Quem é herói todos os dias?

quarta-feira, 12 de março de 2025

CICATRIZES

fiz as pazes com as dores
acariciei as cicatrizes 
em minha mente pus flores
cultuando as mortes 
que me fazem vida
sem desperdiçar os odores
exalados das feridas 
fantasiadas de amores


sexta-feira, 7 de março de 2025

QUASE

ontem quase te liguei
por pouco sucumbi ao ímpeto 
de por uma mensagem despretensiosa 
revelar a intenção de saber de você 
bisbilhotar teu silêncio 
aquecer os segundos frios
de tuas respostas não-enviadas
e quem sabe colorir
um riso tenro no teu rosto 

ontem por bem pouco
não morri de saudade
e revelei os espasmos
que velo secretamente na solidão 
de aguardar teu retorno

ontem em minhas vagas ilusões 
conversei com teus abraços
e versei nos olhares discretos uma poesia
por bem pouco não cantei 
na pronúncia de teu nome um blues
enquanto dançava sozinho uma coreografia 
criada para um pas de deux 

hoje eu morri muitas vezes
no todo dia em que me lembro você 

Conta-gotas


partiu em partes regulares a despedida
despistou o olhar
desvirginou a saída
trouxe no verão um inverno em mim 
e em meus olhos inaugurou março 
que lava no peito o renovo do fim
enquanto em seu leito
corre lento o rio ao rir

na ruptura do silêncio 
que se cala o reencontrar