domingo, 15 de junho de 2025

APROVEITAR A FESTA JUNINA E QUEIMAR UNS GRAVETOS

não haveria tua presença 
se não a angústia da ausência 
assim como soam as melodias
na timidez do silêncio 

você é o que cala em mim
minha repetida discrição
teu olhar alfabetiza minha vida
tonifica a alegria
e não são das gargalhadas que canto 

em casa canto de mim 
mora um pronto secreto 
do que poderíamos ter ido 
e nós permitimos ao ir

no silêncio  do segredo 
de sermos dois
temos um ao outro
dói feito respingos de óleo quente nas íris 
me cega, nos mata
e agonizando eu revivo você

tem dias que queria ser o sol
te aquecer, me aquecer
te alimentar, me satisfazer
e saber que o partir 
é só o charme do retorno ama

Te sepulto todos dias 
E em todas as horas te reviverei

quarta-feira, 11 de junho de 2025

GRAVETO

Há ausências que não sabem ser silenciosas. A sua é uma delas.

O tempo passou e ainda me pego pensando em como tudo poderia ter sido diferente. Fomos cúmplices como poucos são. Conversávamos por horas, sobre tudo e sobre nada. Havia entre nós uma conexão rara — daquelas que não se explicam, só se sentem. Eu me sentia visto, ouvido, acolhido. E, talvez sem percebermos, estávamos ali... um no outro, em mim em você, e você em mim. Uma presença intensa, silenciosa e cheia de significado.
Nos faltou maturidade. Faltou coragem. Sobraram ciúmes, inseguranças, medo. E palavras que doeram mais do que eu poderia demonstrar, pois as feridas de amor são feriados prolongados. Assim como são os minutos em que você nunca quis parir.

Mesmo assim, eu nunca imaginei que esse afastamento aconteceria de fato. Eu nunca acreditei em tuas juras se silêncio. Que perderíamos o que tínhamos de tão precioso: nossa fidelidade ingênua, nossa lealdade rara, nossas conversas íntimas, inteligentes, cheias de vida. Nossos almoços simples, preparados com cuidado, na intensidade de quem está inteiro ali — e era isso que me encantava: estávamos inteiros um no outro, mesmo sem saber ou ousar assumir. Mas pra que denominar a paz se tantos já guerreiam por ela em nome de si?

Nunca houve fotos, nem exposições. E, de certo modo, isso também era bonito. Talvez por medo, por proteção, ou apenas por querer guardar aquilo só pra nós. E, egoisticamente ou não, eu gostava de imaginar que esses momentos habitavam também a tua memória com o mesmo valor que tinham pra mim.

Te vejo e te tenho como alguém especial. Sempre tive. Mas as tantas palavras agressivas, os silêncios e a rigidez me feriram. Produziram em mim um abismo de dor, medo, insegurança. E, por que não dizer, rejeição. Ainda assim, há uma parte de mim que não deseja um retorno, mas deseja que a vida te desarme. Que você encontre, de verdade, o sentido de ser homem — humano, sensível, leal. Se o teu pecado foi amar, até Deus já sorrir pra nós.

Desejo que essa revelação te ministre amor. E que, de forma mágica, ao tocar um Djavan, uma música da Cássia Eller, do Natiruts ou do Armandinho, alguma memória te leve não a mim, mas a beleza ímpar que é e pode ser você. E que, mesmo sem querer, um sorriso brote no teu rosto. Destes risos bobos, marotos, magrelos e quem sabe que eu sorrindo também eles se encontrem.

Porque, de verdade, todas as vezes que penso em você com paz, é um belo sorriso que se desenha em mim. 
Que mesmo na distância, você possa sorrir também. Sendo ingrato eu chamaria de livramento, porém sendo pureza eu conclamaria a gratidão, pois foi na tua ausência fria e seca que desconstruídamente encontrei quem é você: tudo que não espero pra mim. Gravetos finos e úmidos pelo ranger do medo não queima em labaredas que exige o amar.



CONVEXO

ele viu partir quem ama
em cada passo inversamente proporcional
partia em si as expectativas do agora
esquartejando o riso acolhedor 
envenenando a doçura que escandalizada 
o leito do rio de suas risadas
que desenhara em sua alma 
o colorido da face que se fez cinza
assim como céu outrora laranjado
as pernas não mais suplantavam a fé 
e assas ainda não tinha carícias
pra nós estômago voarem
soluço discreto o risco fino no coração 
sufocou em convexo o peito
que escalava a faringe 
manteve-se pleno 
assim como convinha a um imperador 
assim como aquele que nunca assumiram um amar
guerreou consigo mesmo suas culpas
e se aniquilou no paralisar
um amante
tudo era bem
tudo está bem
tudo haveria de passar 

mas e quando chora o peito o fel
vale a pena na insensibilidade dos outros
recolher o sabor e insípido gargalhar?

nesta vida solipsista só, 
bem só me resta viver
pois quem por mim choraria o meu mal?

AFIXO

Beijei muitas bocas 
as quais não agraciavam seu nome
Corri entre o mar e docas
em todo vento do outono o esperar consome

me deito na pílula que apraz
me esqueço de mim, da paz
revivo discreto o fim
que todo começo espero 

vejo nas perfeições dos outros
a ânsia apolínea em sufoco
prefixo de amar entre muros
paredes, afixos inseguros

entregas são puros pores-de-sol
barganhas são sempre o prazer
por mim, recuso o sol
do raio distante é você 

nem todo sentir é sentimento
E os que inventei é sempre amar

terça-feira, 3 de junho de 2025

RANHURAS

pensamentos conectados
com o desligar das sinapses 
que reconstroem sua voz
nas ranhuras dos muros
violentados pelas raízes dos coqueiros 
que não me trouxeram sombra
mas assombram meu jardim
com folhas secas
de um amor estéril 

o amar é a imprópria desproteção