domingo, 6 de julho de 2025

O CÃO DA MINHA PAZ

eu
grito o meu silêncio 
pra não enlouquecer 

transo os pensamentos 
só pra entreter

finjo alinhado ser com o respirar
"respira, não pira"
é o manta
que canta a alma
aquela paz que acalma 
meus monstros são minha fauna
eu sigo alimentando o cão da minha paz 

me abraça 
com os minguinhos me enlaça 
sem teu sorrir não tem graça 
eu sigo alimentando o vão da minha paz 

sexta-feira, 4 de julho de 2025

ME ENTREGO

seja o vento me acalma 
seja a paz em minha alma
seja luz pr'eu seguir
seja o além do fim

estou quebrado, cansado
ando descrente
no peito um amargo
mas de Ti dependente
me entrego

seja a vida da esperança 
a pureza das crianças 
seja toque, abraço 
sobre o mar os passos

sou pequeno, sou frágil 
dependo de Ti
sou pequeno, sou frágil 
Jesus, eis me aqui

quinta-feira, 3 de julho de 2025

QUE DOR

A dor é ser que não se qualifica, quantifica, educa.
Nunca pede licença, diz “obrigado”, “muito prazer” ou “por favor”.
A dor invade, rompe, transborda.
A dor se sente e se faz perceber e sentir.
Não a pode esconder, sufocar, blasfemar. A dor é santa, é casta, é vasta. Última pureza.
A dor é virgem que se deita com todos e não goza ninguém.
A dor é partido. Eu sou resto em vão.
A dor é CEP, endereço, sem retorno ou devolução.
A dor é ser que sangra em silêncio e pão.
A dor é o que minto agora.

BREU

 Tem dias que a alma desliga o som do mundo e a gente mergulha na imensidão dos sentimentos, onde só se escuta o eco gélido do que nos falta. Ou do que nos sobra no amargor do deserto.
A cama vira abrigo, prisão e cemitério de planos. Tantos planos! O celular toca e eu deixo morrer no toque. Sem me tocar de compor uma melodia de desculpas e com todas as culpas no pesar. Hoje não. Hoje não dá para inventar um vento fresco para não me espalhar aos olhares.
A ansiedade é um grito com cara de urgência — mas que corre em círculos dentro do peito, criando caminhos infindos e obscuros como uma furadeira, que martela violenta, sambando a tristeza sobre a superfície de uma parede da casa velha arquitetada entre muita mistura de cimento e barro. Ela me convence de que tudo vai dar errado e sem pestanejar tudo vira pó sobre o mão e meus pés descalços, calejados e rabiscados de tantos outros suspiros de proceder.
Lenta, vem depois, as percepções da urgência do respiro, como quem fecha as cortinas do palco e diz: acabou a peça, acabou você. Sem pausa. Sem segundo ato. Sem desfecho feliz. Breu.
Risco fósforos no escuro. Arrisco iluminar o rosto e encarar a dor. Caro é prosseguir o risco de continuar.
Dois fósforos. Três. Quatro. Um por vez. Alguns apagam, outros queimam o dedo. Mas às vezes... um ilumina o quarto todo. E o medo se revela inquilino sem inadimplência.
Tem noites que eu negocio com Deus, com o caos, com o travesseiro. Esqueço que sou péssimo no precificar. 
Vai passar, mesmo que devagar, vai passar.
A gente acha que coragem é levantar bandeira, mas às vezes é só conseguir levantar da cama. É tomar banho depois de três dias e sentir que a água não lava tudo, mas pelo menos desperta alguma coisa. Há alguma coisa ainda em mim.
É mandar mensagem pra alguém, mesmo sem saber o que dizer.
É não se punir por não ser forte o tempo todo. E sambar com aquele vento mórbido que inventei.
Tem dias que ainda escurece por dentro. Tem dias que chove por dentro. Tem dias que o sol é inverno em pleno verão. E poucos verão.
Meu riso esforçado é crônica leal de meu viver. Eu que tropeço no próprio medo. 
Dizem que existe um tipo de flor que nasce no meio do entulho. Será? Sinto em minha respiração o odor dos entulhos que guardo banhados em alfazema.
Quem me dera ser flor, e mesmo com galhos tortos, ou seca, refém dos giros das estações, resistir crescendo, embora hoje não sorrindo, quem sabe um amanhecer, florindo.
Dizem que viver é estar em paz com as estações e sob o pó da solidão de si um carnaval desfilar.


terça-feira, 1 de julho de 2025

GIZ

o peito não aprende a lição
que o silêncio 
rabiscou na lousa da carne

o riso 
esse risco falso no rosto 
desenha esperança com mão trêmula
como se a alegria
fosse só dever de casa mal feito

o giz,
esfarelado de tanto tentar ser palavra
vira poeira nos poros
coceira na alma

sede 
olhar
um só
que varre a superfície
e encontra o fundo
um abismo pequeno
do tamanho exato
do que ainda nos falta

e gargalhadas transbordam